Crianças na Garagem de Livros, na Rocinha: desafio de fazer a literatura parte da infância (Foto: Garagem dos Livros / Facebook / Reprodução)

Rio guarda espaços de resistência literária

Diante de pesquisas que apontam queda do mercado editorial no Brasil, livrarias, sebos e bibliotecas lutam pela democratização do acesso à literatura

Por Maria Beatriz Moraes | ODS 4

Publicado em 08/10/2026 - 09h11 (Atualizado há 8 minutos)

Tempo de leitura: 11 min

Se você passar pela praça Saens Peña às 3 horas da manhã, irá se deparar, em um beco iluminado, com uma loja de livros aberta. O Sebo Rua das Flores, localizado na rua homônima, no bairro da Tijuca, na Zona Norte, é a única livraria 24 horas do estado do Rio de Janeiro. O horário de atendimento integral da loja faz parte de um projeto de urbanização feito no início da década de 90 pelo então prefeito César Maia. Em 1993, a passagem entre as ruas Conde de Bonfim e Santo Afonso era frequentada por usuários de drogas, moradores e criminosos. Hoje, a via é repleta de bancas de flores e seus quiosques são tombados como Patrimônio do Rio.

Leu essa? Em tempos de IA e redes sociais, o desafio de encontrar os pequenos leitores

Entre as plantas e flores dos mais diversos tipos, um sebo parece deslocado no beco, mas essa loja é ainda mais antiga do que a revitalização. Administrada atualmente por Ítalo Nunes e Lucas Araújo, filhos dos fundadores da banca, os jovens contam que a ideia do pai, Júlio Domingues, era ter um ponto em cada extremo do metrô. Janine Nunes, esposa de Seu Domingues, ficava em Ipanema, enquanto ele ficava em frente à praça Saens Peña. A venda na Zona Sul, no entanto, não parecia render muito e o casal decidiu se fixar no bairro da Tijuca.

Nos tempos de ouro da cultura tijucana, a Praça Saens Peña era um polo de cinemas de rua, considerada a segunda Cinelândia carioca. Eram os cinéfilos os principais clientes da banca, que ficava entre os extintos Cine Carioca e Cine América. Lucas Araújo comenta que os leitores dessa época, na década de 80 e 90, eram pessoas mais velhas: “Era uma preocupação nossa, que quando esses clientes que vinham há tantos anos aqui, morressem, a gente não sabia como seria essa renovação”. A renovação, no entanto, veio de onde menos se esperava, de uma atividade considerada inimiga da literatura: a internet.

Receba um resumo com nossas notícias e colunas. É de graça!

Veja o que já enviamos

Na pandemia, o debate literário se expandiu pelas redes sociais. Em busca de novas conexões em um tempo de isolamento social, uma comunidade que falava sobre livros foi criada no TikTok. A hashtag #Booktok diversificou o perfil dos leitores e aproximou o jovem, nativo do ambiente digital, da literatura. Lucas sentiu esse impacto em sua banca:  “os jovens estão tomando a frente na compra de livros”, conta.

Outra livreira que percebeu essa mudança foi Ana Maria Albernaz. Sócia da tradicional Livraria Beta de Aquarius, no bairro do Catete, na Zona Sul ela “percebe que claramente tem uma renovação no público”. Ana conta que, no início dos anos 2000, a livraria era frequentada por intelectuais, estudantes de mestrado e doutorado, mas que o cenário mudou nos últimos anos. “Hoje eu vejo que a livraria é frequentada por todo tipo de público”, afirma a livreira da Beta, também um sebo que compra e vende livros usados.

Cliente folheia livro no Sebo Rua das Flores na Tijuca: livraria na calçada é a única aberta 24h por dia no estado do Rio (Foto: Sebo Rua das Flores / Instagram / Reprodução)
Cliente folheia livro no Sebo Rua das Flores na Tijuca: livraria na calçada é a única aberta 24h por dia no estado do Rio (Foto: Sebo Rua das Flores / Instagram / Reprodução)

Contrariando estatísticas

 O brasileiro está lendo menos. É isso que aponta a pesquisa Retratos da leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró Livro (IPL). Desde 2007, o número de leitores no país era muito próximo a 50%, mas, nos últimos quatro anos, o Brasil perdeu 6,7 milhões de leitores. O sebo Rua das Flores, no entanto, conseguiu driblar essa estatística. Na pandemia, os livreiros se viram forçados a migrar as vendas para as redes sociais, por isso abriram uma página no Instagram e iniciaram o comércio online. Em um espaço ao lado da banca, há pilhas de livros embalados prontos para serem enviados por correio.

Lucas diz que estão “vendendo mais do que vendia antes, porque dependiam do público que só vinha aqui” e credita essa performance à comunidade digital: “todo livro que é bem falado na internet, as pessoas vêm buscar”. Ele conta que as adaptações literárias também impactam na procura dos livros, os filmes e séries baseados em livros atraem fãs do audiovisual para a literatura.

Ana, da Beta de Aquarius, também se encaixa nessa contracorrente das vendas. Para ela, a experiência de ir à livraria valorizou-se no pós-pandemia e a livreira percebeu que novos clientes passaram a frequentar a loja depois do período de covid-19. Por esse relacionamento com a experiência de visita presencial, apesar do aumento do preço do aluguel no espaço que ocupava há 25 anos, ela nunca cogitou fechar a loja física e apenas mudou de endereço: “A livraria é um lugar onde as pessoas fazem muitas descobertas, um convite para conhecer outras coisas”

Apesar de não sentir a queda de leitores em sua loja, Ana não ignora as barreiras na conexão das pessoas com a literatura. Ela cita “a falta de incentivo à leitura, baixa escolaridade e uma distribuição de renda que não permite que as pessoas comprem livros novos”.

Clientes na livraria e sebo Beta de Aquarius: mudança de público (Foto: Beta de Aquarius / Instagram / Reprodução)
Clientes na livraria e sebo Beta de Aquarius: mudança de público (Foto: Beta de Aquarius / Instagram / Reprodução)

Literatura como resistência

A elitização da cultura é uma das preocupações da comunidade literária. A pesquisa do IPL aponta que 62% da classe A são leitores, contrastando com 35% das classes D e E. Na Rua das Flores, Lucas considera o seu trabalho uma resistência. Enquanto nas livrarias comuns os livros custam em média R$ 55,00, os sebos surgem como uma forma de democratização de leitura, com obras partindo dos R$ 2,00. Além disso, a banca promove periodicamente a doação de livros. Uma mesa é colocada em frente à banca e, por ser uma área de grande circulação, esse ato aproxima as pessoas do universo literário.

Um gênero que Lucas destaca nas doações é a literatura infantil. Ele defende que o alto preço desses livros é o maior obstáculo para a diminuição da estatística lamentável da falta de leitores no Brasil. A preocupação vem da família. A mãe do vendedor, Janine, dizia que “o livro infantil tem que ser o mais barato, para tornar aquela criança uma amante da leitura”.

Um projeto que se preocupa com isso está na maior favela do Rio de Janeiro. A Garagem das Letras, na Rocinha, é uma biblioteca comunitária voltada para o público infantil. Bárbara Olivi, uma italiana que trabalhava como guia turística na cidade do Rio, observou uma grande quantidade de crianças em situação de rua. O impacto de ver os pequenos trabalhando a motivou a criar uma fundação. “Óbvio que naquele momento a prioridade era abrigo e alimentação, não era a literatura”, conta a fundadora do projeto.

Crianças na Garagem das Letras, na Rocinha: biblioteca comunitária voltada para o público infantil (Foto: Garagem das Letras / Instagram / Reprodução)
Crianças na Garagem das Letras, na Rocinha: biblioteca comunitária voltada para o público infantil (Foto: Garagem das Letras / Instagram / Reprodução)

A literatura, no entanto, ajudou a conectar a italiana com as crianças em situação de vulnerabilidade. Barbara conversava com elas e considera essa troca “a primeira forma de literatura”. Além disso, ela organizava idas para a praia com as crianças e liam jornais juntos. A mulher percebeu que estava no caminho certo quando um menino recusou uma oferta de ir ao mar com o amigo e preferiu ficar na areia conversando e lendo. “É difícil individualizar o momento em que qualquer coisa nasce”, conta Barbara. A motivação de ajudar as crianças a terem uma infância digna foi o principal motor do projeto.

Em meio à entrevista, a bibliotecária interrompeu a conversa para perguntar à sua contadora, Evelyn Freire, sobre uma criança parada em uma parede em frente à biblioteca. Na mesma rua em que o projeto funciona, há um ponto de venda de drogas – a criança esperava seu irmão comprar o produto, explicou Evelyn à italiana. Quando o menino retornou para buscar sua irmã, Barbara, surpresa ao ver a idade do comprador, disse com lágrimas nos olhos: “é apenas uma criança”.

Em meio às mazelas do abandono social, Barbara denuncia a postura do governo em relação à educação pública: “Durante a pandemia, quando a gente distribuía cesta básica, 75% das nossas famílias não sabiam nem assinar o nome. Como é que vamos pretender que leiam se a escola não alfabetiza?”. Acrescenta, ainda, que as camadas mais pobres são as mais afetadas. “Eu frequento um âmbito onde essa porcentagem é muita alta”, diz a fundadora referindo-se à Rocinha.

Ao traduzir o sentimento de levar a literatura para as crianças, Barbara considera que “esses jovens foram meu primeiro campo de batalha”. O seu trabalho é sinônimo de resistência, transformou a vida das crianças que cruzaram seu caminho. Recentemente, reencontrou uma jovem que frequentou o projeto, que disse à italiana: “Agora eu entendo quando você falava de como o livro pode virar seu melhor amigo, porque ele virou”.

(*) Trabalho produzido para a disciplina Reportagem I, do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), sob a orientação dos professores Luan Pazzini Bittencourt e Marcelo Kischinhevsky.

Apoie o #Colabora!

Faça parte da campanha “10 anos, 101 apoiadores” e ajude a fortalecer nosso jornalismo independente e de qualidade. Com apenas R$ 20 por mês (menos de R$ 0,70 por dia), você já contribui para manter histórias e reportagens que fazem a diferença, como esta.

Maria Beatriz Moraes

Maria Beatriz é graduanda em jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Interessada em pautas socioculturais e ambientais, produz matérias que ressaltam as nuances desses temas. Atualmente é repórter do TJUFRJ e da Rádio UFRJ

Maria Beatriz Moraes

Maria Beatriz é graduanda em jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Interessada em pautas socioculturais e ambientais, produz matérias que ressaltam as nuances desses temas. Atualmente é repórter do TJUFRJ e da Rádio UFRJ

Comentários

Compartilhe: