ODS 1
Mudanças sociodemográficas e a transição religiosa no Brasil


Hegemonia histórica do catolicismo foi progressivamente substituída por um cenário de crescente pluralidade religiosa, marcado pela expansão evangélica


O Brasil passou por profundas transformações econômicas, sociais, demográficas e culturais ao longo dos últimos 150 anos. Durante o período colonial e boa parte do Império, o país caracterizava-se por uma economia predominantemente agrária, rural e escravista, com baixa produtividade, reduzido nível de escolaridade, elevadas taxas de mortalidade e natalidade, famílias extensas, forte desigualdade social e limitada integração territorial. A maior parte da população vivia próxima ao nível de subsistência, com reduzida participação no mercado monetário e baixo acesso a bens e serviços. A sociedade era fortemente patriarcal, marcada pela predominância masculina nas esferas política, econômica e familiar, enquanto as mulheres tinham acesso restrito à educação, ao mercado de trabalho e aos espaços de decisão.
Nesse contexto, a Igreja Católica exercia hegemonia quase absoluta sobre a vida religiosa nacional, desempenhando papel central na organização da vida social, familiar e comunitária. A identidade religiosa era, em grande medida, herdada e transmitida entre gerações, em uma sociedade marcada por fortes vínculos tradicionais, solidariedade mecânica, reduzida mobilidade social e limitada diversidade de crenças.
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Veja o que já enviamosCom o fim da escravidão, em 1888, e a Proclamação da República, em 1889, o país iniciou um lento processo de transformação que se acelerou a partir da chamada Revolução de 1930. O modelo urbano-industrial impulsionado pelo governo Vargas promoveu a expansão do mercado interno, a monetarização da economia e a crescente urbanização da população. Entre 1950 e 1980, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu, em média, 7,1% ao ano, transformando o Brasil em uma economia de renda média, reduzindo progressivamente o peso do escambo e da economia de subsistência.
Houve expressivos avanços educacionais, com redução do analfabetismo e aumento da escolaridade média da população. As taxas de mortalidade caíram ao longo de todo o século XX, elevando a expectativa de vida, enquanto a fecundidade iniciou uma trajetória de queda acelerada a partir da década de 1970. A redução do tamanho das famílias, associada ao aumento da escolaridade feminina, à difusão dos métodos contraceptivos e à crescente inserção das mulheres no mercado de trabalho, transformou profundamente a organização familiar e as relações de gênero. A família extensa perdeu importância relativa, abrindo espaço para famílias nucleares e para uma crescente diversidade de arranjos domiciliares. A aprovação da Lei do Divórcio, em 1977, simbolizou parte dessas mudanças.
A ampliação gradual da previdência social e das políticas públicas de proteção reduziu a dependência exclusiva dos indivíduos em relação às redes familiares tradicionais. A segurança econômica na velhice passou a depender cada vez mais de instituições estatais, contribuindo para redefinir as relações intergeracionais e ampliar a autonomia individual.
Após a promulgação da Constituição de 1988, ampliaram-se os direitos sociais e políticos, a cobertura previdenciária, o acesso à saúde (inclusive saúde sexual e reprodutiva) e à educação, consolidando um período de crescente integração econômica, social e territorial do país. Em consequência, o Brasil passou simultaneamente por transições econômica, urbana, demográfica, política, familiar, educacional e cultural. Essas transformações enfraqueceram os mecanismos tradicionais de transmissão intergeracional da religião, reduziram o isolamento das comunidades locais e ampliaram a autonomia individual na definição das crenças e identidades. Desde 1985, o Brasil vive o seu mais longo período de democracia.


A Igreja Católica num Brasil em transição
Nesse cenário de secularização e pluralismo, a Igreja Católica posicionou-se como uma das principais forças de resistência institucional às reformas que tocavam o núcleo da família tradicional e dos direitos individuais. Embora a aprovação da Lei do Divórcio em 1977 já tivesse antecipado esse embate — mobilizando o clero em uma intensa campanha em defesa da indissolubilidade do matrimônio —, foi no contexto pós-1988 que as tensões se depararam de forma mais contundente com as novas configurações do ordenamento civil.
A resistência eclesiástica estendeu-se fortemente à gradual institucionalização das uniões de fato — historicamente estigmatizadas sob o termo de “concubinato” —, combatendo o seu reconhecimento e posterior elevação ao status de “união estável” pela Carta de 1988, por entender que o enfraquecimento do casamento sacramental legitimava arranjos fora da moral canônica. Essa reação atingiu seu ápice décadas mais tarde perante a pauta da diversidade sexual, quando a Igreja exerceu forte pressão política contra as decisões do Supremo Tribunal Federal (2011) e do Conselho Nacional de Justiça (2013) que estenderam o direito à união estável e ao casamento civil a casais do mesmo sexo.
Para a instituição, a equiparação legal dessas relações colidia frontalmente com o modelo antropológico cristão baseado na complementaridade biológica e na abertura à procriação. Paralelamente, no plano da saúde sexual e reprodutiva, a hierarquia católica manteve firme oposição às políticas de planejamento familiar com métodos contraceptivos artificiais e às tentativas de flexibilização do aborto legal. Essa persistente ofensiva tensionou a fronteira entre a dogmática religiosa e a consolidação dos direitos civis, evidenciando o choque entre a tradicional influência política da Igreja e as demandas de uma sociedade em célere transformação demográfica, cultural e comportamental.
Desta forma, a hegemonia histórica do catolicismo foi progressivamente substituída por um cenário de crescente pluralidade religiosa, marcado pela expansão evangélica, pelo crescimento dos sem religião e pela diversificação das formas de pertencimento religioso (espíritas, religiões afro-brasileiras, religiões orientais, etc.), conforme mostra o gráfico abaixo.


A transição religiosa – com pluralização do panorama religioso – é uma realidade do século XXI, embora haja dúvidas como será a futura dinâmica religiosa no atual maior país católico do mundo. Neste novo contexto, um dos diferenciais das igrejas evangélicas tem sido a elevada capacidade de mobilização e engajamento de seus membros. Enquanto o catolicismo tradicional brasileiro se caracterizava por uma religiosidade frequentemente herdada e relativamente passiva, as denominações evangélicas desenvolveram uma cultura de participação ativa baseada na evangelização, no testemunho pessoal e no envolvimento direto dos fiéis nas atividades religiosas. Os membros são incentivados a convidar parentes, amigos, vizinhos e colegas de trabalho para os cultos, funcionando como agentes permanentes de expansão da igreja.
Além disso, a maior frequência aos cultos, a participação em grupos de oração, células, corais, atividades sociais e eventos religiosos fortalece os vínculos comunitários e amplia a capacidade de retenção e recrutamento de novos adeptos. Essa militância religiosa, associada à formação relativamente rápida de lideranças locais e à abertura de templos de pequena escala nas áreas urbanas e periféricas, contribuiu para a extraordinária capilaridade e expansão das igrejas evangélicas em todo o território nacional.


Campo religioso mais competitivo
Durante quase quatro séculos, o catolicismo foi a religião dominante no Brasil e ser brasileiro era quase sinônimo de ser católico. Entretanto, a reprodução dessa identidade dependia fortemente da transmissão familiar e comunitária. As transformações econômicas, urbanas, demográficas e culturais enfraqueceram esses mecanismos tradicionais de reprodução religiosa. Paralelamente, a crescente revisão crítica do papel histórico da Igreja em temas como escravidão, colonialismo, relações de gênero e abusos institucionais contribuiu para reduzir sua autoridade simbólica e moral junto a parcelas da população.
O desenraizamento da população brasileira de suas origens rurais e comunitárias e o avanço da economia de mercado favoreceram a expansão das denominações evangélicas (inclusive algumas mais conservadoras do que a própria Igreja Católica), tornando mais competitivo o campo religioso. Embora o pentecostalismo brasileiro apresente características distintas do protestantismo ascético analisado por Max Weber, permanece válida a ideia de uma afinidade eletiva entre determinadas formas de religiosidade protestante e uma sociedade marcada pela urbanização, pela monetarização das relações sociais, pela mobilidade social e pela valorização da iniciativa individual. A teologia da prosperidade é uma das expressões desta afinidade eletiva.
No catolicismo, o fiel é um cooperador responsável. Deus dá a graça, o indivíduo responde com fé, obras e sacramentos. A salvação é uma parceria e a caridade é a prova da fé. Historicamente, o catolicismo popular brasileiro valorizou virtudes como resignação, humildade, paciência diante do sofrimento, especialmente quando associada a expressões como “se Deus quiser” ou “Deus sabe o que faz”. O protestantismo introduziu uma valorização mais explícita da decisão individual. A conversão pessoal, a leitura direta da Bíblia, a responsabilidade diante de Deus e a experiência subjetiva da fé ocupam lugar central.
No catolicismo tradicional, a espiritualidade muitas vezes é mediada pela instituição (ir à missa, confessar com o padre, acender uma vela ao santo). Quando o fiel se torna evangélico, a responsabilidade espiritual passa a ser 100% dele. Ele precisa ler a Bíblia por conta própria, orar diretamente e manter sua “firmeza” na fé, o que costuma gerar um engajamento muito mais ativo e frequente na igreja. A promessa evangélica de que “você pode falar com Deus agora e Ele vai te ouvir” costuma soar mais imediata e urgente do que o processo católico de devoção e espera por um milagre intercedido.
No protestantismo evangélico pentecostal, o fiel é um guerreiro da fé, pois o indivíduo, pelo poder do Espírito Santo, pode transformar sua realidade (curas, finanças, família). A prosperidade é um sinal de que Deus está agradado. A atuação em Conselhos Tutelares e conselhos municipais de saúde ou assistência social coloca as lideranças evangélicas diretamente ligadas à vida civil das famílias em momentos de vulnerabilidade. O dízimo é uma ferramenta de ativação dessa “militância”. Mas a antiga mensagem de “doe seu dízimo e Deus te dará um milagre financeiro” se modernizou com a defesa do empreendedorismo: “o crente deve ser cabeça e não cauda”.
Embora a contribuição de Weber ajude a compreender essa afinidade entre determinadas formas de protestantismo e a modernização econômica, talvez a interpretação clássica que oferece o quadro mais abrangente para entender a transição religiosa brasileira seja a de Émile Durkheim que explicou que à medida que a divisão social do trabalho se torna mais complexa, as relações sociais deixam de depender exclusivamente da família e da comunidade local e passam a ser mediadas por instituições mais amplas e impessoais. No livro “As Formas Elementares da Vida Religiosa”, Durkheim apresenta uma ideia inovadora: “A principal função da religião não é explicar o mundo, mas criar solidariedade social”.
Em sua obra clássica Da Divisão do Trabalho Social, Durkheim argumenta que existem dois tipos ideais de solidariedade. A solidariedade mecânica, prevalecente nas sociedades tradicionais: baixa divisão do trabalho; forte semelhança entre as pessoas; valores compartilhados; predomínio da tradição e forte influência da religião. Nessas sociedades, a coesão decorre da semelhança. As pessoas vivem de forma parecida, acreditam nas mesmas coisas e seguem os mesmos costumes. O Brasil pobre, rural e católico possuía vários elementos desse modelo.
A solidariedade orgânica prevalece em sociedades modernas: elevada divisão do trabalho; especialização profissional; urbanização; individualização e pluralidade de valores. Nesse caso, a coesão decorre da interdependência. As pessoas são diferentes, mas dependem umas das outras. O médico depende do agricultor, que depende do motorista, que depende do engenheiro, e assim por diante. A coesão social passa a resultar menos da semelhança entre os indivíduos e mais da interdependência funcional entre ocupações, instituições e grupos sociais.
Na sociedade tradicional, religião, família e comunidade praticamente se confundem. Na sociedade moderna: a escola assume funções educativas; o Estado assume funções de proteção social; o mercado organiza parte crescente da vida econômica e a medicina assume funções antes exercidas pela religião. Isso não significa necessariamente o desaparecimento da religião. Significa uma transformação de seu papel social. Mas também abre espaço para o avanço do processo de secularização (desfiliação religiosa e crescimento dos sem religião).


Integração social e transição religiosa
Durkheim observou que a modernização poderia gerar um problema. Quando os indivíduos se libertam das antigas estruturas comunitárias, podem experimentar isolamento e perda de referências coletivas. Ele chamou atenção para o risco da anomia. O conceito de anomia significa enfraquecimento das normas e referências sociais. Ela ocorre quando: as regras tradicionais perdem força; as novas regras ainda não estão consolidadas e os indivíduos ficam sem orientação clara.
No Brasil das últimas décadas houve: urbanização acelerada; migração (especialmente para as periferias das grandes regiões metropolitanas e para as áreas de fronteira); queda da fecundidade; crescimento do divórcio; diversificação dos arranjos familiares, expansão da economia de mercado; redução da influência e da presença católica e maior concorrência religiosa, inclusive no campo da política institucional.
Desta forma, o crescimento das igrejas evangélicas pode ser interpretado como avanço de uma instituição que ajuda a reduzir a anomia, pois elas oferecem normas claras; identidade coletiva; pertencimento; apoio comunitário e orientação moral. Ou seja, em uma sociedade cada vez mais individualizada, elas recriam laços sociais fortes (até mesmo recriando relacionamentos tradicionais conservadores). Sob uma perspectiva durkheimiana, o crescimento evangélico não seria apenas um fenômeno religioso. Seria também uma resposta à necessidade de integração social produzida pelas diversas transições da modernidade brasileira.
Enquanto o catolicismo tradicional esteve historicamente associado a uma religiosidade de pertencimento e herança cultural, o evangelicalismo tem se expandido por meio de uma religiosidade de escolha, engajamento e mobilização individual. Essa mudança ajuda a explicar por que as igrejas evangélicas conseguem formar comunidades mais participativas, com maior capacidade de recrutamento, retenção e ativação de seus fiéis. Mais do que um fenômeno estritamente religioso, a transição religiosa brasileira integra o conjunto de profundas mudanças que marcaram a modernização do país. O uso de meios de comunicação modernos (rádio, televisão, Internet, celular, etc.) amplia o alcance da mensagem.
O desenvolvimento da sociedade urbano-industrial, nas mais diferentes esferas, enfraqueceu os mecanismos tradicionais de reprodução do catolicismo herdado, enquanto as igrejas evangélicas demonstraram maior capacidade de adaptação às novas condições sociais. Sob uma perspectiva weberiana, elas dialogaram com uma sociedade cada vez mais orientada pelo mercado, pela mobilidade social e pela iniciativa individual. Sob uma perspectiva durkheimiana, ofereceram pertencimento, solidariedade e orientação moral em um contexto marcado pela individualização e pelo risco da anomia.
Dessa forma, a expansão evangélica e de outras religiões não cristãs, o crescimento dos sem religião e a perda progressiva da hegemonia católica podem ser entendidos não como fenômenos isolados, mas como expressões religiosas das profundas transformações estruturais que acompanharam a modernização da sociedade brasileira ao longo dos séculos XX e XXI.
Embora a pluralidade religiosa tenda a se consolidar em nível nacional nas próximas décadas, dinâmicas locais em diversos municípios já apontam para a inversão de hegemonias e o desenho de novos monopólios confessionais. Diante disso, o desafio do cenário contemporâneo reside na consolidação de uma coexistência pacífica e plural no mercado religioso, garantindo que a retração do antigo monopólio católico não dê lugar a novas formas de exclusão. Esse risco torna-se ainda mais crítico diante da ascensão de vertentes alinhadas à Teologia do Domínio, cujo projeto político prevê a ocupação estratégica das instituições públicas para subordinar a governança civil a preceitos dogmáticos particulares. Nesse contexto, a preservação estrita da laicidade do Estado consolida-se como o único imperativo capaz de neutralizar essas investidas de caráter teocrático e assegurar o pluralismo democrático.
Referências:
ALVES, José Eustáquio Diniz; CAVENAGHI, Suzana. Transição religiosa e pluralidade no Brasil. HORIZONTE, Belo Horizonte, v. 23, n. 03, p. e230304, 2026. DOI: 10.5752/P.2175-5841.2025v23n03e230304. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/horizonte/article/view/36754
DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
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José Eustáquio Diniz Alves
José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.






































