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Veja o que já enviamosAmbientalistas dos botequins: clientes pulam o balcão para preservar bares
A Toca do Baiacú, na Rua do Ouvidor, e outros exemplos de botecos resgatados por fregueses para conservar o ecossistema da boemia carioca
Há histórias assim por todo o Rio de Janeiro. Frequentadores de bares, diante da ameaça do seu segundo lar (primeiro, em tantos casos) fechar as portas, pulam para o outro lado do balcão, assumem o negócio e passam de clientes a proprietários. São verdadeiros ambientalistas dos botequins, ativistas dedicados a preservar o ecossistema boêmio carioca.
Já conhecia histórias assim, espalhadas por esta cidade de São Sebastião, mas desconhecia, até a semana passada, que meu pouso habitual na Rua do Ouvidor, a mais carioca das ruas, tinha sido preservado ali seguindo este mesmo roteiro. Foi numa tarde fria deste começo de junho, ao ver o novo cardápio plastificado da Toca do Baiacú (nos últimos tempos, o botequim mantinha apenas a lista de pratos rabiscada num quadro negro), fui surpreendido pela informação: “desde 1947” ao lado do nome do estabelecimento. “Que história de 1947 é essa, Marquinho?” – fui obrigado a perguntar, talvez pelos vícios do jornalismo, a Marco Targino, o intrépido taberneiro (ou botequineiro) da Toca do Baiacú – e também cozinheiro, garçom, contador e quase tudo mais.


Foi assim que fiquei sabendo que, desde aquele longínquo ano na metade do século passado, funcionava ali na Rua do Ouvidor 41, o Café e Bar Ninense, valoroso botequim fundado por portugueses de Nine, freguesia do município de Famalicão, no norte do país dos nossos colonizadores. Desde os anos 1980, o operador do mercado financeiro Marco Targino era “sócio-atleta” – na sua própria definição – do Ninense, perto do trabalho, com cerveja gelada, comida de boteco honesta e preços justos, apesar de um tanto mal cuidado.
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Veja o que já enviamosDepois da virada do século, Marquinho foi comunicado pelo então proprietário (o português Davi, que havia comprado dos portugueses fundadores) que o bar seria vendido para ser transformado numa loja de doces. O sócio-atleta consultou suas economias, pensou na vida, fez contas e comprou o Ninense, que ficou dois anos fechado para reformas – aberto apenas para o próprio Targino e seus amigos tomarem umas e outras.


Como Nine não tinha qualquer significado para o novo proprietário, o botequim reabriu com o nome de fantasia de Toca do Baiacú (continua Café e Bar Ninense na Junta Comercial), inspirado em apelido criado pelo próprio Marquinho para sacanear o garçom que o atendia – até o desenho do baiacú com a caneca na mão foi feita pelo sócio-atleta com o mesmo objetivo. E Marco Targino virou mais um ambientalista dos botequins, preservando um lugar fundamental para o ecossistema da Rua do Ouvidor onde promove rodas de samba, ajuda a organizar eventos e garante aquele atendimento que só os hospitais das almas mantém para boêmios vespertinos.
Retorno ao começo para repetir que o Rio de Janeiro tem histórias assim espalhadas pela cidade. Foram dois ambientalistas dos botequins – Ricardo Martins e do Heitor Linhares – que garantiram a preservação do excepcional balcão de petiscos da Adega Pérola, em Copacabana, ao pilotaram a preservação do bar, inaugurado em 1957, quando ele estava ameaçado de fechar, em 2010. Outro preservacionista foi o engenheiro carioca William Guedes, que comprou a Adega do Pimenta, quando o tradicional bar germânico de Santa Teresa foi colocado à venda em 2014, pouco depois da morte de seu fundador, o alemão Holf Pfeffer.
Também clientes eram Sergio e Elaine Rezende que compraram o Galeto Sat’s, honesto botequim aberto desde 1962 para alegria das madrugadas de Copacabana, quando os proprietários espanhois colocaram o estabelecimento à venda: o casal e os filhos não apenas preservaram o ecossistema boêmio de Copacabana, como deram uma subida de patamar no negócio, abrindo filiais em Botafogo e na Barra e colocando o lugar no mapa da cidade. Ambientalistas dos botequins também são os frequentadores do Botequim do Joia, que formaram uma confraria para ajudar na administração do centenário boteco no Centro do Rio – a propriedade e a cozinha continuam com Dona Alaíde, viúva e herdeira do Seu Joia (Joaquim Nunes), filho do fundador.


De volta à Rua do Ouvidor, Marquinho Targino e sua Toca do Baiacú já chegaram até as páginas do New York Times, retratados como símbolos da resistência e da retomada do Rio de Janeiro após a pandemia. Especialidades como a costela no bafo, a rabada e o joelho de porco atraem até paladares mais sofisticados. Clientes fieis – como o caricaturista Loredano, com trabalhos publicados em jornais da Itália, França e Alemanha, além dos principais veículos do Brasil – batem ponto na Toca do Baiacú; traços inconfundíveis da arte de Loredano, aliás, emolduram as paredes.
Marquinho nem vai gostar dessa classificação de ambientalista de botequim, mas ele tornou o seu pé-sujo (‘dirty-foot’ na reportagem do NY Times, que também está na parede) indispensável para a preservação do ecossistema da Rua do Ouvidor. Ele mesmo faz as compras para o bar, mete a mão na massa na cozinha, ajuda a atender os clientes nos dias mais movimentados. Nos menos, e nas horas mortas, pode ser encontrado na sua mesa cativa, tomando uma cerveja (ou vinho nas tardes frias de junho), e garantindo o espaço vital de sociabilidade e de conversa fiada ou filosófica, característico dos botequins e aquele clima de segundo lar para boêmios vespertinos cariocas.
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