#RioéRua: comida para ver a vida passar devagar

Da Zona Norte a Zona Sul, passando por Tijuca e Centro, um roteiro de bares com petiscos perfeitos para acompanhar conversa e birita

Por Oscar Valporto | ODS 11 • Publicada em 1 de junho de 2020 - 09:51 • Atualizada em 15 de junho de 2020 - 10:40

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Empadas da Salete, bolinhos de feijoada do Aconchego, pastel de calabresa e jiló do Bar Madrid, bolinhos de arroz do Momo: tradição gastronômica tijucana (Fotos: Oscar Valporto)
Pode ter sido a compra da camiseta ‘Eu visto a camisa do meu bar’ que me lembrou do bolinho, do pernil e do caldinho de feijão do Bracarense; pode ter influência da releitura das crônicas de Aldir Blanc, falando dos quitutes do Bar do Momo; pode ser a lembrança do bolinho de fejioada do Aconchego ao ver Katia Barbosa no programa da TV: devem ser todas essas coisas porque ando com uma saudade louca dos petiscos de botequins. Naturalmente, bar é sinônimo de rua, de conversa na calçada e no balcão – e tudo isso faz muita falta. Mas essa conversa saborosa, para mim, pede a combinação perfeita de birita e petisco. Tanto que, ao ser perguntado dia desses, após um almoço caseiro, qual é a comida de restaurante que mais fazia falta, cravei que sentia mesmo saudade é dos petiscos dos botecos.
 
Foi então que deu a vontade de buscar as fotos antigas e só para atiçar o paladar e deixar água na boca. Comecei pela Zona Norte, pelos petiscos do Bar da Portuguesa, em Ramos, onde Donzília Gomes faz o melhor torresmo da cidade, que, infelizmente, como o jiló recheado só sai aos domingos. Mas o bar – a meio caminho das estações de Ramos e Olaria no ramal Saracuna da Central – também tem bolinha de aipim e carne seca, empadinhas e outras coisas mais. Ainda mais fácil de chegar é no bolinho de bacalhau da Adega D’Ouro, a poucos passos, da estação Vicente de Carvalho, do metrô, excelente entrada para os pratos fartos de bacalhau da casa. E também são só duas quadras da estação Maria da Graça, também do metrô, até o feio, o bolinho de carne do Bar da Amendoeira (Café e Bar Lisbela, no nome oficial), onde também reside uma carne seca da melhor qualidade. E, para não dizer que não sinto saudade de comida de restaurante, a Zona Norte é a terra do Cachambeer e sua costela no bafo – é um prato  até para três, mas eu prefiro comer só a costela aperitivo.
 
Torresmo do Bar da Portuguesa, bolinhos de bacalhau da Adega D'Ouro, bolinho feio (de carne) do Bar da Amendoeira, costela do Cachambeer: especialidades saborosas da Zona Norte (Fotos: Oscar Valporto e Divulgação)
Torresmo do Bar da Portuguesa, bolinhos de bacalhau da Adega D’Ouro, bolinho feio (de carne) do Bar da Amendoeira, costela do Cachambeer: especialidades saborosas da Zona Norte (Fotos: Oscar Valporto e Divulgação)

Da Zona Norte para a Tijuca; nas palavras de Aldir Blanc, quem diz que mora na Tijuca “pode morar no Largo da Segunda-Feira, no Maracanã, no Andaraí, em Vila Isabel, em Aldeia Campista; digamos que, entre o Estácio e o Grajaú, tudo é Tijuca”.- explicou o mestre, nascido no Estácio, criado em Vila Isabel, e morador, por décadas, na Muda. Nessa área da cidade, moram também as tradicionais e imbatíveis empadas do Salete – abertura para outras especialidades como os risotos – ali perto da estação Afonso Pena, do metrô. A partir da mesma estação, para os lados do Estácio, podemos encontrar o pastel de jiló com calabresa e outros quitutes do Bar Madrid. E, lá pelas bandas da Praça da Bandeira, a meio caminho das estações Afonso Pena e Estácio, da Linha 1, e São Cristóvão, moram os hoje lendários e copiadíssimos bolinhos de feijoada do Aconchego Carioca, de Katia Barbosa, que também nos oferece camarão na moranga e risoto de rabada, entre outras especialidades. E, no caminho da Muda e da Usina, residem os bolinhos de arroz – com linguiça e queijo – do Bar do Momo, que ainda tem bolovo (bolinho com ovo e bacalhau) e farol de milha (carne, linguiça, queijo meia cura e ovo), Isso sem falar no bolinho de mortadela, do Bar da Frente, das sardinhas do Bode Cheiroso, do pastel de feijoada do Bar da Gema – a Tijuca é grande.

 
Tremoços do Armazém do Senado, bolinhos de bacalhau da Adega Flor de Coimbra, petiscos de pernil do Opus, fritada da Casa Paladino; redutos da boa mesa no Centro (Fotos: Oscar Valporto)
Tremoços do Armazém do Senado, bolinhos de bacalhau da Adega Flor de Coimbra, petiscos de pernil do Opus, fritada da Casa Paladino; redutos da boa mesa no Centro (Fotos: Oscar Valporto)

O centro da cidade é lugar de trabalho e hora de almoço. Meu pai foi quem me guiou pelos melhores restaurantes da região, muitos precocemente falecidos: Ficha, Real Peixadas, A Lisboeta, Penafiel. Mas também tem lugares para só beber e beliscar, sem necessário compromisso para almoço. Vale para os legítimos bolinhos de bacalhau – em formato português, como um charuto – da Adega Flor de Coimbra na Lapa, que pode anteceder um prato tradicional; vale para o pernil aperitivo ou outros petiscos de pernil do Opus, na Gonçalves Dias, que pode (ou não) substituir o clássico sanduíche; vale para as fritadas da Casa Paladino; ou mesmo para os tremoços, coisa mais simples e tão difícil de encontrar, do Armazém. Como vale também para o bolo de carne ou os pepinos do Bar Brasil, as salsichas do Bar Luiz, a linguiça da Casa Urich, os miúdos do Angu do Gomes…

 
A caminho da Zona Sul, a primeira parada desse nostálgico passeio gastronômico precisa ser numa lanchonete: mas a Rotisseria Sírio Libanesa, ali na antiga Galeria Condor do Largo do Machado, serve cerveja para escoltar seus quibes e esfirras, dos quais estou realmente morrendo de saudades. Como também estou sofrendo por todo o balcão da Adega Pérola, ali na Siqueira Campos, também perto da estação do metrô: deve ser o único lugar que é possível contar favas antes de comê-las acompanhadas por um chope. E são vizinhos naquele balcão polvo, sardinha, arenque, ovas de peixe, queijos variados, alho frito, batata calabresa: uma alegria para qualquer paladar. Antes de chegar ao fim da jornada, devo fazer uma confissão: na hora que me fizeram aquela pergunta sobre o prato de restaurante, lembrei, primeiro, do bacalhau do Adegão e, pouco depois, do picadinho do Alvaru’s. Esqueci, portanto, de um prato que me tem feito muita falta: o steak tartar do Bar Lagoa, o melhor da cidade no meu modesto conceito gastronômico. Prato que pode, inclusive, ser saboreado como aperitivo, dividido por dois, acompanhado do chope que também está entre os melhores.
 
Bolinho de camarão do Bracarense, favas da Adega Pérola, quibe e esfirra da Rotisseria Sírio Libanesa e steak tartar do Bar Lagoa: alta gastronomia em clima de boteco (Fotos: Oscar Valporto)
Bolinho de camarão do Bracarense, favas da Adega Pérola, quibe e esfirra da Rotisseria Sírio Libanesa e steak tartar do Bar Lagoa: alta gastronomia em clima de boteco (Fotos: Oscar Valporto)

Como todos que já me acompanharam por outros caminhadas, termino esta viagem inapelavelmente no Bracarense que fica a três quadras de onde moro aqui no Leblon – é praticamente um segundo lar. Os bolinhos de camarão e catupiry, com massa de aipim, já foram notícia até no New York Times, Os bolinhos de bacalhau têm seguidores fiéis. Eu me alinho ao caldinho de feijão e as porções de pernil e costela de porco – além de uma barriguinha de porco, recém-incorporada ao cardápio como já revelei em crônica recente, que faz o colesterol subir só de olhar. Na pandemia, estou aprendendo a cozinhar e preparar uns pratos. Mas nada substitui o prazer de petiscar uma dessas iguarias, tomando algumas, conversando com amigos e desconhecidos, e vendo a vida e a rua passarem devagar.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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