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O preconceito mora nos detalhes

Prefeitos do Rio e de São Paulo assumem repetindo velhos jargões machistas

Doria pediu desculpas às mulheres dos secretários porque eles iam trabalhar muito. Foto: Suamy Beydoun/AGIF
Doria pediu desculpas às mulheres dos secretários porque eles iam trabalhar muito. Foto: Suamy Beydoun/AGIF

Prefeito recém-empossado pede desculpas adiantadas às mulheres de seus secretários, já que eles vão ter que trabalhar muito. A informação passou quase como um aposto, na contramão, atrapalhando o tráfego do noticiário da posse de João Doria em São Paulo. Compreensível que, entre tanto a ser varrido e discutido, este não seja o tema prioritário na cabeça do povo.

Por certo, não foi por uma militância machista consciente que o prefeito saiu-se com essa. Refletiu, provavelmente, uma fotografia que insiste em piscar em muitas mentes quando se fala de trabalho: a do executivo dedicado que volta à noite, missão cumprida, para seu copo de uísque ou sua cervejinha e para os braços da mulher. Mais um dos lugares-comuns que vamos, enquanto sociedade, levando vida afora. E é aí que mora o perigo.

A diferença de salário entre homens e mulheres é uma das maiores do mundo, concluiu o Relatório de Desigualdade Global de Gênero 2016 do Fórum Econômico Mundial. Para igualar as condições, será necessário o período de um século

Nem todo preconceito é explícito, maquinado, voluntário. Ele pode ser desavisado. Mas nem por isso deixa de ser preconceito. No falar sem pensar, no expressar de um lugar-comum tantas vezes repetido, é possível botar mais uma camada de cimento na parede do status quo. São poucas, mas há três mulheres no secretariado de 22 nomes de Doria. Ele poderia ter apresentado uma fotografia sem gênero, citando as famílias, os filhos, os cônjuges, os pais, os amigos que terão de apoiar os secretários que trabalharão muito. Até porque sabe-se lá a opção sexual, de procriação ou de estado civil de cada um.

Crivella acha que as mulheres devem usar saias mais longas. Foto de Yasuyoshi Chiba/AFP
Crivella acha que as mulheres devem usar saias mais longas. Foto de Yasuyoshi Chiba/AFP

Ou a decisão sobre como se vestir. Em um encontro com pais e militantes de direitos dos portadores do Transtorno do Espectro Autista, o novo prefeito do Rio, Marcelo Crivella, falava sobre o problema da dengue e dizia que o mosquito voa baixo e pica mais as mulheres, porque elas usam saias. Até aí, poderia ser apenas uma constatação. Foi quando recomendou que as mulheres usem saias mais longas.

O reforço tijolinho a tijolinho do preconceito não ajuda em nada o avanço da igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho, que ainda é lento. Basta ver o que acontece dentro dos lares. O IBGE mostra que, na média, a mulher gasta o dobro do tempo do homem nas tarefas domésticas. São mais de 20 horas contra 10. Com isso, a jornada total das mulheres — somando o emprego fora e as obrigações domésticas — é 9,1% maior que a dos homens. Em muitas famílias isso já mudou? Sim. Mas precisa se tornar universal.

Muitas mulheres ainda nem conseguiram entrar no mercado de trabalho. Das mulheres acima de 16 anos, menos de 60% estão no mercado. Os homens, 80%. E as negras são mais suscetíveis ainda ao desemprego.

Quando as mulheres chegam lá, o que acontece é que ganham menos do que eles. A renda feminina vem crescendo mais que a dos homens, mas o abismo é teimoso. Em 2014 (último dado disponível do IBGE), na população de 15 anos ou mais, as mulheres ainda ganhavam 74,5% do rendimento dos homens. E um detalhe é que elas têm mais tempo de estudo do que eles. Conforme avança a escolaridade, a defasagem de ganhos aumenta junto.

A diferença de salário entre homens e mulheres é uma das maiores do mundo, concluiu o Relatório de Desigualdade Global de Gênero 2016 do Fórum Econômico Mundial. Para igualar as condições, será necessário o período de um século.

Se adicionada a questão racial, o quadro piora. Mulheres negras não conseguem nem 40% da renda dos homens brancos, mostra um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com dados da população a partir de 16 anos.

Para isso tudo mudar, precisam ser outras as fotografias que vêm à cabeça quando evocamos determinados temas. Por isso, pense duas vezes antes de dizer “Fulana trabalha feito um homem”, “O marido é tão bom que ajuda a mulher em casa” ou “Ciclana é macho pra caramba”. Isso não ajuda a moldar a imagem de uma mulher que se dedica à sua profissão, que deveria ter as mesmas obrigações domésticas que seu cônjuge e que enfrenta as situações com coragem.

O que dirá a tristeza de quando a gente ouve uma mulher falar que prefere trabalhar com homens, pois eles não têm TPM…

Escrito por Maria Fernanda Delmas

Maria Fernanda Delmas

Jornalista especializada em economia, trabalhou em jornais, sites e revistas e foi editora no Globo. É autora do livro "Olha quem está poupando", com dicas de orçamento para pais de primeira viagem. Escreve sobre mulheres e carreira. É sócia do Projeto Conteúdo, que atende empresas e marcas.

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