ODS 1
Cem anos depois: o legado vivo de Marie Curie no Pão de Açúcar




Pesquisadoras recriam imagem histórica da cientista Marie Curie no Pão de Acúcar, 100 anos depois: celebração das conquistas de mulheres na ciência e resistência a retrocessos (Foto: Flipe Dutra)
No Morro da Urca, cerca de 50 pesquisadoras recriam imagem histórica para celebrar conquistas e resistir a retrocessos
As primeiras convidadas do evento “As cientistas no Pão de Açúcar: 100 anos depois de Marie Curie” começavam a chegar e lá estava uma névoa densa escondendo quase por inteiro o imponente morro carioca, pano de fundo para a recriação de uma fotografia feita ali mesmo em 27 de julho de 1926. O registro original – exibido em forma de um painel em tamanho gigante no pátio reservado ao evento – reunia a cientista Marie Curie e sua filha Irène com pesquisadoras brasileiras e ativistas do movimento pelo voto feminino, entre elas a bióloga Bertha Lutz, que atuava em ambas as frentes.
Quisemos convidar cientistas contemporâneas para ressignificar aquele momento e refletir sobre o quanto avançamos nesses cem anos, os riscos de retrocesso que ainda pairam sobre nós e o tanto que as mulheres precisam sempre continuar abrindo caminhos
Marie Curie cumpria no país uma agenda científica e cultural que se estendeu por 44 dias entre Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, patrocinada pelos governos de França e Brasil. As aulas e conferências que ministrou em instituições como a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, a Academia Nacional de Medicina e o Instituto Butantan atraíram grande cobertura da imprensa e lotaram os auditórios da época.
Neste 27 de julho de 2026, cerca de 50 mulheres cientistas, pesquisadoras e ativistas sociais de diversas partes do país subiram o Morro da Urca para repetir aquele ato simbólico, em uma iniciativa do grupo Meninas e Mulheres na Ciência, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), coordenado pela professora e pesquisadora Camila Silveira, mestre e doutora em Educação para a Ciência.
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O objetivo foi celebrar o centenário da visita de Marie Curie e provocar debates e reflexões sobre o que esses dois momentos históricos nos ensinam. “Quisemos convidar cientistas contemporâneas para ressignificar aquele momento e refletir sobre o quanto avançamos nesses cem anos, os riscos de retrocesso que ainda pairam sobre nós e o tanto que as mulheres precisam sempre continuar abrindo caminhos para poder atuar, para simplesmente poder trabalhar e fazer com que os direitos conquistados continuem valendo”, avaliou Camila.
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Veja o que já enviamosCientista polonesa naturalizada francesa, Marie Curie tornou-se a primeira pessoa duplamente laureada com o Prêmio Nobel: o de Física, em 1903, e o de Química, em 1911, este último uma distinção que sua filha Irène Curie também viria a receber em 1935. Em sua passagem pelo Brasil do início do Século XX, foi recebida no Rio de Janeiro por integrantes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) como a mecenas Laurinda Santos Lobo e a pioneira do escotismo feminino Jerônima Mesquita, além de algumas das poucas brasileiras que já haviam conseguido adentrar a vida acadêmica, como a antropóloga Heloísa Alberto Torres, a botânica Maria Bandeira e a própria Bertha Lutz.


O legado que atravessa gerações
Atribui-se à sua passagem por aqui estímulos importantes para a pesquisa científica e o fortalecimento do ensino superior, como lembrou a pesquisadora Cristina Araripe, coordenadora de Divulgação Científica da Fiocruz. “Marie Curie era uma mulher além do seu tempo e teve uma trajetória extraordinária, porque foi reconhecida no momento em que recebeu o Prêmio Nobel. É muito importante que pesquisadoras hoje estejam fazendo esse trabalho de pesquisa, de resgate da memória, mostrando que quando ela veio ao Brasil teve um impacto enorme”, destacou. “A imprensa da época noticiou bastante, e hoje um projeto de pesquisa faz com que a gente relembre aquele momento único e a gente fique animada, feliz, e concentre forças para seguir com esse desafio enorme que ainda temos, 100 anos depois”.
Educadora do Museu da Vida, Eduarda Emerick destacou as múltiplas frentes de luta que se entrelaçam à democratização do conhecimento científico. “Resgatar os 100 anos da visita de Marie Curie é um símbolo de resistência, de força e da certeza de que o legado dela e o de Bertha Lutz continuam vivos. Hoje, falar sobre ciência para meninas e mulheres – incluindo mulheres com deficiência – é mostrar que a ciência é um espaço para todos. Eu, como pessoa cega, posso dizer que sou uma mulher cientista e pesquisadora na área da educação para reafirmar: a ciência é para todos”.
A força simbólica da data e a necessidade do compromisso intergeracional foram destacadas pela geóloga Joana Angélica Guimarães, ex-reitora da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). “Costumo dizer que a gente tem sempre que fazer reverência às mulheres que vieram antes de nós e que abriram muitos caminhos. Por isso é muito importante recriar esse momento e refletir sobre o valor dessas mulheres lá de trás e o que fizeram para que a gente esteja onde está hoje. Isso também nos impele a criar caminhos para as que estão vindo depois da gente, tem um significado de ponte entre o que foi, o que é e o que será”, afirmou.
A professora e pesquisadora Andrea Costa, presidente da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência, avaliou que o aniversário de 100 anos da visita de Marie Curie era uma oportunidade simbólica que não poderia ser desperdiçada, até porque os museus têm o compromisso de fazer memória. “Considerando a temática de gênero, as mulheres na ciência, a gente avançou muito de 100 anos para cá, mas é indiscutível que ainda existe muito o que fazer. As mulheres chegaram, mas têm que se esforçar mais, encontram mais dificuldades e ainda não ocupam exatamente os mesmos lugares que os homens”, afirmou a historiadora e museóloga. “A gente sabe que algumas áreas ainda são um tanto inacessíveis para as mulheres. Então, estar aqui, celebrando essas mulheres de 100 anos atrás, é uma forma de a gente refletir sobre os avanços e também projetar um futuro que seja ainda mais importante, mais promissor e pautado na equidade de gênero”, acrescentou.
O simbolismo do ato foi também ressaltado pela pneumologista Margareth Dalcomo, pesquisadora da Fiocruz. “Esta é uma manhã tão simbólica… começo de semana, início da reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Conferência Internacional da Aids, há pouco foi o aniversário da Capes. São tantos momentos marcantes para o Rio de Janeiro, para o Brasil e para nós, cientistas, que eu considero esta foto mais do que um símbolo. Vejo como um resgate da história da ciência no Brasil e no Rio de Janeiro”, disse a médica e pesquisadora


Sol entre nuvens e a vigilância contra os obscurantismos
Quando todas as convidadas enfim conseguiram se juntar para a repetição do registro histórico e os fotógrafos já estavam a postos para os cliques, a névoa no entorno do Pão de Açúcar foi se dissipando e descortinou o mesmo lindo cenário natural de 1926. Se a paisagem revelava beleza, o cenário político atual, contudo, trazia um duro alerta, e foi inevitável que as pesquisadoras ouvidas manifestassem a indigestão e o desconforto diante da tese obscurantista que ganha corpo no debate público ao tensionar e questionar o voto feminino: “Às vezes é um pouco desanimador pensar que depois de tanta luta e tantas conquistas, algo que a gente considerava já concretizado seja colocado em dúvida, que a capacidade das mulheres de eleger e serem eleitas seja colocada em questão. Isso reforça ainda mais a importância deste momento, deste dia, desta reunião de mulheres e a relevância deste ato”, afirmou Andrea Costa.
E Cristina Araripe completou: “A violência de gênero na política acabou trazendo, infelizmente, uma das piores notícias, que é o questionamento dessa conquista do voto feminino. Temos que ter muitos momentos como este de relembrar as lutas históricas das mulheres e mostrar que cada vez mais continuamos aqui fazendo ciência. Estamos aqui hoje com gente muito bacana para falar sobre as mulheres na ciência e sobre como a gente pode olhar para o futuro. Que é agora, é hoje”.
O painel da foto original de 1926 seguirá para o acervo do Museu Ciência e Vida, em Duque de Caxias, e em outubro voltará a ser exibido no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em exposição que abordará a viagem científica e cultural de 44 dias de Marie Curie e Irène ao Brasil em 1926, assim como sua interação com as integrantes da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, que à época batalhavam pelo direito de voto para as mulheres, que viria a ser instituído por decreto do presidente Getúlio Vargas em 1932 – esse mesmo direito fundamentado que setores reacionários tentam desqualificar nos dias de hoje.
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