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Cuba, entre mitos e verdades

A vida caminha sem internet em Havana, mas com muita religiosidade, saúde e educação de excelência


Habana Vieja, o Centro Histórico da capital cubana, e seus belos prédios: Patrimônio da Humanidade. Foto: Ricardo Brasil

Quase 60 anos após a revolução que instalou o socialismo no país (no dia 1º de janeiro de 1959), Cuba atrai turistas de todo o mundo. Com 11 milhões de habitantes, o país recebeu 4,7 milhões de viajantes em 2017 (16,05% a mais que em 2016), segundo informações do Ministério do Turismo cubano. Para dar uma dimensão do que este volume representa para a economia local, vale comparar com o Brasil, cujo território é quase 80 vezes maior que o arquipélago: em 2016, ano da realização das Olimpíadas no Rio de Janeiro, 6,6 milhões de turistas vieram conhecer as cidades brasileiras, de acordo com o Governo Federal.

Eu nunca havia ido a Cuba até novembro do ano passado, quando participei do IX ICOM (IX Encontro Internacional de Pesquisadores em Informação e Comunicação), em Havana. Viajei acompanhada do meu marido, o fotógrafo Ricardo Brasil. Saí do Rio com algumas ideias já formadas, muita leitura de guias de turismo e de blogs de viagem. Mas o país me surpreendeu e quebrou as imagens construídas de longe.

Assim que o avião pousa em Havana, constato: o ritmo de tudo é muito mais lento. Não é que seja devagar, é sem pressa

Quando nos preparávamos para a viagem, ouvimos de uma amiga: “Tem quem adore Cuba, tem quem deteste. Eu estou do lado dos que adoram”. O arquipélago, desde a revolução de 1959, vem suscitando posições e opiniões contraditórias, entre defensores e críticos, numa polarização que parece não admitir meio-termo. Minha experiência, entretanto, mostrou que é possível enxergar nuances num país que vem sofrendo transformações, muitas delas como consequência do turismo, importante fonte de renda. Ao mesmo tempo, Cuba mantém no século XXI características que a consagraram no imaginário político-ideológico do século passado.

Leia também “Cuba, um país involuntariamente sustentável” e “Circulação de duas moedas separa cubanos de turistas

Assim que o avião pousa em Havana, constato: o ritmo de tudo é muito mais lento. Não é que seja devagar, é sem pressa. Não há a agitação a que estamos acostumados nos grandes centros urbanos brasileiros. A vida parece correr numa outra frequência – e levo alguns dias para me acostumar com esta cadência mais suave.

Sobrados, carros antigos e a vida em suave cadência. Foto: Ricardo Brasil

Outro aspecto com o qual tive dificuldade no início foi a falta da internet. Embora o governo tenha começado, há dois anos, a espalhar pontos públicos de wi-fi por Havana, o acesso ainda é difícil. Já sabia disso, mas foi surpreendente constatar o quanto nossa vida está literalmente conectada a este aparelhinho de celular. Em vários momentos, me senti perdida por não poder usar a rede para combinar um encontro ou checar uma informação. Impossível não pensar que, neste sentido, McLuhan estava certo, e os meios de comunicação hoje são mesmo extensões do homem.

Por outro lado, o trânsito é acelerado – ninguém diminui a velocidade ao avistar um pedestre (muito menos se for turista) e as regras parecem fluidas. Ouvem-se buzinas em todos os lugares, seja nos bairros mais turísticos ou nos populares. 

Campainhas são um luxo – embora existam, não são usadas. Grita-se da calçada para alguém que mora no terceiro andar do prédio. E a pessoa responde – nem sempre da janela, em geral, de dentro de casa

Havana é uma cidade sonora. Há música nos bares, restaurantes, no som dos rádios que sai pelas janelas das casas e dos automóveis. Não à toa, todos os guias turísticos classificam a cidade como “musical”. Mas há também pessoas falando alto nas ruas, amigos se cumprimentando de longe aos berros, alguém que chama o padeiro que está passando lá na outra esquina. Campainhas são um luxo – embora existam, não são usadas. Grita-se da calçada para alguém que mora no terceiro andar do prédio. E a pessoa responde – nem sempre da janela, em geral, de dentro de casa. Um constante burburinho, especialmente nos bairros mais centrais, que têm maior concentração de população.

Fala-se muito em Havana. Qualquer pedido de informação é motivo para uma conversa, que se desdobra em vários assuntos, num misto de cordialidade e curiosidade pura. Em todos os lugares onde fomos, ao descobrirem que somos brasileiros, as pessoas disparavam várias perguntas, a primeira delas sobre as novelas (que seguem fazendo sucesso em Cuba), mas também sobre a atual situação política do Brasil. Alguns até mesmo afirmavam que tínhamos sofrido um golpe de estado, e demonstravam amplo conhecimento sobre o cenário brasileiro e sobre políticos como Lula e Dilma. De modo geral, viajando por outros países, o que noto é um grande desconhecimento sobre a realidade brasileira. E em Cuba, país onde o acesso à internet é mais difícil e viajar para o exterior ainda depende de uma autorização do governo, encontrei muitas pessoas bem informadas e atualizadas sobre fatos do Brasil e do restante da América Latina.

Em grande parte, esse quadro se deve ao fato de que a educação, bem como a saúde, segue sendo um serviço social gratuito de excelência. De manhã cedo, na hora do almoço e no final do dia, se vêem pelas calçadas as crianças e os jovens indo e voltando das escolas. O modelo e a cor dos uniformes indica o ciclo em que estão – nível primário, que engloba a educação pré-escolar e primária, e o nível secundário, que inclui a educação secundária básica, a pré-universitária e o ensino técnico e profissional.

A taxa de alfabetização continua beirando os 100%. No colégio, todos recebem educação para o esporte e aprendem um segundo idioma além do espanhol. Não raro, cruzamos com cubanos versados em vários idiomas, como inglês, francês, italiano, russo e mandarim. Alguns, ao saberem que éramos brasileiros, arriscavam uma ou outra palavra em português.

A saúde é outro aspecto que não parece ter sofrido mudanças negativas. Andando por diferentes bairros, passamos por vários hospitais e centros de atendimento, em pleno funcionamento. Não vi filas de pacientes nem constatei reclamações. Em frente a um centro de saúde, havia uma farmácia que distribuía os medicamentos receitados. O atendimento era contínuo, de segunda a segunda, e bastante ordenado.

Cubana vestida de branco, da cabeça aos pés: religiosidade. Foto: Ricardo Brasil

O ensino de música continua um ponto forte na ilha. Embora a principal referência para os estrangeiros continue sendo o Buena Vista Social Club, que ficou famoso depois do filme do Wim Wenders, as escolas musicais produzem artistas de alta qualidade. Assistimos à vigésima edição do JoJazz, festival anual para jovens jazzistas, no Teatro do Centro Cultural Bertold Brecht, e saímos impressionados com o rigor técnico e a originalidade.

Um fator que pode surpreender a quem visita o país pela primeira vez é a liberdade religiosa. Muitos têm a percepção equivocada de que, por ser um regime socialista, não existam práticas espirituais na Ilha. Pelo contrário, se pode afirmar que coexistem vários sistemas religiosos, que se amalgamam. Além de várias igrejas católicas, herança da colonização espanhola, também marcam presença sinagogas judaicas, templos protestantes (em muito menor escala) mas, principalmente, as religiões de matriz africana. A principal delas é a santería, que se aproxima do nosso candomblé pela origem na mesma região do Golfo da Guiné, pelo culto aos orixás e pelo respeito aos ancestrais. Como no Brasil, ocorreu sincretismo com a religião católica. Ao contrário do que se passa por aqui, porém, a prática da santería parece ser muito mais aberta e mais espalhada entre a população. Vimos muitos santeiros – como são chamados os praticantes da religião –  trajados de branco dos pés à cabeça, o que inclui sapatos, bolsas ou mochilas e até guarda-chuvas. E muitos cubanos usam colares ou pulseiras de seus santos (orixás) protetores. Os adornos também são vendidos nas lojas para turistas.

Arte: Fernando Alvarus

Escrito por Lucia Santa Cruz

Lucia Santa Cruz

Sou jornalista, professora universitária, com doutorado em Comunicação e Cultura, casada com o fotógrafo Ricardo Brasil, mãe do Lucas, da Isabela e da Aninha e avó do Teo. Entre outras disciplinas, dou aula de história do jornalismo e radiojornalismo. Trabalhei em jornais diários impressos, revistas segmentadas, emissoras de rádio e em comunicação corporativa. Muitos dos veículos por onde passei não existem mais, mas sigo acreditando que o jornalismo é essencial para sociedades complexas, por ser capaz de identificar e de contar histórias e de nos ajudar a enxergar quem somos. Apaixonada por livros, gatos e chocolate (não necessariamente nessa ordem).

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Um Comentário

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  1. Cara dra. Lucia Santa Cruz,
    Obrigada por relatar sua perspectiva sobre Cuba.
    Gostaria também de ouvir sua opinião sobre os relatos do advogado cubano Nelson Rodriguez Chartrán, que mora em Havana, Cuba, publicado em:
    http://www.ilisp.org/artigos/precaria-situacao-alimentar-em-cuba-como-os-cubanos-sobrevivem
    http://www.ilisp.org/artigos/sou-cubao-e-posso-afirmar-tudo-o-que-te-contaram-sobre-saude-cubana-e-falso
    Aguardo seu comentário e agradeço desde já.

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