Áreas fragmentadas de vegetação nativa crescem 260% em 38 anos, aponta MapBiomas

Foto colorida de área de floresta derrubada no noroeste do Mato Grosso: análise aponta que desmatamento deve levar Brasil a ter aumento nas emissões apesar da pandemia (Mayke Toscano/Secom/MT)

Pantanal e a Amazônia são os biomas em que a fragmentação mais avançou. Processo é consequência do desmatamento

Por Micael Olegário | ODS 15
Publicada em 13 de maio de 2026 - 07:00  -  Atualizada em 13 de maio de 2026 - 07:15
Tempo de leitura: 8 min

Foto colorida de área de floresta derrubada no noroeste do Mato Grosso: análise aponta que desmatamento deve levar Brasil a ter aumento nas emissões apesar da pandemia (Mayke Toscano/Secom/MT)
Área de floresta derrubada no noroeste do Mato Grosso, na Amazônia: desmatamento é principal causa da fragmentação nos biomas brasileiros (Mayke Toscano/Secom/MT/Fotos Públicas)

O número de áreas de vegetação nativa fragmentadas subiu de 2,7 milhões para 7,1 milhões de hectares em um intervalo de 38 anos, no Brasil. O crescimento indica uma alta de 260% entre 1987 e 2023. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (13/05) pelo MapBiomas.

A fragmentação ocorre quando a vegetação nativa é dividida em porções cada vez menores e mais isoladas. A principal causa desse processo é o desmatamento, seja para fins de expansão agropecuária, de urbanização, de abertura de estradas ou outras finalidades.

“Quanto menor for o tamanho dos fragmentos de vegetação nativa, maior será a suscetibilidade à degradação”, aponta Dhemerson Conciani, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e coordenador do módulo de degradação do MapBiomas. 

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A análise revela ainda que até 5% da vegetação nativa do Brasil (26,7 milhões de hectares) está em pequenos fragmentos, menores que 250 hectares, com destaque para a Mata Atlântica, onde essa condição atinge até 28% da vegetação nativa remanescente (10 milhões de hectares).

A fragmentação ameaça diretamente à diversidade de fauna e flora dos biomas brasileiros. “Cada vez que diminui o tamanho de um fragmento de vegetação nativa, mais problemas aparecem: aumenta  o risco de extinções locais dessas espécies, diminui a chance  de recolonização por indivíduos vindos de outros fragmentos vizinhos e maior é a proporção do efeito de borda”, aponta Dhemerson.

Os dados integram o módulo de Degradação do MapBiomas que apresenta os tamanhos de fragmentos quantificados em hectares. Cada área pode conter um ou mais de um tipo de vegetação nativa, o que inclui formação florestal, formação savânica, formação campestre, campo alagado e área pantanosa. 

Todos os biomas afetados

O Pantanal e a Amazônia foram os biomas com maior aumento da fragmentação, com 350% e 332%, respectivamente. Seguidos do Pampa com 285%, Cerrado com 172%, Caatinga com 90% e Mata Atlântica com 68%. Além disso, o tamanho médio dos fragmentos diminuiu 68% no período, reduzindo de 241 hectares em 1986, para 77 hectares em 2023.

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Mata Atlântica e Cerrado lideram no número absoluto de fragmentos de vegetação nativa: aproximadamente 2,7 milhões cada. Os pesquisadores, porém, destacam dinâmicas distantes que acontecem nesses dois biomas.

“Enquanto no Cerrado o aumento no número de fragmentos está associado ao avanço do desmatamento e à divisão de grandes remanescentes de vegetação nativa em áreas  menores, na Mata Atlântica, parte desse aumento também pode ser explicada por um processo no sentido oposto ao desmatamento, ou seja, pelo surgimento de múltiplas áreas de recuperação da vegetação secundária”, pondera Natalia Crusco, coordenadora técnica da Mata Atlântica no MapBiomas. 

A Amazônia destaca-se pela redução no tamanho médio dos fragmentos de vegetação nativa: de 2.727 hectares em 1986 para 492 hectares em 2023, uma redução de 82%. Queda semelhante (80%) pode ser observada no Pantanal, que passou de fragmentos com área média de 1.394 hectares em 1986 para 278 hectares em 2023.

Vetores de degradação

Quase um quarto (24%) da vegetação nativa do Brasil está exposta a pelo menos um vetor de degradação, segundo os dados disponíveis na plataforma. São até 134 milhões de hectares potencialmente expostos a fatores como fragmentação, área de borda, fogo, vegetação secundária e corte seletivo, entre outros. 

Na Mata Atlântica, até 72% de toda a vegetação nativa (23,4 milhões de hectares) está exposta à degradação. O Pampa vem em segundo lugar, com até 47% da vegetação nativa remanescente (4,2 milhões de hectares) exposta a algum dos vetores de degradação mapeados. Com até 42% da vegetação remanescente exposta à degradação (42,6 milhões de hectares), o Cerrado é o bioma mais afetado em área absoluta.

“A importância desse monitoramento se justifica pelo fato de que a degradação de um remanescente de vegetação nativa muitas vezes pode ser minimizada ou revertida. Porém, se as causas da degradação não forem interrompidas, a capacidade de recuperação biológica natural das áreas afetadas pode ficar muito comprometida”, destaca Eduardo Vélez, pesquisador do MapBiomas na equipe do Pampa. 

Foto colorida de vista aérea de árvores na floresta amazônica
Estudo analisou impacto da perda de conexão entre copas das árvores e abertura de clareiras na floresta (Foto: Divulgação / TV Brasil)

Distúrbio de dossel na Amazônia Legal

Uma das novidades no módulo de Degradação do MapBiomas foi o mapeamento dos distúrbios de dossel na floresta. Trata-se da camada superior da floresta, formada pela continuidade das copas das árvores mais altas.

Quando essa camada sofre alterações, seja por secas, ventos, incêndios, corte seletivo de madeira, efeito de borda ou outras perturbações, abre-se no local uma clareira, rompendo a continuidade original da floresta, que recebe o nome de distúrbio de dossel. 

Entre 1988 e 2024, pelo menos 7% da cobertura de floresta na Amazônia Legal (24,9 milhões de hectares) houve detecção de algum sinal de distúrbio de dossel por pelo menos um mês. No ano de 2016, foi detectada a maior área mapeada desse distúrbio, com 4 milhões de hectares. Entre 2019 e 2024, a área afetada por esses distúrbios foi de 2,1 milhões de hectares. 

Na floresta alagável, aquela situada nas margens de cursos d’água sujeitas a inundações periódicas, os maiores registros de distúrbio de dossel coincidiram com anos de seca intensa, como 2016, 2023 e 2024. “A previsão de ocorrência de El Niño para este ano indica condições favoráveis para novas secas na região, o que tende a facilitar a ocorrência desses distúrbios nesse tipo de floresta”, alerta Bruno Ferreira, pesquisador do MapBiomas na equipe da Amazônia.

O corte seletivo de madeira é uma das principais causas de distúrbio de dossel na Amazônia Legal. O MapBiomas identificou 9,7 milhões de hectares com indícios de corte seletivo entre 1988 e 2024. Essa atividade está concentrada: 83,5% do total ocorre no Mato Grosso e no Pará, e seis dos dez municípios com maior exploração estão no Mato Grosso em 2024.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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