ODS 1
Receba as colunas de Júlia Pessôa no seu e-mail
Veja o que já enviamosMe processem: eu quero ser gostosa sim!
Mulheres são socialmente ensinadas que seu valor está em ser desejável, mas são criticadas quando desejo disso vem delas próprias
No Tribunal das Minúsculas Causas, tornado famoso pela internet, eu tenho milhares de processos que se acumulam diariamente. Recentemente, uma causa que tem movimentado a minha corte virtual é uma epidemia de mulheres se exercitando e sempre apresentando um recibo. E não é o “tá pago”, que também me irritava uns anos atrás – sim, eu sou insuportável. Mas uma profusão de fotos de mulheres suadas, visivelmente voltando de um treino e se justificando: “partiu levantar sozinha aos 80”, “para conseguir abaixar na velhice”, “minha terapia”, e uma série de outras verdades, porque é o que todo mundo quer. Mas o que aconteceu com a honestidade de querer, como se diz, “o shape”?
Só que meu incômodo vai além disso. Óbvio, não é uma crítica a quem faz posts assim, mas o que está por trás deles. A gente passa uma vida toda, como mulher, sendo ensinada que nosso valor está na nossa aparência, caso contrário, estamos “largadas”, “desleixadas”, e uma série de adjetivos que forçam a barra para falar de cuidado, mas a gente sabe que na maioria das vezes a gente sabe que estão falando de uma estética específica excludente.
Leu essa? Por que eu nunca vou conseguir usar o GymRats: a “derrota” contabilizada
E já é sacrificante demais a gente viver tentando caber nessa forma – conscientemente ou não – ou lidando com as consequências de recusá-la. Mas aí tem a cilada dentro da cilada: você tem que estar no padrão, mas não pode querer. Você tem que ser desejável, mas não pode desejar ser. Tem que ser gostosa, mas não pode querer. A gente deve tudo, mas quando temos algum vislumbre de vontade, pronto, é condenável, vulgar, “não fica bem”. O patriarcado, além de cruel e violento, é um SACO!
E é assim com tudo que trata do nosso desejo: temos que estar disponíveis pro sexo, mas perdemos nosso valor se manifestamos que o queremos. Temos que trabalhar, mas não a ponto de “negligenciar” a família, os filhos que muitas vezes nem temos, o papel arcaico e injusto de ser obrigatoriamente quem cuida de tudo e de todos – de graça, por “amor”. Temos que ser dóceis e simpáticas para não sermos “chatas”, mas se nos divertimos genuinamente tem sempre alguém pra nos taxar de dadas, oferecidas, exageradas.
Receba as colunas de Júlia Pessôa no seu e-mail
Veja o que já enviamos

E pra mim, esse lance de justificar atividade física como um investimento em saúde ou no futuro passa muito por isso. Em se enquadrar nesse molde que quer sempre, de alguma forma, que estejamos contidas, que façamos um “psiu!” pras nossas vontades, que escondamos nossos anseios num cantinho.
Como disse, é claro, que é importante, aliás, fundamental, que a gente se mexa em prol da pessoa que queremos ser conforme vamos envelhecendo. Ter saúde, músculos e flexibilidade em prol de uma velhice autônoma é um plano que todo mundo deveria ter em mente e estar executando, não tenho a menor dúvida.
Eu, depois de um câncer e com histórico familiar de doença cardíaca, já levo o meu a sério há muito tempo. Mas toda vez que eu calço meus tênis, visto roupas que me favorecem muito pouco e me disponho voluntariamente a me cansar e transpirar, sempre espero, sim, ficar gostosa – embora a essa altura, e sem um plano alimentar e suplementar complexo, eu no fundo saiba que não vai acontecer. Mas é essa vontade de uma bunda maneira também que move a gente, que mostra que estamos vivas e pulsando. Até porque ainda que o shape nunca venha, Deus me livre de uma velhice sem poder querer meus quereres.
Apoie o #Colabora.
Queremos seguir apostando em grandes reportagens, mostrando o Brasil invisível, que se esconde atrás de suas mazelas. Contamos com você para seguir investindo em um jornalismo independente e de qualidade.










































