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Pelos botequins, calçadas, esquinas e árvores do Grajaú

Geografia urbana do bairro da Grande Tijuca ajuda na proliferação de bares com espírito carioca

ODS 11 • Publicada em 12 de maio de 2026 - 09:00 • Atualizada em 12 de maio de 2026 - 09:21

O concurso Comida Di Buteco tende a provocar uma certa angústia nos amantes dos botequins porque, a cada ano, descobrem que faltam mais bares para conhecer em sua cidade. Com a experiência dos anos (fui até jurado em Salvador), passei a usar a lista de candidatos e seus petiscos apenas como um pretexto para conhecer um novo lugar em algum canto do Rio de Janeiro.

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Ao correr os olhos pela lista de 106 botecos cariocas no concurso de 2026, encontro uma nada surpreendente concentração de bares na área da Grande Tijuca, ponto tradicional, mas me chama a atenção que um terço dos 24 bares da região estejam no Grajaú. O bairro tem apenas 32 mil habitantes – a Tijuca, que não por acaso batiza a região, tem mais de 200 mil – e é conhecido bem mais por seu perfil residencial do que como área de boemia; mais pelos verdes de suas  árvores do que pelas calçadas ocupadas por mesas de bares.

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Petisco e chope artesanal no Boteco do Raoni: geografia urbana favorece bares no Grajaú (Foto: Oscar Valporto)
Petisco e chope artesanal no Boteco do Raoni: geografia urbana favorece bares no Grajaú (Foto: Oscar Valporto)

No Grajaú, ainda é fácil andar pela sombra. O bairro nasceu planejado, um século atrás, pelo empresário e engenheiro Antonio Eugênio Richard Júnior, dono da Companhia Brasileira de Imóveis e Construções (CBIC), responsável pela urbanização e loteamento do bairro.  Foi ele quem batizou a área como Grajaú, nome de sua cidade natal, no sul do Maranhão. Hoje, o Engenheiro Richard batiza uma das principais avenidas do bairro; a outra é a Júlio Furtado; elas se cruzam na circular Praça Edmundo Rego, ponto de encontro de moradores de todas as idades.

A Reserva Florestal – hoje Parque Estadual – do Grajaú, criada em 1978, ajudou a preservar o trecho de Mata Atlântica e suas encostas da favelização que avançou pelos morros dos vizinhos bairros do Andaraí, Vila Isabel e Tijuca. As ruas mais bem planejadas e organizadas incluem também calçadas mais largas, o que hoje parece favorecer a multiplicação dos bares, para retomarmos o fio da crônica sem nos perder pelo inventário das árvores.

Ficus em praça no Grajaú: bairro de árvores, esquinas, calçadas e botequins (Foto: Oscar Valporto)
Ficus em praça no Grajaú: bairro de árvores, esquinas, calçadas e botequins (Foto: Oscar Valporto)

Neste 2026, o que me fez pegar um ônibus para o Grajaú foi o Boteco do Raoni, que a fama já tinha chegado a esses ouvidos boêmios pela sua variação de chopes e cervejas (finalista de ‘Carta de Cervejas’ do Comer & Beber da Veja Rio), petiscos criativos e um ambiente misturando rock and roll, karaokê, jogos de tabuleiro e luta livre. Para entender melhor, creio que vou precisar voltar lá à noite porque, na minha incursão vespertina, só deu para ficar na mesmo na cerveja e no petisco da Comida di Buteco.

O petisco na disputa foi batizado ‘Cinco minutinhos sem perder a amizade’; dois bolinhos de carne recheados com queijo, espinafre, cebola e pimenta e dois bolinhos de batata com funghi secchi, shitake secchi e acelga, apresentados num ringue como se fosse um combate de luta livre. Bolinhos saborosos, molhos dispensáveis e o melhor mesmo ficou na cerveja da casa – Raoni Soares, o proprietário, é cervejeiro. O Stout Esperando, chope preto, estava excelente; o chope Pilsen estava honesta e geladamente pilsen.

Rubacão no Quintal DuGraja: pegada nordestina em botequim tipicamente carioca (Foto: Oscar Valporto)
Rubacão no Quintal DuGraja: pegada nordestina em botequim tipicamente carioca (Foto: Oscar Valporto)

Como estava no Grajaú, quis aproveitar para conhecer um dos outros botequins do bairro. Como precisava voltar ao Centro, optei pelo mais próximo do Raoni e também na disputa do concurso, apesar de não ter qualquer referência sobre o Quintal DuGraja, uma quadra adiante. O ‘Rubacão à Moda Quintal’, adaptação de um prato típico paraibano, estava uma delícia: leva carne seca, feijão-fradinho, queijo coalho, banana-da-terra e folhas de rúcula. Nunca comi rubacão em João Pessoa, mas a mistura funciona.

No Quintal, me dou conta que todos os oito botequins do Grajaú no concurso levam suas mesas para a calçada e, dos oito, seis estão estrategicamente posicionados em esquinas, inclusive o octagenário Bar do Mariano, um preferido de gerações de famílias do bairro, veterano também no Comida di Buteco – uma raridade já que regras e exigências do concurso provocam uma alta rotatividade de bares de um ano para outro. Em 2026, senti falta do Enchendo Linguiça na lista, uma preciosidade gastro-etílica do Grajaú, instalado numa esquina com mesas na calçada, como convém a um legítimo botequim carioca.

O Quinta du Grajaú, botequim com a marca carioca do Grajaú: mesas na calçada, esquina e árvores em torno (Foto: Oscar Valporto)
O Quinta du Grajaú, botequim com a marca carioca do Grajaú: mesas na calçada, esquina e árvores em torno (Foto: Oscar Valporto)

Obs.: O prazo para votar no Comida di Buteco 2026 já acabou, mas os petiscos seguem nos cardápios nos 1.100 botequins em mais de 50 cidades.

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