Ancestralidade e fé declarada expõem paradoxo no maior município quilombola do Brasil

Foto colorida de mulher preta nas ruas de Salvador, Bahia, em celebração religiosa de matriz africana. Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil
Foto colorida de mulher preta nas ruas de Salvador, Bahia, em celebração religiosa de matriz africana. Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil
Mulheres nas ruas de Salvador, Bahia, em celebração religiosa de matriz africana (Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Senhor do Bonfim, na Bahia, possui 21,5% da população quilombola e apenas 0,70% de adeptos declarados de religiões de matriz africana

Por Ranieri Soares de Jesus | Inclusão e Diversidade, ODS 10

Publicado em 28/10/2026 - 08h54 (Atualizado há 21 minutos)

Tempo de leitura: 9 min

“O preconceito ainda impede que muitas pessoas tenham segurança para declarar sua verdadeira religião, e essa violência perpassa pelo contexto histórico que forma a nossa sociedade”. A frase é da pedagoga, ativista social e militante da causa negra e indígena Cristina Viana e ajuda a compreender um paradoxo que afeta o município de Senhor do Bonfim, no norte da Bahia.

Segundo o Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Senhor do Bonfim tinha 74.523 habitantes. O Censo Quilombola identificou 15.999 pessoas quilombolas no município, o equivalente a cerca de 21,5% da população local. O número coloca Senhor do Bonfim coloca o maior município quilombola do Brasil em termos absolutos. Em termos proporcionais, Alcântara (MA) aparece em primeiro com 84,57% (15.616 habitantes) que se declara quilombola.

Contudo, outros números revelam um paradoxo social e cultural profundo: embora a população negra (pretas e pardas) alcance 76,20% dos habitantes locais, apenas 0,70% da população se declara adepta de religiões de matriz africana, enquanto 65,18% se declaram católicos e 20,77% evangélicos, com minorias distribuídas entre sem religião (7,79%), outras religiosidades (4,14%), espíritas (1,03%), tradições indígenas (0,02%) e sem declaração ou dados não sabidos. 

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Para Cristina, essa distância numérica entre o pertencimento quilombola e a fé declarada reflete um processo histórico de violência e perseguição. “Ao longo da história, líderes religiosos foram perseguidos, terreiros foram invadidos e destruídos, e os povos de terreiro passaram a ser associados ao mal. Criou-se a ideia de que ‘a minha igreja é santa’ e que as religiões de matriz africana seriam demoníacas ou ligadas ao mal“, pontua. 

A ativista argumenta ainda que grande parte daqueles que se declararam católicos no Censo mantém vínculos profundos com os terreiros na intimidade de sua espiritualidade. “Muitas pessoas deixaram de assumir publicamente sua identidade religiosa por medo do preconceito”, complementa Cristina. 

Estima-se que a cidade abrigue cerca de 150 terreiros entre as zonas urbana e rural, embora o preconceito ainda impeça que muitos tenham segurança para declarar sua verdadeira espiritualidade. Apesar das barreiras sociais, o cenário de proteção institucional tem apresentado avanços. 

Desafios à cultura afro-brasileira

Natural de Senhor do Bonfim, Gilmara Cláudia Silva,  52 anos, é estudante de Licenciatura em Teatro na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e coordenadora da Associação Internacional de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia do Centro-Norte da Bahia. Mulher negra e ativista da causa negra, Gilmara desenvolve há anos, trabalhos voltados à valorização e à preservação da cultura afro-brasileira.

Segundo Gilmara, filhos e filhas de santo contam atualmente com o apoio de articulações em rede, como a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), o Ministério Público e federações de culto. 

“Hoje já existe um sistema dentro da própria polícia que entende que essas casas têm o direito à liberdade de seu culto, que não é qualquer telefonema alegando suposto incômodo que irá gerar abordagem. A consolidação de leis federais dá a garantia, a segurança e a liberdade de culto”, afirma Gilmara.

Por outro lado, o avanço de igrejas cristãs sobre as comunidades tradicionais e o racismo estrutural geram um fenômeno de autoafirmação fragmentada, onde muitas pessoas se autodeclaram quilombolas, mas repetem preconceitos como “eu sou preto, mas eu não sou de matriz africana”. Para a ativista, o resgate do trabalho de base é indispensável para combater esse apagamento. 

Outro elo dessa discussão é a dificuldade de cumprimento integral das Leis Federais 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino da História e Cultura Africana, Afro-brasileira e Indígena na Educação Básica. 

Segundo Cristina Viana, embora em Senhor do Bonfim existam profissionais capacitados com centenas de horas de formação, o reflexo prático na juventude ainda caminha a passos lentos, porque a educação por vezes replica um ensino violento e protocolar. Em outras palavras, o ensino ocorre porque a lei obriga e não por convicção, o que cria uma distância da vivência dos povos originários e negros.

Gilmara Cláudia reforça que a mudança estrutural exige investimento contínuo na formação docente através das universidades e no fornecimento de literatura qualificada, pois, quando os estudantes aprendem quem são de fato, o senso de pertencimento muda automaticamente.  

Duas fotos coloridas de pessoas durante a VII Semana dos Povos de Terreiro de Senhor do Bonfim, na Bahia. Nas imagens, é possível ver várias pessoas de branco e sorrindo
Pessoas reunidas na VII Semana dos Povos de Terreiro de Senhor do Bonfim; valorização da ancestralidade é desafio cotidiano (Foto: Divulgação / Prefeitura de Senhor do Bonfim)

Dados e avanços

Pela primeira vez na história do Brasil, a população quilombola foi oficialmente contabilizada como grupo étnico por meio da autodeclaração dos entrevistados no Censo do IBGE. Esse marco representou um avanço significativo para a visibilidade, o reconhecimento e a formulação de políticas públicas específicas para os povos quilombolas, que são parte fundamental da formação e da diversidade brasileira. 

Segundo o Censo, mais de 1,3 milhão de pessoas se autodeclaram quilombolas, o equivalente a 0,66% da população brasileira, distribuídas em 1.700 municípios, nos 26 estados e no Distrito Federal. 

A distribuição regional revela uma forte concentração no Nordeste, que reúne 906.337 pessoas, correspondendo a 68,1% da população quilombola do país. Em seguida aparecem as regiões Sudeste, com 182.427 pessoas (13,7%), Norte, com 167.311 (12,6%), Centro-Oeste, com 44.997 (3,4%), e Sul, com 29.114 pessoas (2,2%). 

No entanto, apenas uma pequena parte dessa população vive dentro de territórios oficialmente delimitados, evidenciando os desafios históricos de titulação, demarcação e acesso a direitos. Os dados mostram que a maior parte da população quilombola vive fora dos territórios oficialmente delimitados. 

No país, 1.162.417 pessoas residem fora dessas áreas, enquanto 167.769 vivem em territórios quilombolas reconhecidos. Atualmente, existem 495 territórios quilombolas oficialmente delimitados no Brasil, o que evidencia a dispersão dessa população pelo país. 

Entre as unidades da Federação, a Bahia é a que apresenta o maior quantitativo de quilombolas: 397.502 pessoas, correspondendo a 29,90% da população quilombola. 

Área ocupada a partir das buscas de ouro e pedras preciosas no final do século 16 e por conta da criação de gado no sertão baiano, o norte da Bahia teve uma grande presença de pessoas negras escravizadas que chegavam à região trazidas por portugueses e colonos, cuja ação e legado ainda permanecem fortemente marcados na identidade regional.

O debate sobre identidade, ancestralidade e os desafios enfrentados pela maior cidade quilombola do país fazem parte do documentário “O sagrado de Si”, dirigido por Ranieri Soares e publicado pelo #Colabora. 

A produção traz entrevistas exclusivas com as ativistas sociais Cristina Viana e Gilmara Cláudia, aprofundando a discussão sobre as vivências, os terreiros e a luta antirracista na região. O conteúdo completo está disponível para visualização no YouTube.

*Esta reportagem é resultado do trabalho final de Ranieri Soares, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.

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Ranieri Soares de Jesus

Me chamo Ranieri Soares de Jesus. Sou um homem cis, negro, lgbt, nascido e criado no semiárido do norte da Bahia. Moro em Senhor do Bonfim, conhecida como a capital baiana do forró. Sou jornalista, com dois anos e meio de atuação na área. Tenho experiência em audiovisual, trabalhando como repórter e apresentador em uma WebTV no norte da Bahia. Também sou voluntário na Rede de Jornalistas Pretos (Rede JP), onde desenvolvo minhas habilidades em apuração e produção de reportagens. Meu objetivo é contar histórias autênticas, com compromisso com a qualidade e a relevância, especialmente em pautas relacionadas à identidade racial, de gênero e à diversidade étnica e cultural do Brasil.

Ranieri Soares de Jesus

Me chamo Ranieri Soares de Jesus. Sou um homem cis, negro, lgbt, nascido e criado no semiárido do norte da Bahia. Moro em Senhor do Bonfim, conhecida como a capital baiana do forró. Sou jornalista, com dois anos e meio de atuação na área. Tenho experiência em audiovisual, trabalhando como repórter e apresentador em uma WebTV no norte da Bahia. Também sou voluntário na Rede de Jornalistas Pretos (Rede JP), onde desenvolvo minhas habilidades em apuração e produção de reportagens. Meu objetivo é contar histórias autênticas, com compromisso com a qualidade e a relevância, especialmente em pautas relacionadas à identidade racial, de gênero e à diversidade étnica e cultural do Brasil.

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