Quando estudar é resistir: o caminho trans até a universidade

Sharon (à esquerda) e Fernando (à direita), coordenadores do Preparanem: cursinho popular criado para garantir que travestis, pessoas trans e a comunidade LGBTQIAPN+ tenham um espaço seguro para estudar (Foto: Instagram / Preparanem)
Sharon (à esquerda) e Fernando (à direita), coordenadores do Preparanem: cursinho popular criado para garantir que travestis, pessoas trans e a comunidade LGBTQIAPN+ tenham um espaço seguro para estudar (Foto: Instagram / Preparanem)
Sharon (à esquerda) e Fernando (à direita), coordenadores do Preparanem: cursinho popular criado para garantir que travestis, pessoas trans e a comunidade LGBTQIAPN+ tenham um espaço seguro para estudar (Foto: Instagram / Preparanem)

Entre barreiras sociais e institucionais, pessoas trans encontram atalhos que permitam sonhar um futuro digno e seguro

Por Raphaella Roçado | ODS 10

Publicado em 29/10/2026 - 09h41 (Atualizado há 38 minutos)

Tempo de leitura: 14 min

Antes mesmo de sonhar com a universidade, pessoas trans precisam enfrentar um percurso que começa muito antes do vestibular: violência escolar, ruptura dos estudos, burocracias que as excluem e a ausência de políticas públicas de permanência. É nesse cenário que surge o Preparanem, um cursinho popular criado para garantir que travestis, mulheres e homens trans e outras pessoas LGBTQIAPN+ tenham, pela primeira vez, um espaço seguro para estudar. “O obstáculo não é o conteúdo, é chegar até aqui vivo”, explicam Sharon Suane e Fernando Luz de Castro, coordenadores do projeto. Entre os alunos, como a vestibulanda de psicologia Cassandra Maciel, a ideia é semelhante: voltar a estudar não significa apenas aprender matérias do vestibular – significa disputar o direito de existir, circular e sonhar em um país onde quase nenhuma política pública educacional foi pensada para eles.

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O Preparanem não surge apenas como um cursinho comunitário. Ele é uma resposta possível para um problema histórico: a inexistência de políticas públicas voltadas para garantir que pessoas trans e travestis cheguem à educação superior. Criado em meio a mobilização do movimento LGBTQIA+ e impulsionado pela urgência de oferecer proteção e acesso ao estudo, o projeto se consolidou como um dos poucos espaços do país onde aprender é, antes de tudo, sobreviver. Desde a sua criação, o Preparanem funciona como uma porta de entrada para direitos básicos que a maioria das pessoas cisgêneras desfruta sem perceber – matrícula, permanência, documentos, transporte, segurança. Para seus alunos, esses elementos não são triviais: são obstáculos construídos por décadas de exclusão institucional.

Politicamente, o projeto se firma como um contraponto a uma sociedade que ainda produz índices alarmantes de violência contra a população trans. Enquanto o Brasil permanece no topo do ranking de assassinatos de pessoas trans, iniciativas como o Preparanem operam na contramão, sustentadas por voluntários, doações e esforço comunitário.

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O ambiente do Preparanem é estruturado a partir de uma política de acolhimento que vai muito além da sala de aula. Atualmente, o projeto está instalado dentro da Casanem – casa de acolhimento para pessoas LGBTQIAPN+ – o cursinho reúne estudantes que, além de serem pessoas trans e travestis, muitas vezes enfrentam expulsão familiar e vulnerabilidade social.

Foi muito legal aprovarem as cotas, mas a gente não pode esquecer que essas pessoas precisam de assistência para permanecer lá. Entrar é a parte fácil. A gente precisa garantir que essas pessoas permaneçam e se formem

Fernando Luz Castro
Coordenador do Preparanem

Para criar um espaço seguro, a equipe aposta no que os coordenadores chamam de “pedagogia do diálogo”. “A gente tenta deixar o ambiente mais leve e acolhedor conversando muito com eles”, explica Sharon. O corpo docente do projeto é formado integralmente por pessoas LGBTQIAPN+ e majoritariamente por professores trans, cuja presença funciona também como uma referência e incentivo para os alunos. A presença dos professores reforça para os alunos a possibilidade concreta de alcançarem a universidade, “porque é o momento deles (os alunos) verem que são corpos possíveis de ocuparem outros espaços”, resumiu Sharon.

Além da pedagogia baseada em diálogo e afeto, o Preparanem construiu uma parceria importante com um grupo de estudantes de psicologia da UFRJ, que atua diretamente no cotidiano do cursinho. Uma ou duas vezes por mês, pesquisadores realizam rodas de terapia coletiva com alunos e professores, criando um espaço para que todos possam compartilhar seus dilemas emocionais, inseguranças e tensões que atravessam tanto a vida escolar quanto a sobrevivência diária. O grupo também participa das reuniões pedagógicas, oferecendo escuta e apoio aos docentes. Esse acompanhamento não é apenas terapêutico: ele contribui para ajustar a comunicação em sala de aula, orientar estratégias de acolhimento e garantir que a experiência educacional seja sensível às vivências dos estudantes.

Como explicam os coordenadores, o trabalho conjunto ajuda a sustentar a base afetiva do projeto e reforça a construção de um ambiente em que, pela primeira vez, os alunos conseguem estudar sem se sentirem expostos. Apesar da força comunitária que sustenta o Preparanem, o projeto opera à beira da sobrevivência financeira. Sem financiamento público estável, o cursinho se mantém exclusivamente por editais e doações pontuais. Graças a essas doações, o cursinho consegue levar os estudantes a exposições e atividades culturais.

Para garantir que os estudantes não ficassem sem aula em setembro (dois meses antes do Enem, maior vestibular do país), a equipe recorreu a uma vaquinha criada às pressas no fim de agosto. Muitos professores, que já são voluntários, chegaram a abrir mão do próprio auxílio-transporte para que o dinheiro pudesse ser revertido em matérias para os alunos.

Cassandra Maciel, 35 anos, aluna do Preparanem: sonho de entrar na universidade, ter uma profissão e envelhecer com tranquilidade (Foto: Raphaella Roçado)
Cassandra Maciel, 35 anos, aluna do Preparanem: sonho de entrar na universidade, ter uma profissão e envelhecer com tranquilidade (Foto: Raphaella Roçado)

As expectativas de Cassandra

 Cassandra fala baixo, escolhendo cada palavra como quem recolhe memórias com cuidado. Sorri sempre, mas carrega nos olhos a atenção de quem precisou aprender cedo a ler os ambientes antes de entrar neles. Ela chegou ao Preparanem pelas mãos de uma amiga e, desde então, tenta reorganizar a rotina entre estudos, trabalhos informais e a necessidade constante de se proteger na cidade. “Faz muito tempo que não me imaginava sentada numa sala de aula”, conta.

Suas expectativas não são grandiosas: quer passar no vestibular, ter uma profissão, envelhecer com tranquilidade. Cassandra é uma mulher travesti, tem 35 anos de idade e, quando fala sua idade, faz questão de ressaltar o peso do envelhecimento para a população trans, “Eu tenho 35 anos de idade, ou seja, pelas estatísticas eu tenho 70”. Em 2025, ano em que o país inteiro discute o direito de envelhecer, Cassandra vive o começo desse futuro que nunca lhe pareceu garantido. E é nesse gesto, aparentemente simples, que reside a força da sua história.

O nosso entendimento é que nós não precisamos estar retificados para ser uma pessoa trans. Mas, para o oficial, o servidor público, você precisa estar retificada, você precisa fazer tratamento hormonal, porque isso é ser travesti, isso é que é ser pessoa trans. Mas isso não é

Cassandra Maciel
Estudante do Preparanem

O percurso de Cassandra evidencia um debate que finalmente chega ao centro das discussões públicas: o envelhecimento da população brasileira. Esse ano, o tema apareceu tanto nas ruas – com a Parada LGBTQIA+ do Rio – quanto nas provas do Enem, que trouxeram o direito de envelhecer como eixo de reflexão social.

Embora o país discuta o envelhecimento como direito, a trajetória dela mostra que envelhecer é um privilégio raro para a população trans e é marcada por rupturas educacionais, violência e ausência de políticas de permanência. “Perspectiva para o envelhecimento?”, repetiu, citando o tema da redação. “Nenhuma. Minha perspectiva era estar morta. Não que eu queira, não é isso. Mas dentro da realidade social, essa é a perspectiva.”

A frase não nasce de dramatização, mas de estatísticas. Segundo a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), a expectativa de vida da população trans no Brasil é de apenas 35 anos – menos da metade da média nacional. Ao se ver sentada novamente em uma sala de aula, ela percebe que estudar também é confrontar essa expectativa de morte precoce. Ao retornarem aos estudos, ela e outros alunos do Preparanem vivem algo que, para a população trans, costuma ser impossível: a possibilidade de planejar um futuro.

Foto colorida de estudantes segurando faixa durante marcha da consciência trans em Campinas. Movimento foi idealizado para buscar cotas para pessoas trans na Universidade
Na Unicamp, estudantes fizeram manifestações e greve em busca da criação de cotas para pessoas trans (Foto: Júlia Moretzsohn – @jumoretzfoto/Núcleo de Consciência Trans de Campinas – 29/06/24)

Política de cotas para pessoas trans

A aprovação das cotas trans em universidades públicas – como recentemente na UFRJ e antes na UFF e na UFRRJ, também no Rio, e em outras pela país – reacendeu debates importantes sobre inclusão, permanência e o próprio entendimento institucional sobre o que significa ser uma pessoa trans no Brasil. Embora celebrada como uma conquista histórica, a medida ainda enfrenta críticas – não pela sua existência, mas pelo modo como foi estruturada. Para os coordenadores do Preparanem, a aprovação das cotas é uma política necessária, porém limitada. “É o mínimo diante de uma sociedade que violenta, desrespeita e apaga nossas identidades e nossas vidas desde sempre”, afirma Sharon.

O reconhecimento da importância das cotas convive com a percepção de que o acesso não resolve o problema por completo. Se entrar já é difícil, permanecer pode ser ainda mais. Fernando complementa a fala de Sharon: “Foi muito legal aprovarem as cotas, mas a gente não pode esquecer que essas pessoas precisam de assistência para permanecer lá. Entrar é a parte fácil. A gente precisa garantir que essas pessoas permaneçam e se formem”.

Além dos desafios de permanência, há críticas profundas ao próprio modelo de seleção adotado pelas universidades. Cassandra aponta que as regras atuais reforçam uma visão cisnormativa sobre a transexualidade ao exigir documentação retificada. “O nosso entendimento é que nós não precisamos estar retificados para ser uma pessoa trans. Mas, para o oficial, o servidor público, você precisa estar retificada, você precisa fazer tratamento hormonal, porque isso é ser travesti, isso é que é ser pessoa trans. Mas isso não é.”

Para quem vive em situação de vulnerabilidade, a exigência de retificação se torna uma barreira quase intransponível. Retificar documentos demanda tempo, dinheiro e frequentemente apoio familiar – recursos que muitos jovens trans não têm. A política, criada para ampliar o acesso, acaba restringindo a entrada de quem mais necessita dela.

Essa contradição expõe uma distância entre o que a universidade diz promover e o que efetivamente entrega. O sistema ainda opera a partir de uma lógica que busca enquadrar identidades trans dentro de categorias administráveis, estáveis e comprováveis documentalmente. Ao fazer isso, ignora as múltiplas formas de vivência da transgeneridade.

Para ilustrar sua crítica, Cassandra fez uso de uma metáfora. Ela compara o sistema a duas árvores: uma mais alta, outra mais baixa. A mais alta, que teria condições de ver a vivência da outra, “faz questão de ficar cega”. Mesmo assim, é a menor que “dá muito mais flor”. Ainda assim, a mais alta delimita o espaço da outra, restringindo seu crescimento. A metáfora sintetiza a estrutura social que define quais corpos têm legitimidade para existir plenamente.

Nesse sentido, a disputa em torno das cotas não é apenas burocrática; é simbólica. Trata-se de disputar narrativas sobre quem pode ser reconhecido como sujeito de direitos e quem continua sendo interpretado a partir de parâmetros cis. Quando a instituição exige retificação para validar identidades, ele reafirma um modelo de controle que reduz a experiência trans a um conjunto de documentos e procedimentos médicos.

Para o futuro florescer

No fim, a discussão sobre cotas, acolhimento e envelhecimento converge para uma pergunta que atravessa a trajetória de Cassandra e todos os outros alunos do Preparanem: quem tem o direito de permanecer vivo o suficiente para sonhar? O projeto atua justamente nesse limite entre sobrevivência e projeto de futuro, criando condições mínimas para que estudantes trans e travestis possam reivindicar algo que a maioria das pessoas cis sequer percebe como um privilégio: a continuidade. Cassandra ainda não sabe se vai passar para psicologia, mas insiste. E insistir, no caso dela, já significa romper uma estatística que nunca foi feita para inclui-la.

Enquanto políticas como as cotas trans avançam de modo lento e burocrático, ainda moldadas por parâmetros cis que dificultam o acesso e inviabilizam a permanência, quem sustenta a travessia são iniciativas comunitárias como o Preparanem, onde afeto, diálogo e proteção funcionam como infraestrutura. O Preparanem está sempre aberto a novas pessoas. Estudantes ou professores podem entrar em contato com a equipe do projeto por meio do Instagram oficial @preparanem. A disputa por um lugar na universidade é também a disputa por ser reconhecida como sujeito possível, antes mesmo de ser aluno. Enquanto o Estado não garante o básico – viver, permanecer, envelhecer – a comunidade cria estratégias para que o futuro floresça.

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Raphaella Roçado

Raphaella Roçado é estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Direciona seu interesse para as áreas de esportes e cultura, buscando produzir narrativas que valorizem diferentes perspectivas e aproximem o público de temas relevantes.

Raphaella Roçado

Raphaella Roçado é estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Direciona seu interesse para as áreas de esportes e cultura, buscando produzir narrativas que valorizem diferentes perspectivas e aproximem o público de temas relevantes.

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