Além de ser um elemento estético, o artesanato também reflete a ancestralidade de quem confecciona as peças. Perpassadas de geração em geração entre povos originários e comunidades tradicionais, as técnicas artesanais ganharam espaço na feira agroecológica do Plante Rio 2026. Entre as peças: colares, brincos, pulseiras, chocalhos e ervas.
Integrante da feira, Leide Calazancio é uma mulher indígena nascida em contexto urbano, na Baixada Fluminense, filha caçula de nove irmãos. Ela tem por parte de mãe ascendência afro-indígena tupiniquim do Espírito Santo, e tapuia por parte de pai da região do Rio Grande do Norte.
Há 11 anos, ela abandonou o trabalho como CLT e decidiu viver apenas do artesanato. “Passei a trabalhar apenas com artesanato, com pintura, com a nossa arte, trazendo a ancestralidade, trazendo a importância da preservação tanto da cultura quanto do meio ambiente”, declara Leide.
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No artesanato indígena, a ancestralidade e a sustentabilidade caminham juntas. A pluralidade de cores e texturas das peças artesanais encontradas na feira agroecológica são compostas por materiais naturais. Com uma proposta ecológica e diversa, o Plante Rio 2026 tem fomento da Associação Saúva e da Jataí Investimentos, com realização da Fundição Verde e parceria do Mutirão Agroflorestal.
O artesanato tem presença marcante dos povos indígenas no Brasil, sendo ligado a sua identidade. Segundo dados do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), mais de 15,2 mil artesãos de povos e comunidades tradicionais estão cadastrados no país, sendo 78,5% indígenas. Além disso, existe um forte protagonismo feminino presente nessa economia criativa, que representa 70,8% do público citado.


Ancestralidade influencia na produção de artesanatos
Passada de geração a geração, Leide explica que a arte chegou até ela através da mãe: “a parte da montagem das biojoias é uma coisa da minha mãe, ela que fazia isso, eu não tinha esse dom, esse talento comigo. Meu talento principal é a pintura e a arte plumária. E só eu que faço. O meu pai mexia muito com trança, com cestaria. E a minha mãe com biojoias”. Depois, a artesã começou a aprender com a mãe a produzir as peças.
Para Leide, “tudo é muito ancestral” e cada pessoa tem sua trajetória: “para minha irmã, a cultura indígena já é o desenho, a pintura, o grafismo. Para mim, já é a parte da Biojoia, arte plumária, e também da pintura”.
Leide comenta ainda que a habilidade de cada um é aproveitada: “é algo que fica muito livre. Tem coisas que são passadas de pai para filho, mas, nessa parte do trabalho em si, a gente aproveita aquilo que cada um tem de melhor. Se eu trabalho melhor com pena, eu vou focar em pena, se eu trabalhar melhor com madeira, eu vou focar em madeira e assim a gente vai fazendo”, complementou.
Compondo o grupo de artesãos presentes na feira, o indígena Pacary Pataxó, da aldeia da região do Sul da Bahia, já é há algum tempo parceiro do Plante Rio. Seus produtos são feitos com sementes e plantas, as peças variam entre colares, pulseiras, chocalhos, brincos e apitos feitos de bambu que emitem 25 sons de passáros.
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Veja o que já enviamosPacary também trabalha com plantas medicinais como o rapé e a mescla, árvore com uma resina que é inflamável, mas que serve para fazer defumação para limpeza espiritual. A partir dessa resina, também desenvolve um óleo utilizado para massagem destinado a pessoas com dores musculares.
Pacary explica que, após a coleta das sementes, quando estão produzindo os colares, os indígenas se sentam em forma de círculo, o que se chama de “Muka Mukau”, expressão que significa unir e reunir os povos.
Cada peça é produzida com intenção energética. “Quando a gente faz o nosso artesanato, a gente não faz nada aleatório, a gente faz jogando a nossa energia positiva para aquela arte, porque a pessoa que vai adquirir aquele artesanato também vai receber essa força da floresta dos povos originários, então tem todo um significado para nós indígenas”.
Ele também reforça que o artesanato já sustenta à comunidade há várias gerações. Desta forma, os mais novos já são “preparados para a vida”, para conseguir se sustentar através do “artesanato, através da lavoura das plantações, da pesca, da caça”. Pacary acrescenta ainda sobre a cultura: “A gente não vai deixar de praticar o nosso conhecimento, a nossa cultura, é por isso que desde 1500 a gente vem resistindo e até hoje nada vai apagar a nossa memória”.


Visibilidade
Pacary Pataxó acredita que eventos como o Plante Rio são uma forma de dar visibilidade ao seu trabalho e cultura: “a sociedade precisa conhecer mais os povos originários”, pontua.
A artesã Leide também exalta a importância de ocupar esses espaços: “quando a gente troca a ideia, ainda mais em um evento como esse, a gente acaba desmistificando muitas coisas. É a oportunidade de tirar as dúvidas das pessoas e fazer as pessoas entenderem que a cultura indígena não é uma cultura no singular… A cultura indígena é plural, está em evolução, está em constante movimento assim como qualquer outra cultura do mundo todo”.
Também vendedora de acessórios, Laura Lima, assim como Leide, é mulher indígena de contexto urbano e produz biojoias para se manter conectada à sua ancestralidade e como fonte de renda. “Eu faço a minha busca de volta para casa principalmente através do artesanato”, disse Laura, durante o Plante Rio.
Também seguindo um legado geracional, ela aprendeu as técnicas com parentes. “Eles foram me ensinando tanto as técnicas, tanto as melhores sementes e como colher. Mas sempre soube também que você tem que tirar da natureza com muito respeito sempre, porque isso pode também se voltar contra você”, explica Laura.
Há cerca de dois anos, ela deu início ao seu negócio “Urucum Biojóias”, acompanhada de seu parceiro, que foi seu aprendiz no artesanato. “Eu fiquei muito feliz, porque foi uma semente que um parente colocou em mim, que depois eu comecei a semear não só com o João, mas com outros parentes também, dando oficina e mostrando esse outro lado de ter uma renda sem você ser o capitalista que prejudica de qualquer forma o meio ambiente”.
Laura relembra a diversidade que existe entre os povos indígenas, o que aparece também no artesanato e serve para compartilhar inspirações. Como exemplo, ela cita a miçanga de vidro. “Vários povos utilizam da miçanga de vidro que vem da areia, mas mudam os grafismos conforme o povo. Muita gente fala sobre a proteção, mas muitos de nós aprendemos o grafismo do outro povo e o outro povo o nosso também”. Ainda como parte da colaboração entre si, diferentes povos compartilham a localização de sementes que possam ser usadas para o artesanato.


Religião de matriz africana inspira artesã
Também presente no Plante Rio, Márcia Ferreira vende peças que são majoritariamente do bioma amazônico, como semente do açaí, jarina, semente do cerrado, carobinha, baru, entre outras. Devido à riqueza do bioma brasileiro, ela disse que não trabalhou nem com um terço do que deseja experimentar e testar em suas biojoias.
“Saber que é possível trabalhar com elas e descobrindo cada vez mais uma semente nova, uma casca nova para o meu trabalho, eu digo que nem é uma descoberta, é um reencontro em algum momento. Não, em alguma outra existência eu já tive esse desenvolver, essa atividade e hoje eu me reconecto com ela e tô aí no mercado trabalhando as minhas biojoias”, relata Márcia.
A prática artesanal também tem inspiração em sua religião, meio pelo qual descobriu que a confecção dos fios de conta anteriormente era feita com sementes. “Eu sou uma mulher de terreiro, e no terreiro você tem a ligação com ancestrais divinizados a partir dos fios de conta. E aí foi quando eu fui estudar e descobri que os primeiros fios de contas não eram feitos com o material que hoje é utilizado, a miçanga, e sim feitos com sementes com cascas, contas com ossos”.
Os fios de conta são colares usados em religiões de matriz africana, como o Candomblé e Umbanda. A escolha de cada material, tamanho e especialmente das cores faz referência a diferentes divindades. Ao dar continuidade a técnica do artesanato de biojoias, Márcia enfatiza que está mantendo um trabalho ancestral circulando: “eu estou reverenciando aqueles que vieram antes de mim quando eu trabalho com as biojoias. Mostrando o terreiro, esse lugar que sempre adornou o seu povo com cascas e sementes”.


Sustentabilidade e preservação
Um ponto em comum em meio a diversidade do trabalho dos artesãos é a utilização das biojóias, peças compostas de materiais orgânicos e naturais, como as diversas sementes, raízes e cascas citadas por Leide, Pacary, Laura e Márcia
Ainda sobre o processo de confecção das jóias, Leide Calazancio busca preservar os biomas, então não são todas as jóias que consegue extrair em seu território. “Algumas coisas para gente é joia, mas para outras pessoas são lixo”.
Reforçando o compromisso com a sustentabilidade, as artes de pintura são feitas com poda de madeira, sem derrubar árvores no processo. Já em relação às penas, Leide utiliza apenas de animais domésticos como ganso, pato, peru, entre outras.
Leide ressalta a importância sustentável das biojoias, exemplificando com a semente do açaí. “Geralmente as fazendas de açaí ela produz só o fruto e somente a polpa é valorizada, mas a semente se você descarta de forma inadequada ela se torna poluente. Então quando você transforma uma semente de açaí em uma biojoia, aquilo ali não se perde, você evita a poluição e traz essa consciência ambiental para as pessoas”, ressalta.
Laura Lima reforça que o uso das biojóias ajuda a manter uma consciência leve, sabendo que não está poluindo o meio ambiente. “Você fica tranquilo sabendo que, quando a sua peça, quando o seu artesanato ficar ruim, a pessoa pode enterrar, jogar no mato e está tudo certo. Você sabe que não tem um plástico seu rodando por aí, sabe que um ano seu produzindo algo não vai ser um ano de produtos que vão parar em algum lugar após um tempo, e que vão fazer mal de alguma forma para o meio ambiente”, pontua Laura.
Pacary Pataxó, também alinhado com a sustentabilidade, faz um alerta sobre a preservação ambiental e se posiciona. “Hoje, na verdade, a luta dos povos originários não é só lutar para nós, é a luta para toda a humanidade, que é proteger a floresta, a mãe terra, a natureza”, finaliza.
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