Oficina Nave Memória incentiva a reflexão sobre o futuro entre crianças

O 'astronauta' Rona Naves e crianças com a Nave Memória: oficina convida meninos e meninas a trabalharem as percepções sobre o futuro, por meio de cartas e desenhos (Foto: Sofia Ricardo)
O 'astronauta' Rona Naves e crianças com a Nave Memória: oficina convida meninos e meninas a trabalharem as percepções sobre o futuro, por meio de cartas e desenhos (Foto: Sofia Ricardo)
O ‘astronauta’ Rona Naves e crianças com a Nave Memória: oficina convida meninos e meninas a trabalharem as percepções sobre o futuro, por meio de cartas e desenhos (Foto: Sofia Ricardo)

Projeto cria, através de dinâmica educativa com temática astronáutica, um espaço para mobilizar a construção de um futuro sustentável e com afeto

Por Sofia Ricardo | ODS 4

Publicado em 21/09/2026 - 10h01 (Atualizado há 4 minutos)

Tempo de leitura: 13 min

A imaginação, o acolhimento e o lúdico fazem parte da oficina Nave Memória, um projeto em que crianças a partir de 5 anos e adultos refletem sobre como poderiam ajudar o futuro a ser melhor. A iniciativa busca impactar e conscientizar todos os participantes numa linha de raciocínio alinhada com o futuro. A Nave Memória, de forma imersiva, convida as crianças a trabalharem as percepções sobre o que vai ser encontrado no futuro por meio do pensar, da escrita de cartas e desenhos.

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Para contribuir, os oficineiros criam um espaço imersivo, onde utilizam trilha sonora, fantasia de astronauta, e improvisam efeitos sonoros. Além disso, o material para a confecção das cartas envolve canetas e lápis coloridos. A mais recente oficina teve como palco a Fundição Progresso, durante o Plante Rio 2026, evento fomentado pela Associação Saúva e Jataí Investimentos, com realização da Fundição Verde e parceria do Mutirão Agroflorestal.

O projeto Nave Memória foi inspirado pelo conto “Os Astronautas”. Seu autor, Rona Naves, fundador do projeto, explicou que o Nave Memória surgiu na pandemia, voltado para as crianças do Morro dos Pretos-Forros, na Zona Norte do Rio de Janeiro, buscando auxiliá-las a entenderem o contexto que estavam vivendo e se distraírem também. “Eu resolvi escrever os astronautas, que parte da ideia de que quatro crianças de uma comunidade pegam aquela caixa d’água, constroem um disco voador e vão até o futuro para saber se no futuro elas vão encontrar plantas, árvores, água, rio, peixe”, explicou o multiartista.

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Foi o próprio Rona Naves que montou um pequeno video e confeccionou a roupa dos astronautas. “Criei na sala da minha casa um planeta, recebi as crianças durante a pandemia com uma equipe de amigos do audiovisual e a gente fez essa brincadeira com elas, com capacete, com mochilinha, com oxigênio”, acrescentou.

Quando surgiu o convite para participar do Plante Rio 2026, Rona viu o espaço como uma oportunidade para dar continuidade ao projeto após uma apresentação no Museu do Pontal. No Plante Rio, ele produziu a oficina com seu amigo Matheus Augusto, poeta e comunicador social, que leva o lado artístico para as dinâmicas realizadas no Nave Memória. “Eu entro no projeto a partir desse segundo voo da nave memória. Ele entende que essa nave circula e também traz essa importância da escrita enquanto registro da memória desses pensamentos e o futuro que as crianças querem trazer”, disse Matheus.

Os dois oficineiros se vestem com roupas de astronauta e chegam na oficina com uma ‘nave circular’. A partir disso, eles começam a sensibilizar as crianças e também pais ou responsáveis, que podem acompanhar a oficina, de que a nave traz uma mensagem, na qual todos embarcam na dinâmica de pensar sobre o futuro. A nave contém um segredo: para descobri-lo, é necessário entrar nela.

Alicia observa Lian 'entrar' na nave: espaço imersivo,  fantasias e efeitos sonoros para estimular criatividade (Foto: Sofia Ricardo)
Alicia observa Lian ‘entrar’ na nave: espaço imersivo, fantasias e efeitos sonoros para estimular criatividade (Foto: Sofia Ricardo)

Após a dinâmica de girar da nave, crianças e pais escrevem cartas e desenham o futuro que imaginam. “E com esse sentimento a gente vai dinamizar uma escrita que volte pensando sempre nesse lugar de qual o futuro que a gente quer levar, qual o futuro que a gente quer construir a partir do que a gente viu dentro dessa nave e do que a gente quer também para os nossos pais, para os nossos amigos, para gente”, afirmou,

A criatividade de Rona veio de sua infância na comunidade do Morro dos Pretos-Forros. “O meu território foi fundamental para estimular a minha criatividade”. O artista explicou que, a partir das histórias dos mais velhos, ele criava imagens e idealizava como era aquilo que estavam contando. Além disso, ele cresceu assistindo a Folia de Reis. “A Folia de Reis da minha comunidade, que foi fundada em 1942, também é de uma grandiosidade, uma festividade muito grande, e eu cresci vendo aquela poesia, aquela musicalidade, aqueles corpos dançantes, aquela indumentária. Tudo isso foi de suma importância para mim”, contou Rona.

A natureza presente em seu território também influenciou Rona. “Brincando no meu território, que era um território vasto com muita árvore frutífera, com muita nascente de água, cachoeira, com muita erva medicinal. Até hoje eu me cuido, me trato com as ervas medicinais. Tudo isso eu aprendi no meu território. Isso me deu e continua me dando a ideia de um corpo que expande, de uma imaginação que expande”.

Ele acrescentou que sua avó apresentava para ele as plantas quando era criança. “A minha avó rodava o morro comigo, me dando a mão, e ela ia pegando as ervas medicinais, esfregava a folha entre um dedo e outro, aí saía aquele sumo e botava no meu nariz e falava: ‘Cheira, isso aqui é arnica, isso aqui é erva-cidreira, isso aqui é boldo’. O cheiro é uma coisa muito boa”, recordou.

Essas memórias se esbarram e se conectam com a oficina, em que Rona, ao perguntar às crianças o que elas levaram para o futuro, recebeu a resposta de um menino dizendo que levaria “o cheiro do meu pai”. O acontecimento desdobrou mais memórias, onde Rona lembrou que sua avó tinha cheiro do talco que usava no pescoço, e um outro rapaz desenhou intuitivamente uma árvore que desenhava apenas quando era criança, o qual sua avó havia ensinado. A oficina reforçou que levar o afeto e continuar construindo boas memórias para o futuro é fundamental, e que, relembrar o passado e o que se quer levar dele também faz parte do processo.

A atividade estimula a imaginação das crianças, pensando também nos sentidos, abrindo espaço para o corpo, tato e voz. Roma traz a ideia de “corpo em expansão”, pois as crianças exploram os lugares novos, correm e saltam nesses espaços, movidas pela curiosidade. Atividades lúdicas fazem diferença no desenvolvimento físico, cognitivo e emocional das crianças. Através das brincadeiras, elas absorvem conhecimento, sendo possível utilizá-las como ferramenta para a conscientização social e ambiental, objetivo da oficina Nave Memória.

A brincadeira anda junto com a responsabilidade educativa. “Eu já sou um homem adulto, com 58 anos, e eu continuo brincando nos meus processos criativos, sabe, inventando, fazendo de conta, mas sempre com uma responsabilidade do que a gente de verdade quer passar com aquela oficina e com aquele pensamento, né, principalmente quando a gente lida com criança. Há uma responsabilidade muito grande no que você está falando, no que você está passando, na imagem que você está trabalhando”, afirmou Rona.

A Oficina Nave Memória durante o Plante Rio 2026 na Fundição Progresso : pais estimulados a participarem ao lado das crianças (Foto: Sofia Ricardo)
A Oficina Nave Memória durante o Plante Rio 2026 na Fundição Progresso : pais estimulados a participarem ao lado das crianças (Foto: Sofia Ricardo)

Participação dos pais na oficina ajuda na conexão com as crianças

Para os oficineiros, o projeto incentiva a criança interior dos adultos também. “Muitas vezes tem uma distância de idade entre os pais e as crianças, né? Dê ideias também. E quando a gente está nesse lugar do lúdico, tudo é brincadeira, tudo é possível, tudo pode acontecer. Então é nessa brecha que a gente consegue criar novas pontes, novas conexões”, disse Matheus Augusto, acrescentando que “poder também ter esse lúdico e deixar essa minha criança brincar é muito bom, é um reencontro”.

Gabrielle Almeida, que levou os filhos Miguel Zyon e Lian Lisboa à Nave Memória, disse que foi surpreendida pela experiência na oficina “Acho que a nave despertou em mim a minha criança interior”. E afirmou que a oficina foi uma forma de ampliar a comunicação com os filhos: “Quando eu vejo, eu estava escrevendo, que é uma coisa que habitualmente eu não faço, colocando os meus sentimentos, procurando formas de me comunicar melhor com os meus filhos para assim me comunicar melhor com o mundo”.

Mesmo antes da oficina, Gabrielle buscava estimular a parte lúdica das crianças em casa, inspirada pelo trabalho de Rona. “A transformação começou antes de chegar aqui. Foi super, super legal e continua sendo”. Ela utilizou objetos que tinha em casa para brincar com as crianças e incentivou eles a dançarem – para inspirar as crianças, ela entrou na brincadeira.

Gabrielle não deixou de pontuar a importância de atividades que promovam a cultura e aprendizado não convencional: “Eu acho que é super importante também ter esse espaço de cultura, essa forma de aprender de uma forma diferente, né, que não seja ir para o colégio, aquela rotina que geralmente cansa. Esse é um momento de qualidade que eu estou tendo com eles”, disse Gabrielle, para quem a experiência foi “maravilhosa”. Eles desenharam, falaram sobre memórias de pessoas que trazem lembranças. “Eu estou aqui saindo transformada com uma visão assim de esperança pro futuro e eu acho que eles super curtiram também e vai ser super proveitoso para nossa vida”. Miguel e Lian, de 8 e 5 anos, respectivamente, definiram a oficina como “legal” e “espacial”.

Também participando da oficina, Alícia Bispo, de 8 anos, definiu como “maravilhoso”, seu dia. “Eu arrumei dois amigos muito, muito legais. A gente brincou, se divertiu, desenhou e escreveu pro futuro”, contou. Alicia ainda disse que “quando tiver no futuro eu vou ter vários amigos e também vou cuidar da floresta, dos animais e de vários bichinhos.”

Rona Naves (à esquerda) e Matheus com a 'nave': oficina a caminho de escolas da periferia (Foto: Sofia Ricardo)
Rona Naves (à esquerda) e Matheus com a ‘nave’: oficina a caminho de escolas da periferia (Foto: Sofia Ricardo)

O oficineiro Matheus pontuou que a oficina abre espaço para os pais se colocarem no lugar da criança e entenderem o que ela está sentindo, além de estimular a imaginação. “A Nave Memória é esse lúdico e imagético desse futuro. E estimula a pensar que existem muitas possibilidades de futuro e que, principalmente, o futuro que a gente quer construir e viver é um futuro em que a imaginação seja um lugar possível”, disse.

Rona Naves já recebeu mais convites de amigos educadores para o oficina. Ele vai levar a Nave Memória para escolas em Santa Cruz e na Vila Aliança, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e no Barro Branco, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ele acredita que a oficina pode gerar diferentes ações e tem planos de expansão em territórios periféricos. “Meu grande foco são as crianças da favela, porque eu venho de uma favela e eu sei o quanto é importante ter essas atividades, trabalhar o lúdico, trabalhar o corpo, enfim. E aí eu pensei em como seria importante essa nave fazer pouso em determinados lugares”.

Assim, através de sugestões e reflexões, Rona percebeu que as cartas escritas durante as oficinas, que ainda não foram abertas e lidas, podem vir a serem expostas. “A gente pode sempre de tempo em tempo fazer uma exposição, convidar amigos artistas adultos, eles sorteiam aleatoriamente uma cartinha lê o sonho e traduz aquele sonho e aquela escrita numa obra seja uma pintura, um desenho, uma escultura, um bordado -e fazer uma exposição voltada para a criança”, explicou Rona. “Ccom as obras na parede dispostas na altura do olhar dessa criança, ela não precisa ficar na ponta do pé nem no colo de ninguém pra ver. Isso alcança os olhos dela, o horizonte dela naquele momento que ela tá parada diante da obra”, acrescentou.

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Sofia Ricardo

Sofia Ricardo é jornalista em formação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e atua como redatora, repórter e filmmaker. Também tem experiência nas áreas de fotografia, comunicação institucional e assessoria de imprensa. Nascida em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, acredita na pauta jornalística como arma de combate.

Sofia Ricardo

Sofia Ricardo é jornalista em formação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e atua como redatora, repórter e filmmaker. Também tem experiência nas áreas de fotografia, comunicação institucional e assessoria de imprensa. Nascida em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, acredita na pauta jornalística como arma de combate.

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