O Brasil vive seu mais longo período de estabilidade democrática. Nas últimas quatro décadas, a participação popular se ampliou paralelamente ao crescimento do eleitorado: se, antes da Constituição de 1988, os eleitores representavam pouco mais de metade da população, hoje, em 2026, esse índice alcança cerca de 75%.
Enquanto o eleitorado do século XX era predominantemente masculino e jovem, o perfil do século XXI mudou: as mulheres se tornaram maioria e a população idosa é o segmento que mais cresce nas urnas. Assim, a feminização e o envelhecimento consolidam-se como as marcas centrais da democracia brasileira contemporânea.
Leu essa? Um Brasil de cara nova, mas com estrutura etária mais envelhecida
A tabela abaixo, com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ilustra a mudança demográfica nas urnas entre 1992 e 2026. Nesse período, o eleitorado total saltou de 90,2 milhões para 158,8 milhões de pessoas. Em contrapartida, o contingente de jovens (16 a 24 anos) encolheu de 21,5 milhões (23,8% do total) para 19,9 milhões (12,6%).
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Veja o que já enviamosNa direção oposta, o eleitorado com 60 anos ou mais quadruplicou, passando de 9,5 milhões (10,5%) para 36,8 milhões (23,2%). Com isso, os idosos, que em 1992 equivaliam à metade da população jovem votante, passaram a ter quase o dobro do seu peso eleitoral em 2026. O avanço da idade também se destaca no grupo de 70 anos ou mais, que cresceu de 3,4 milhões (3,8%) para 16,8 milhões de eleitores (10,6%).


Desse modo, o envelhecimento populacional consolida-se como um vetor central de transformação na política brasileira. A ascensão de um eleitorado majoritariamente feminino e com expressiva presença de idosos exige dos candidatos a priorização de pautas voltadas à saúde, à previdência e à garantia dos direitos desses segmentos.
Diferenças estaduais e regionais do envelhecimento do eleitorado
Mas o envelhecimento do eleitorado não ocorre de maneira homogênea em termos geográficos, pois segue o ritmo da transição demográfica nos estados e nas regiões. A tabela abaixo, também com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra os números do eleitorado para o Brasil, as regiões e as Unidades da Federação (UFs), em 2026.
A Região Sul destaca-se por registrar a menor presença de jovens de 16 a 24 anos (10,4%) e o maior contingente de idosos com 60 anos ou mais (26,5%) — grupo que já representa mais do dobro da população jovem. No Sul, os jovens também perdem numericamente para o grupo 70 anos ou mais (12,1%). O Sudeste, por sua vez, lidera a proporção no segmento de 70+ anos, alcançando 12,3%.
No extremo oposto, o Norte concentra a maior parcela de jovens (16,6%) e os menores percentuais de idosos, tanto na faixa de 60+ (17,1%) quanto na de 70+ (7,4%), onde a presença jovem chega a ser mais do que o dobro das gerações grisalhas. Já as regiões Nordeste e Centro-Oeste ocupam posições intermediárias no panorama do envelhecimento do eleitorado nacional.


Roraima (RR) lidera o ranking de eleitores jovens (16 a 24 anos), representando 18,5% do total do estado, enquanto o Rio Grande do Sul (RS) registra o menor índice de jovens do país, com 9,5%. No extremo oposto do perfil demográfico, o RS concentra a maior parcela de idosos do eleitorado nacional: 29,8% com 60 anos ou mais e 14,5% na faixa de 70 anos ou mais.
As menores participações do eleitorado idoso encontram-se no Amapá (AP), no grupo 60+ (14,7%), e no Amazonas (AM), no grupo 70+ (6,1%). Atualmente, os eleitores com 70 anos ou mais já superam os jovens de 16 a 24 anos no Rio Grande do Sul e nos quatro estados da Região Sudeste (SP, MG, RJ e ES). As projeções indicam que essa inversão estenderá essa hegemonia idosa sobre a juventude a todas as Unidades da Federação nas próximas décadas.
Embora o voto para os maiores de 70 anos seja facultativo, o peso estatístico e a maturidade cívica desse grupo garantem que o futuro da democracia brasileira passe, inevitavelmente, pela experiência e pelas mãos daqueles que continuam a exercer sua cidadania para além da obrigatoriedade legal.
Com o envelhecimento populacional, as demandas da população idosa tornaram-se centrais para a sustentabilidade social. Quando os idosos deixam de votar, os formuladores de políticas públicas perdem o incentivo para endereçar prioridades fundamentais desse grupo, tais como:
- Saúde: investimento no SUS para geriatria, tratamento de doenças crônicas e fornecimento contínuo de medicamentos;
- Previdência e segurança: garantia de sustentabilidade das pensões e proteção contra golpes socioeconômicos e violência;
- Acessibilidade: adaptação de transportes urbanos, calçadas e infraestrutura pública;
- Capacitação: educação continuada e inclusão digital;
- Trabalho e sociedade: criação de empregos, incentivo ao empreendedorismo e combate ao etarismo.
O desafio da abstenção do voto do grupo 70+
Embora a força numérica do eleitorado 70+ seja cada vez maior no Brasil, existe um desafio para transformar este poder eleitoral em força efetiva na defesa dos direitos e interesses específicos deste grupo etário cada vez mais representativo.
Nas eleições brasileiras de 2024 o eleitorado apto a votar era de 155,9 milhões de pessoas, sendo 121,8 milhões de pessoas de 16-59 anos (78,1%), 34,2 milhões de pessoas 60+ (21,9%) e 15,2 milhões de pessoas 70+ (9,8%). No grupo etário 70+, as mulheres representam 56% dos eleitores e os homens representam 44%.
Mas a despeito desta crescente força, o comparecimento às urnas tende a diminuir muito com o avanço da idade, pois a abstenção cresce aceleradamente para a população de 70 anos e mais, conforme mostra a tabela abaixo.
Nas eleições de 2024, no grupo etário não idoso – de 16 a 59 anos – o comparecimento foi de 80,8% e a abstenção foi de 19,2%. No grupo etário 60-69 anos, o comparecimento foi de 86,1% e a abstenção foi de 13,9%. Mas o comparecimento às urnas cai abruptamente a partir dos 70 anos e a abstenção cresce exponencialmente nas idades mais elevadas. No grupo 70-74 anos, o comparecimento foi de 66,4% em 2024 e a abstenção foi de 33,6%. Já para as pessoas de 100 anos e mais o comparecimento foi de apenas 1% e a abstenção foi de 99%.


A abstenção entre eleitores com 70 anos ou mais tende a superar a média nacional, impulsionada por limitações de mobilidade, problemas de saúde, desencanto político ou falhas na acessibilidade das seções eleitorais. Mitigar esse índice é fundamental por múltiplos fatores:
- Equilíbrio democrático: O afastamento de uma parcela expressiva desse eleitorado distorce a representatividade nas urnas, enfraquecendo a presença de pautas cruciais para a economia da longevidade;
- Incentivo à acessibilidade universal: Combater a abstenção nesse grupo pressiona a Justiça Eleitoral e o poder público a investir em seções adaptadas, transporte acessível e prioridade no atendimento — infraestrutura que beneficia a sociedade como um todo, incluindo pessoas com deficiência e mobilidade reduzida;
- Fortalecimento institucional: O comparecimento expressivo de eleitores cujo voto é facultativo demonstra maturidade cívica e amplia a legitimidade dos representantes eleitos.
Em síntese, o voto 70+ deixa de ser uma mera formalidade eleitoral facultativa para se tornar um pilar estratégico da representatividade no Brasil. Garantir a mobilidade, a acessibilidade e o engajamento desse eleitorado é fundamental para evitar o apagamento de suas pautas no debate político e assegurar um pacto intergeracional equilibrado. Afinal, uma democracia verdadeiramente sólida e inclusiva reconhece que o direito de decidir o futuro do país pertence a todas as idades, valorizando a voz e a maturidade de quem nunca desiste e escolhe continuar exercendo a cidadania até o fim, com a irreversível esperança na construção de um horizonte político, social e econômico mais justo e próspero.
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