ODS 1


Condutoras de scooter formadas pela Dosy: empoderamento sobre duas rodas das mulheres no Egito (Foto: Dosy)
Nouran Farouk e o empoderamento sobre duas rodas das mulheres no Egito
Jovem empreendedora cria plataforma para habilitar egípcias a dirigirem scooters e bicicletas e multiplica número de condutoras e entregadoras
O país de destino da nossa história de hoje tem mais de cinco mil anos de história às margens de um rio conhecido por sua fertilidade lendária. É dono também de uma das rotas comerciais mais importantes do planeta e vive hoje um dos maiores booms turísticos do mundo. Foi nesse cenário que uma mulher decidiu subir em uma scooter para enfrentar um trânsito caótico. E, por acaso, se é que acasos existem, acabou colocando muitas mulheres na garupa.
Vale um respiro para conhecer melhor esse país de contrastes. O Egito é um dos destinos que mais crescem no turismo mundial: só em 2025, o setor faturou mais de 18 bilhões de dólares e recebeu cerca de 15,6 milhões de visitantes, um salto de quase 20% em relação ao ano anterior. Inclusive, essa taxa de crescimento está entre as maiores do planeta, ao lado de países como o Brasil.
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O país também é dono do Canal de Suez, um atalho no meio do deserto por onde passa cerca de 12% de todo o comércio marítimo mundial, algo como 50 navios cruzando o canal todos os dias. Do outro lado da moeda, o Egito enfrenta inflação alta e um desemprego que atinge as mulheres de forma bem mais dura do que os homens.
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Veja o que já enviamosÉ no Cairo, capital do país e coração dessa nação de mais de 116 milhões de habitantes, a mais populosa do mundo árabe, que essa história acontece. Foi lá que Nouran nasceu, em uma cidade de mais de 20 milhões de moradores e um trânsito à altura desse número: avenidas eternamente congestionadas, carros, ônibus e pedestres disputando cada centímetro de asfalto.
Não era só sobre o treinamento e a possibilidade de dirigir com autonomia para qualquer destino da cidade. Também era sobre empoderar mulheres economicamente, dando a elas oportunidades reais de renda
Para as mulheres da cidade, esse caos tem um problema extra: o transporte público é abarrotado, pouco confiável e, com frequência, inseguro. O assédio em ônibus e metrôs é desalentadoramente comum. Segundo uma pesquisa de 2022 do “Human and City Center for Social Research”, mais de 80% das mulheres que usam transporte público no Cairo já sofreram algum tipo de assédio sexual. Foi tentando escapar desse cenário que Nouran Farouk decidiu que sua vida, e a de milhares de outras mulheres egípcias, precisava de outro caminho.
Nouran Farouk nasceu em uma família de três irmãs, criada por pais que, como tantos no Egito, acreditavam que o filho ideal deveria seguir carreira de médico ou engenheiro. Ser médica, no país, carrega um prestígio quase sagrado, e foi esse o caminho que os pais desenharam para ela. Nouran seguiu em frente sem questionar muito: notas altas no ensino médio, aprovação na faculdade de medicina do Cairo, os primeiros anos de universidade com desempenho exemplar.


O custo, porém, foi alto. Durante a graduação, ela viveu isolada, sem tempo para amigos ou qualquer forma de equilíbrio, inteiramente absorvida pela rotina de estudos. Sem perceber, mergulhou em um quadro de depressão que só reconheceria, e nomearia, muito tempo depois. “O que eu aprendi é que você precisa buscar ajuda, especialmente das pessoas mais próximas de você”, diz ela hoje, ao relembrar para aquele período.
Formada, Nouran chegou a trabalhar como médica, tratando pacientes, um trabalho que reconhecia como importante, mas que nunca a preencheu por completo. Fosse pela rotina extenuante, fosse pela ausência daquela centelha de paixão que ela sentia faltar em si mesma, algo, simplesmente, não fechava. Foi a irmã mais velha, jornalista, quem a empurrou para um caminho radicalmente diferente: deixar a medicina para empreender.
O gatilho, no entanto, veio de um problema bem mais concreto e pessoal. Durante os anos de faculdade, Nouran dependia do transporte público para chegar à universidade todos os dias: superlotado, pouco confiável e, na maior parte do tempo, inseguro. Não era um incômodo ocasional: era uma rotina de assédio e falta de espaço pessoal repetida diariamente. Sem dinheiro para comprar um carro, ela passou a considerar outra opção, muito mais prática em uma cidade congestionada como o Cairo: a scooter. “Foi aí que percebi que transporte não é só um jeito de chegar a algum lugar. É uma liberdade básica. Sem ele, você não consegue nem ir trabalhar”, conta.
“Quando percebemos o quanto essa falta de oportunidade limitava a vida de tantas mulheres, ficou impossível simplesmente não fazer nada. Foi então que eu e minha irmã, Menna, decidimos criar uma solução para esse problema.”
Com pouco mais de duas mil libras egípcias, elas lançaram, em 2019, uma pequena iniciativa de treinamento para habilitar mulheres a conduzirem scooters (e outros veículos sobre duas rodas) chamada Dosy. O nome vem de uma expressão do árabe coloquial associada à ideia de “arriscar” e também remete, no árabe clássico, ao ato de “pisar”, como quem pisa no freio.
É interessante pensar que essa história não começa, nem termina, com uma scooter. Ela começa com mulheres inconformadas e dispostas a transformar aquilo que as incomoda.


Oportunidade de renda para mulheres
O Egito é um país marcado por mulheres que, em diferentes épocas, desafiaram os limites impostos a elas. Há, claro, Cleópatra, a última grande soberana do Egito antes da transformação do país em território romano, uma das figuras mais emblemáticas da história egípcia. Muito além da imagem romantizada construída ao longo dos séculos, ela foi uma governante habilidosa, poliglota e estrategista política, que lutou para preservar a autonomia e a sobrevivência de seu reino diante do avanço de Roma.
Séculos depois, já no Egito moderno, outras mulheres continuariam a romper barreiras. Nawal El Saadawi, médica, escritora e uma das mais importantes vozes feministas do mundo árabe, dedicou sua vida a denunciar a desigualdade, a violência contra as mulheres e as estruturas sociais que sustentavam essa opressão. Suas ideias lhe renderam censura, perseguição e até prisão, mas também fizeram dela uma referência internacional na luta pelos direitos das mulheres.
E há ainda Huda Sha’arawi, pioneira do movimento feminista egípcio. Em 1923, depois de retornar de uma conferência feminista em Roma, ela retirou publicamente o véu em uma estação de trem do Cairo: um gesto simbólico que causou enorme repercussão. No mesmo ano, fundou a União Feminista Egípcia, que passou a defender, entre outras pautas, o acesso das mulheres à educação e sua participação na vida pública.
Os investidores egípcios tendem a preferir apostar em empreendedores homens, e enxergam negócios voltados à autonomia feminina como pouco atrativos comercialmente
O país do Nilo é, portanto, também uma terra de mulheres que romperam silêncios muito antes de o mundo estar pronto para ouvi-las. E talvez seja justamente por isso que, em 2019, quando duas irmãs decidiram ensinar mulheres a pilotar scooters pelas ruas do Cairo, elas estivessem fazendo algo muito maior do que simplesmente ensinar a dirigir.
O que começou como um site simples e algumas publicações em redes sociais rapidamente encontrou uma demanda represada: dezenas, depois centenas, depois milhares de mulheres queriam aprender a pilotar, mas não encontravam instrutoras. As poucas condutoras que já existiam no Egito se tornaram as primeiras apoiadoras e instrutoras da Dosy, e, à medida que formavam novas alunas, cada uma delas passava a formar outras três, criando um efeito cascata.
Até o fim de 2024, a Dosy já havia treinado mais de 8 mil mulheres. “Não era só sobre o treinamento e a possibilidade de dirigir com autonomia para qualquer destino da cidade. Também era sobre empoderar mulheres economicamente, dando a elas oportunidades reais de renda”, resume Nouran, hoje com 32 anos.
O impacto, no entanto, não parou no ensino de pilotagem. Nouran e Menna transformaram a plataforma em um ecossistema de autonomia: as instrutoras ficam com 70% do valor de cada pacote de treinamento, e muitas delas passaram a abrir os próprios negócios ou a atuar como motoristas autônomas. Um número expressivo também passou a integrar equipes de aplicativos de entrega no Egito, setor até então quase inteiramente masculino, que, graças em parte à Dosy, começou a abrir espaço para mulheres entregadoras.


Direito de ir e vir sobre duas rodas
Como em tantas histórias de empreendedorismo social liderado por mulheres, o caminho não foi livre de barreiras. Ao buscar investimento, Nouran sentiu na pele uma desigualdade recorrente. “Diferentemente das organizações internacionais, mais abertas a apoiar o projeto, os investidores egípcios tendem a preferir apostar em empreendedores homens, e enxergam negócios voltados à autonomia feminina como pouco atrativos comercialmente.”
Mesmo assim, a Dosy segue crescendo, e o horizonte de Nouran vai muito além das ruas do Cairo. Ela enxerga na experiência da empresa um modelo replicável em países da África, do Sul e Sudeste Asiático, do Oriente Médio, onde scooters e motocicletas também são meios de transporte popular e onde mulheres enfrentam desafios de mobilidade e segurança semelhantes aos do Egito. Nas redes sociais, ela já encontrou vídeos de mulheres pilotando em lugares tão distantes quanto Equador, Costa Rica e Irã, sinal, para ela, de que o problema, e a solução, são muito mais universais do que parecem.
E talvez seja justamente aí que a história de Nouran encontre uma história muito mais antiga. Em um texto que ela mesma me recomendou, a pesquisadora Reham ElMorally, autora de Recovering Women’s Voices: Islam, Citizenship, and Patriarchy in Egypt (2024), mostra como as mulheres egípcias vêm construindo, há mais de um século, diferentes formas de ocupar espaços que lhes foram negados. Os primeiros movimentos organizados pela emancipação feminina ganharam força em meados do século XIX e, depois da Revolução de 1919, quando mulheres foram às ruas contra a ocupação britânica ao lado dos homens, passaram a reivindicar também um lugar próprio na vida pública.
Ao ouvir Nouran falar sobre pilotar uma scooter pelas ruas do Cairo, é difícil não lembrar de Doria Shafik, poeta e ativista egípcia que, em 1951, liderou centenas de mulheres em uma invasão ao parlamento do país para exigir o direito ao voto. Shafik dizia que a liberdade das mulheres começava por ocupar espaços físicos e simbólicos que lhes eram negados: as ruas, as instituições, os lugares de decisão.
Quase um século depois, Nouran e as milhares de mulheres formadas pela Dosy parecem repetir esse gesto em uma chave contemporânea: ocupar o asfalto do Cairo, como quem reivindica, sobre duas rodas, o direito de ir e vir com autonomia. “Eu quero ver a Dosy impactando milhões de vidas de mulheres, não só no Egito, mas por toda a África e pelo mundo. Quero que as mulheres se sintam mais fortes, mais apoiadas pela comunidade que construímos ao longo desses anos”, diz Nouran, cofundadora da Dosy.
Há histórias que começam em um engarrafamento e ainda assim se transformam em algo capaz de mudar milhares de trajetórias. A de Nouran é uma delas. E ela nos lembra que, muitas vezes, a maior revolução começa exatamente onde a vida cotidiana aperta mais: no urgente e nada trivial direito de se locomover livre e seguramente pelo próprio bairro, pela própria cidade, pelo próprio destino.
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