Sociobiodiversidade sustenta modos de vida no Arquipélago do Marajó

Foto colorida que mostra silhueta de pescador na ilha de Jubim. Na imagem, a pessoa está segurando uma rede de pesca
Foto colorida que mostra silhueta de pescador na ilha de Jubim. Na imagem, a pessoa está segurando uma rede de pesca
Pescador da ilha de Jubim; comunidade vive em relação de interdependência com o rio, a terra e o mar (Foto: Lara Sartorio/Acervo dos pesquisadores)

Pesquisa em coautoria com moradores da vila de Jubim evidencia cotidiano em que natureza, trabalho e cultura se entrelaçam

Por Micael Olegário | ODS 11

Publicado em 10/09/2026 - 09h00

Tempo de leitura: 10 min

“Viver aqui é entender, no dia a dia, que a natureza não é algo separado da gente: nós somos parte dela”. A frase de Jezimara da Silva Vinhas resume a relação de interdependência entre os moradores da vila de Jubim com os rios, a terra, o mar e a biodiversidade. A comunidade está localizada no município de Salvaterra, no Arquipélago do Marajó (PA)

Graduanda em Ciências Biológicas na Universidade Federal do Pará (UFPA), Jezimara é uma das coautoras do estudo “Mapeamento participativo e as contribuições da natureza para as pessoas: reflexões a partir do Delta do Amazonas” (na tradução do inglês), publicado nesta quinta-feira (10/09) na revista People and Nature.

A pesquisa é fruto de um mapeamento colaborativo entre cientistas e moradores da vila pesqueira de Jubim. O objetivo foi compreender a relação da comunidade com a natureza em um contexto de expansão regional de grandes empreendimentos, como portos, ferrovias e prospecção de petróleo na região amazônica.

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O Marajó é o maior arquipélago flúvio-marítimo do mundo e fica em uma região extremamente sensível: a foz do Rio Amazonas. O local é marcado pela confluência entre a água doce dos rios e a água salgada do Oceano Atlântico. Segundo os dados do Censo 2022 do IBGE, o arquipélago possui 557.220 habitantes, espalhados por cerca de 3 mil ilhas e ilhotas.

O mapeamento, liderado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra que a vida comunitária na vila de Jubim se estrutura a partir de atividades que entrelaçam a subsistência, a cultura, o trabalho e a espiritualidade dos moradores.

“Nossa comunidade não é só um espaço onde as pessoas moram; é um ecossistema vivo. Jubim vive da natureza: da pesca, da catação de mariscos, do extrativismo, das frutas, da agricultura, da produção de farinha, do artesanato. Existe uma ligação muito profunda entre a natureza e a gente, um verdadeiro ‘maretório’, onde a vida em terra e a vida nas águas se misturam o tempo todo”, descreve Jezimara.

Foto colorida que mostra colagens de fotografias e frases em um mapa do Arquipelago do Marajó, na Amazônia
Cartografia afetiva produzida durante mapeamento participativo em Jubim; ciência participativa reconhece saberes de comunidades tradicionais (Foto: Acervo dos pesquisadores)

Ciência participativa

Realizada entre 2022 e 2025, a pesquisa seguiu um modelo participativo, o que significa a participação ativa da comunidade. A primeira etapa contou com dois workshops com moradores de diferentes idades e papeis sociais. Inicialmente, os participantes identificaram áreas prioritárias de interação entre as comunidades e a natureza — como zonas de caça, pesca, agricultura e pontos de conflitos socioambientais. 

No segundo encontro 32 integrantes da comunidade identificaram valores culturais e simbólicos com o uso de recursos como fotografias e com o redesenho dos mapas convencionais para representar lugares significativos. 

As informações foram complementadas com sete entrevistas, feitas com moradores identificados como especialistas no conhecimento sobre fauna e flora locais, além de quatro excursões da equipe de pesquisadores ao território para documentar as interações relatadas.

Quando uma praia, um igarapé ou uma área de pesca é compreendida apenas como uma parcela isolada de terra ou como um espaço disponível para apropriação privada ou para um grande empreendimento, uma parte importante das relações sociais e ecológicas que sustentam a vida comunitária desaparece da análise

Lara Sartorio
Pesquisadora da Unifesp e autora líder do estudo

Os moradores identificaram 73 espécies, sendo 51 de plantas e 22 de animais, associadas a práticas como alimentação, medicina, construção e carpintaria, artesanato, produção de biojoias, itens para pesca e cosméticos

Lara Sartorio, pesquisadora da Unifesp e autora líder do estudo, explica que o levantamento revela a amplitude da sociobiodiversidade conhecida pelos moradores. “As 73 espécies são expressivas na medida em que registram a forma com que a comunidade existe em relação com a natureza”, aponta. O trabalho também resultou no georreferenciamento de 65 locais de pesca, coleta, circulação e usos culturais e simbólicos.

Após o levantamento de dados, os pesquisadores realizaram encontro de validação com a comunidade. “Os mapas funcionaram como objetos de conversa, memória e correção. Os moradores identificaram lugares, acrescentaram informações, corrigiram localizações e recuperaram histórias e usos associados a diferentes pontos do território”, destaca Sartorio.

Maretório

A pesquisa compreende a vila de Jubim como um maretório, conceito baseado na união dos termos “mar” e “território”. Esse termo faz referência ainda às relações sociais, culturais e econômicas que caracterizam a presença humana em ambientes costeiros e marinhos, onde a vida segue o ritmo das águas e das marés.

Dito de outro modo, a localidade de pouco mais de dois mil habitantes tem sua organização social influenciada diretamente pelo encontro entre rio, mar, igarapés, florestas, manguezais e comunidades humanas. 

Para Lara Sartorio, o conceito de maretório vai além de uma categoria acadêmica e pode funcionar como uma ferramenta de reconhecimento e reivindicação territorial, especialmente, diante das pressões que a comunidade enfrenta. 

“Quando uma praia, um igarapé ou uma área de pesca é compreendida apenas como uma parcela isolada de terra ou como um espaço disponível para apropriação privada ou para um grande empreendimento, uma parte importante das relações sociais e ecológicas que sustentam a vida comunitária desaparece da análise”, analisa a pesquisadora da Unifesp.

Foto colorida de criança segurando um peixe na altura da boca de modo que a parte de baixo do rosto fica encoberta. Ao fundo, rio e floresta
Menino da vila de Jubim: ligação da comunidade com fauna e flora caracteriza o cotidiano no Marajó (Foto: Acervo dos pesquisadores)

Peixes esquecidos da Amazônia

Outro estudo, divulgado na terça-feira (08/09) pela The Nature Conservancy (TNC), mostra como a imensa biodiversidade de peixes da Amazônia contribui para os modos de vida de milhões de pessoas. Ao longo de toda a bacia hidrográfica, foram registradas 2.700 espécies, sendo dois terços delas endêmicas da região.

A quarta edição do relatório Peixes Esquecidos da Amazônia destaca alguns exemplos dessa biodiversidade única, como o gigante pirarucu, peixe que pode atingir até 3 metros de comprimento e pesar 200 kg. Outro exemplo é a dourada, conhecida por percorrer mais de 11.000 km em uma odisseia migratória entre o sopé dos Andes e o Oceano Atlântico. 

“Esses peixes alimentam milhões de pessoas e fornecem quase três quartos da proteína animal para muitas comunidades, além de moldarem identidades… Quando falamos de peixes estamos falando de cultura, florestas, economia e vida”, destaca Fernanda Silva, cientista da TNC e autora principal do estudo.

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O relatório também faz alertas, relacionados ao desconhecimento de muitas espécies e às mudanças climáticas. A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) reúne 144 espécies ameaçadas na região amazônica, outras 334 aparecem com dados insuficientes.

Projeções climáticas citadas no estudo indicam que a descarga anual dos rios pode diminuir mais de 40% em trechos como as cabeceiras do Rio Madeira. Além disso, secas prolongadas podem prejudicar a reprodução e a migração dos peixes, reduzir o oxigênio disponível na água e aumentar a presença de contaminantes.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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