Agosto de 2026: calor recorde impulsiona desastres climáticos e inflação de alimentos

Trabalho de resgate e limpeza após tragédia com mais de mil mortes no Nepal: agosto de desastres climáticos e inflação de alimentos (Foto: Laxmi Prasad Ngakhusi / Unicef)

Além da tragédia no Nepal, outras catástrofes climáticas provocaram prejuízos e fatalidades ao redor do planeta, com o acelerado aquecimento global

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 13ODS 2

Publicado em 07/09/2026 - 08h36

Tempo de leitura: 16 min

Os últimos três anos bateram todos os recordes de calor do Holoceno. Segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, a temperatura global superou a média pré-industrial (1850-1900) em 1,48°C em 2023, 1,60°C em 2024 e 1,47°C em 2025, resultando em uma média trienal de 1,52°C. O valor ultrapassa o teto de 1,5 °C estabelecido pelo Acordo de Paris como limite desejável para conter o aquecimento global.

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O triênio 2023-2025 foi atipicamente quente devido a dois fatores centrais. O primeiro é o acúmulo contínuo de gases de efeito estufa na atmosfera, impulsionado pelas emissões constantes e pela perda de capacidade de absorção dos sumidouros naturais de carbono. O segundo foi a elevação atípica das temperaturas da superfície do mar em todos os oceanos, impulsionada por um evento do fenômeno El Niño e reforçada pela variabilidade oceânica — ambos intensificados pela crise climática. Alterações na concentração de aerossóis, na cobertura de nuvens baixas e variações na circulação atmosférica também contribuíram para o cenário.

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Nos primeiros oito meses de 2026, a anomalia média permaneceu em 1,48°C. Contudo, sob o impacto do El Niño, agosto de 2026 registrou a maior temperatura para o período em toda a história das medições, atingindo 1,64°C acima do nível pré-industrial. Trata-se, com grande probabilidade, do mês de agosto mais quente dos últimos 120 mil anos.

As projeções climáticas indicam que a anomalia global de 2026 fechará acima do patamar de 1,5°C, superando as marcas de 2023 e 2025. A principal incerteza é se o ano de 2026 ultrapassará o recorde histórico estabelecido em 2024. Assim, desafortunadamente, o quadriênio (2023-26) marcará recordes históricos, como ilustra o gráfico abaixo do professor Eliot Jacobson, com dados do Instituto Copernicus.

Agosto 2026: mês mais quente para o período (Fonte: Prof. Eliot Jacobson)
Agosto 2026: mês mais quente para o período (Fonte: Prof. Eliot Jacobson)

Aquecimento global e desastres climáticos

O aumento da temperatura global provoca o derretimento acelerado das calotas polares, da Groenlândia e dos glaciares no topo de montanhas e cordilheiras. Como consequência direta, a elevação do nível do mar inunda áreas costeiras e intensifica a erosão litorânea. Paralelamente, o aquecimento dos oceanos acelera a taxa de evaporação, alimentando tempestades, furacões e ciclones mais severos. Por outro lado, esse mesmo desequilíbrio climático intensifica secas extremas em diversas regiões do planeta.

O recuo das geleiras no Himalaia — região conhecida como o “Teto do Mundo” — já é amplamente documentado e ameaça diretamente os recursos hídricos de cerca de 3 bilhões de pessoas que dependem dos rios locais. Contudo, a gravidade da situação ganhou contornos dramáticos com o desprendimento de um imenso bloco de gelo na fronteira entre a China e o Nepal, no dia 26 de agosto.

O colapso desencadeou uma devastadora avalanche de gelo, lama e resíduos, criando uma enxurrada de lama com impacto comparável ao de um tsunami. O desastre destruiu comunidades nepalesas, deixou mais de mil mortos e milhares de desaparecidos, conforme relatou Oscar Valporto no artigo “Tragédia climática no Nepal: o perigo das geleiras no Himalaia aquecido”, publicado no #Colabora.

Embora o colapso no Himalaia tenha sido o evento mais devastador de 2026, outros desastres climáticos provocaram prejuízos e fatalidades ao redor do globo:

  • Europa: Uma onda de calor prolongada alimentou um dos piores cenários de incêndios florestais dos últimos anos. Espanha e França concentram a maior parte da área queimada no bloco — na França, 2026 já superou as piores marcas em mais de uma década. Apenas na transição para agosto, centenas de milhares de pessoas precisaram ser evacuadas de regiões rurais e periurbanas. Itália, Portugal e Grécia também enfrentaram focos intensos que sobrecarregaram as equipes de emergência e causaram fortes impactos ambientais e econômicos.
  • América do Norte: No estado de Washington (EUA), um conjunto de incêndios florestais fora de controle forçou a evacuação de dezenas de milhares de moradores e destruiu centenas de estruturas na região de Spokane. Estados como Idaho, Oregon e Utah enfrentaram mega incêndios impulsionados por ventos fortes, umidade extremamente baixa e tempestades secas com raios, devastando pastagens e a agricultura local. Além disso, no último fim de semana de agosto, fortes chuvas causaram uma enxurrada na região do Grande Canyon, deixando dois mortos e cerca de 15 desaparecidos.
  • Havaí: Cerca de 200 mil pessoas ficaram sem energia elétrica após a passagem do furacão Lala no meio de agosto — o primeiro a tocar o solo havaiano em 34 anos. A tempestade deixou um morto antes de enfraquecer para a categoria de tempestade tropical, com ventos sustentados de 105 km/h e precipitação volumosa.
  • Leste da Ásia: O tufão Dolphin atingiu o leste da China, especialmente a província de Zhejiang, com ventos superiores a 160 km/h, forçando a evacuação de mais de 1 milhão de pessoas. As faixas de chuva torrencial avançaram para o interior, colocando Pequim, Hebei e Henan em alerta máximo para inundações e deslizamentos de terra. No Japão, tempestades “sem precedentes” atingiram a província de Chiba e a região de Tóquio. Em apenas uma noite, choveu o volume previsto para todo o mês de agosto (mais de 115 mm/h em certas áreas), levando as autoridades a emitirem alerta máximo de emergência e determinarem a evacuação de mais de 400 mil pessoas.
  • Índia: A temporada de monções de 2026 foi atipicamente violenta. Tempestades extremas geraram enxurradas e deslizamentos de terra em regiões montanhosas como o estado de Uttarakhand, destruindo infraestruturas, isolando vilarejos e causando mortes em áreas de obras e vales.
  • Brasil e América do Sul: No Sul do Brasil, a combinação de ar quente e úmido com uma frente fria e um intenso ciclone extratropical gerou supercélulas de tempestade. Em Pedro Osório (RS), formou-se um impressionante tornado com vendavais acima de 100 km/h. No Paraná, a região de Piraí do Sul foi atingida por outro tornado confirmado pelo Simepar, com ventos estimados em mais de 250 km/h que arrancaram árvores e destelharam dezenas de residências rurais. Simultaneamente, as regiões Norte e Centro-Oeste enfrentam o pico da estação seca acompanhado de severa estiagem. O nível de grandes rios navegáveis da Amazônia caiu abaixo da média histórica para agosto, ameaçando o transporte hidroviário, isolando comunidades ribeirinhas e aumentando drasticamente os focos de incêndio na Amazônia e no Cerrado.
Seca extrema na Mongólia afeta pastagens: ONU alertou que calor extremo e seca na Europa, ameaça de um El Niño severo e guerras desestabilizaram mercados agrícolas e aceleraram inflação de alimentos (Foto: K. Purevraqchaa / FAO)
Seca extrema na Mongólia afeta pastagens: ONU alertou que calor extremo e seca na Europa, ameaça de um El Niño severo e guerras desestabilizaram mercados agrícolas e aceleraram inflação de alimentos (Foto: K. Purevraqchaa / FAO)

Super El Niño e a insegurança alimentar

O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (ONU) estima uma probabilidade de 81% de o atual El Niño atingir intensidade muito elevada ainda em 2026. A previsão indica impactos severos como secas, chuvas irregulares e monções, o que deve agravar a crise humanitária em 45 países vulneráveis. Um evento de El Niño muito forte pode levar mais de 49 milhões de pessoas à fome aguda.

O aumento dos preços globais dos alimentos e a escassez regional já vêm deteriorando o acesso à alimentação de famílias vulneráveis. Paralelamente, os cortes no financiamento promovidos por doadores dos Estados Unidos e da Europa em 2025 dificultam tanto o monitoramento da crise quanto a manutenção do segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS): “Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável” (Alves, 02/06/2025).

Em 4 de setembro, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgou o seu Índice de Preços dos Alimentos (FFPI) referente a agosto de 2026. Os dados mostram que os valores registrados no mês foram os maiores do quadriênio 2023-2026. O calor extremo e a seca na Europa, somados à ameaça de um El Niño severo e às turbulências comerciais causadas pelas guerras na Ucrânia e no Irã, desestabilizaram os mercados agrícolas. Com isso, os preços dos grãos atingiram a maior cotação desde o pico de 2022, conforme ilustrado no gráfico abaixo.

O FFPI alcançou uma média de 133,3 pontos em agosto de 2026 — uma alta de 2,5 pontos em relação ao nível revisado de julho. Todos os grupos de produtos apresentaram elevação nos preços na comparação mensal, ainda que com magnitudes variadas. Em relação ao mesmo período do ano anterior, o índice geral subiu 3,3 pontos. A variação por categoria destacou-se da seguinte forma:

  • Cereais: O índice subiu para 116,3 pontos (+2,5 pontos em relação a julho), atingindo o maior patamar desde maio de 2024. A alta estendeu-se a todos os principais grãos, impulsionada pela forte demanda, pelas preocupações climáticas em grandes regiões produtoras e pelas incertezas persistentes nos fluxos de exportação pelo Mar Negro.
  • Óleos Vegetais: O índice atingiu 196,9 pontos (+1,1 ponto ante julho), registrando a terceira alta mensal consecutiva e o valor mais elevado desde junho de 2022.
  • Carnes: A média fixou-se em 127,9 pontos (+1,2 ponto em relação ao valor revisado de julho).
  • Lácteos: O índice fechou em 119,2 pontos, representando um avanço de 2,7 pontos na comparação com o mês anterior
Índice de preços dos alimentos (Fonte / FAO)
Índice de preços dos alimentos (Fonte / FAO)

Além do impacto direto dos eventos climáticos extremos, a produção global de alimentos enfrenta uma pressão sem precedentes sobre seus recursos fundamentais. A disponibilidade de terras aráveis esbarra na degradação do solo, no avanço da desertificação e na competição acirrada com a urbanização e a conservação ambiental. Simultaneamente, a escassez hídrica — vital para a irrigação — agrava-se à medida que o consumo humano e industrial disputa cada recurso disponível.

Para somar a esse gargalo, a agricultura moderna continua amplamente dependente de energia, defensivos e fertilizantes, cujos custos de produção e transporte sobem no mesmo ritmo do aumento da demanda. O resultado desse estrangulamento de insumos é inevitável: menor oferta no campo e preços em disparada para o consumidor final.

O aquecimento global deixou de ser uma abstração científica para se tornar uma crise palpável, com custo direto na vida cotidiana. Quando o colapso dos ecossistemas impacta a alimentação da população, fica evidente que a inércia climática cobra um preço alto em vidas, estabilidade social e segurança alimentar. Enfrentar essa ameaça existencial não é mais uma escolha entre preservar o planeta ou a economia, mas sim a única garantia de sobrevivência de ambos.

Crise Climática e Policrise

O climatologista James Hansen estima que a Terra ultrapassará os +2ºC em relação aos níveis pré-industriais antes de 2040 (Hansen et al., 2026). O autor alerta que o “Super-Duper El Niño de 2026” — o mais forte já registrado — é apenas o sintoma de um problema estrutural: o aumento do Desequilíbrio de Energia da Terra (EEI). O planeta absorve mais radiação solar do que reflete devido à redução do albedo e à queda nas emissões de aerossóis industriais, que antes mascaravam parte do aquecimento. Com uma atmosfera alterada, a variabilidade natural deixa de gerar anomalias temporárias para ditar um novo padrão climático extremo.

Complementando essa visão, Levermann (2026), na Nature, argumenta que o maior risco econômico não é apenas o ponto de inflexão final, mas a transição em “queda livre climática” (climate free fall). Antes de o clima estabilizar em um novo estado, o sistema passa por uma fase de oscilações cada vez mais erráticas. Essa perda de previsibilidade impacta diretamente:

  • Agricultura: Volatilidade severa nas safras e quebras frequentes.
  • Infraestrutura e Seguros: Inadequação de projetos históricos e inviabilidade de precificação de riscos.
  • Finanças e Cadeias Globais: Quebras de liquidez e paralisações simultâneas de oferta.
  • Sociedade: Aumento de deslocamentos forçados e tensões sociais.

Essa instabilidade atua como o principal motor da policrise, cenário em que choques ecológicos, econômicos e sociais se interconectam e se amplificam. A relação com o sistema alimentar é o exemplo mais direto dessa dinâmica:

  1. Impacto direto: Eventos extremos degradam solos e reduzem safras, enquanto o próprio modelo agroalimentar gera cerca de 1/3 das emissões globais, retroalimentando o aquecimento.
  2. Efeito dominó: A escassez de alimentos dispara a inflação (agflation), estimula o protecionismo comercial, agrava crises energéticas e impulsiona migrações e conflitos por recursos.

Em uma policrise, os problemas não podem ser isolados: expandir áreas agrícolas piora o clima, enquanto usar terras para biocombustíveis encarece a comida. A crise climática atua como o estressor ambiental primário, e a crise alimentar como o gatilho sociopolítico que converte a degradação ecológica em colapso econômico.

Desta forma, como alertam os estudos recentes de James Hansen et al. (2026) e Anders Levermann (2026), o atual “Super El Niño” é apenas a ponta do iceberg de um Desequilíbrio de Energia da Terra (EEI) sem precedentes. Ao entrar em uma fase de “queda livre climática”, a civilização deixa de enfrentar anomalias sazonais passageiras para vivenciar uma volatilidade estrutural, na qual choques na agricultura, falhas de infraestrutura e pressões financeiras se interconectam e se amplificam. A alta no preço dos alimentos deixa de ser um mero sobressalto inflacionário para se consolidar como o estopim sociopolítico de uma policrise global, convertendo a degradação ambiental em instabilidade econômica e agitação social.

Atingir o segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) — erradicar a fome e assegurar a nutrição global — torna-se uma meta inalcançável enquanto a resposta institucional for a inércia política e os cortes de financiamento internacional. O quadriênio 2023-2026 marca um divisor de águas histórico: não há mais espaço para soluções paliativas nem para a ilusão de que a tecnologia por si só contornará os limites físicos do planeta. Sem uma transição energética e agrícola radical e imediata e sem o abandono do uso generalizado dos combustíveis fósseis, a espiral de calor recorde e escassez alimentar continuará a minar as bases da segurança global, cobrando um preço cada vez mais proibitivo para a sobrevivência humana.

Referências:

VALPORTO, Oscar. Tragédia climática no Nepal: o perigo das geleiras no Himalaia aquecido, # Colabora, 27/08/2026 https://projetocolabora.com.br/ods13/tragedia-climatica-no-nepal-o-perigo-das-geleiras-no-himalaia-aquecido/

ALVES, JED. Alta do preço dos alimentos e da fome em um mundo em crise, # Colabora, 02/06/2025

https://projetocolabora.com.br/ods2/alta-do-preco-dos-alimentos-e-da-fome-em-um-mundo-em-crise/

HANSEN, James et al. Super-Duper El Nino and the Bigger Problem, 21 August 2026

https://www.columbia.edu/~jeh1/mailings/2026/The.Bigger.Problem.2026.08.21.pdf

LEVERMANN, Anders. Climate free fall: why the biggest risk to our economies is yet to be recognized, Nature 655, 571-573 (2026) https://www.nature.com/articles/d41586-026-02154-8

 

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José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.

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