Vozes das Periferias: após violência policial, mães transformam luto em mobilização política

Maria Aparecida Santos, do movimento Vozes das Periferias: mães transformam luto em mobilização política contra a violência policial (Foto: Samara Meneses)
Maria Aparecida Santos, do movimento Vozes das Periferias: mães transformam luto em mobilização política contra a violência policial (Foto: Samara Meneses)
Maria Aparecida Santos, do movimento Vozes das Periferias: mães transformam luto em mobilização política contra a violência policial (Foto: Samara Meneses)

Movimento liderado por mulheres pressiona por mudanças no interior paulista, depois do ano mais letal em ações policiais em Bauru

Por Samara Meneses | Inclusão e Diversidade, ODS 16

Publicado em 16/10/2026 - 09h47 (Atualizado há 6 minutos)

Tempo de leitura: 21 min

Em outubro de 2024, uma operação do 13º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP), em Bauru, interior de São Paulo, resultou na morte de dois jovens — Luís Silvestre da Silva Neto, de 21 anos, e Guilherme Alves Marques de Oliveira, de 18. No dia seguinte, policiais invadiram o velório de Guilherme e agrediram familiares, incluindo sua mãe, Nilceia Alves Rodrigues.

Os episódios desencadearam questionamentos sobre a atuação da Polícia Militar na cidade e deram origem ao movimento Vozes das Periferias. Desde então, o grupo atua por justiça e acolhimento de famílias vítimas da violência policial em toda a região de Bauru, principal município do Centro-Oeste do estado de São Paulo. As integrantes passaram a organizar atos públicos, acompanhar outras famílias, denunciar perseguições e ameaças e levar relatos à Corregedoria da Polícia Militar.

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Maria Aparecida dos Santos, mãe de Luís, também morto durante a operação, é uma das organizadoras e representantes do movimento. Ela conta que, após o primeiro ato organizado por Nilceia, outras mães que também haviam perdido filhos em ações policiais se aproximaram, trocaram contatos e criaram um grupo. Foi ali que decidiram o nome Vozes das Periferias e passaram a organizar a atuação do movimento, definindo como iriam se mobilizar pelas redes sociais, realizar encontros e atos públicos e cobrar respostas das autoridades.

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Hoje, a iniciativa é uma referência para moradores da região que buscam orientação ou desejam denunciar casos de violência policial. Com mais de mil seguidores no Instagram e oito mil no Facebook, o movimento recebe relatos de pessoas que procuram apoio diante de situações de violência. “As pessoas ficam com medo e chamam o Vozes”, afirma Maria Aparecida.

Nilceia Alves Rodrigues em ato contra a letalidade policial: invasão e agressão por PMs no velório do filho (Foto: Samara Meneses)
Nilceia Alves Rodrigues em ato contra a letalidade policial: invasão e agressão por PMs no velório do filho (Foto: Samara Meneses)

A mãe que decidiu não se calar

Aos 48 anos, Maria Aparecida nunca imaginou que se tornaria representante e articuladora de um movimento unido pelo luto e pela busca por justiça. Nascida em Bauru, trabalha desde os 12 anos como diarista. Mergulhou nos debates sobre segurança pública em meio ao luto e revolta pelo assassinato do filho. “Isso nasceu depois do que aconteceu com o meu filho. Porque eu nunca parei para pensar em política. Depois que aconteceu, tudo mudou, a cabeça mudou”.

As mortes de Luís e Guilherme ainda estão em fase de inquérito, esperando laudos da perícia sobre imagens levantadas na investigação. As famílias dos dois jovens acusam os PMs de execução. A versão apresentada pelos policiais – o registro foi de “morte por intervenção policial”, com as vítimas acusadas de tráfico e de terem atirado contra os agentes – é contestada pela defesa, que aponta, entre outros elementos, a quantidade de disparos efetuados pelos PMs (foram 27 tiros só de fuzis), escoriações encontradas no rosto de Luís e Guilherme e a ausência de resíduos de pólvora nas mãos dos jovens.

No caso da invasão do velório de Guilherme e agressão de policiais a seus parentes, os dois cabos da Polícia Militar que agrediram Nilceia Alves, mãe do rapaz, foram denunciados em maio deste ano pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP): a promotoria aponta ofensa à integridade física e lesões corporais leves contra civis. Em nota, a PM de São Paulo informou que os policiais militares envolvidos na ocorrência seguem respondendo a procedimentos disciplinares no âmbito administrativo e que acompanha o processo na esfera judicial para “adoção das medidas cabíveis”.

Hoje, Maria e Nilceia fazem parte de um grupo formado por nove mulheres e um pai que perderam seus filhos em ações policiais. Neste ano, Maria, principal porta-voz do grupo, participou do 9º Encontro Nacional de Mães e Familiares de Vítimas de Terrorismo do Estado, realizado de 14 a 17 de maio, em Curitiba (PR), onde representou o Vozes das Periferias.

Antes eu trabalhava de domingo a domingo, todos os dias fazendo faxina. Cuidava da minha casa. Era uma pessoa feliz; minha casa todo final de semana vivia cheia de gente. Hoje, muitas vezes não consigo sair do quarto, nem pensar em pôr o pé na rua.

Maria Aparecida dos Santos
Diarista e articuladora do Vozes da Periferia

“Em Curitiba, estive com outras mães, aprendi muito com elas — que essa violência não está apenas no estado de São Paulo ou no Rio de Janeiro. Está no Paraná, Santa Catarina, Ceará, Bahia, Pernambuco, Pará. No Brasil todo.”

Maria afirma que o movimento tem ganhado repercussão nacional e fortalecido a articulação com outros grupos de familiares. “Teve uma mãe que falou: ‘Nossa, eu vi um vídeo do Vozes das Periferias lá no Rio.’ É bacana, isso é muito renovador. E a gente vai aprendendo. Eu voltei com mais experiência e projetos.”

Segundo ela, essa troca também fortalece a atuação política do movimento em Bauru. “Aprendo muito com elas. É uma luta política, como elas mesmas falam. Muita gente pensa que não é, mas é. Porque, quando a polícia mata, isso não é ‘só violência’ — é política”, afirma Maria, acrescentando que todo o conhecimento adquirido nesses encontros é compartilhado com as integrantes do Vozes das Periferias.

Maria Aparecida, com as fotos do filho: luto e impacto na saúde mental (Foto: Samara Meneses)
Maria Aparecida, com as fotos do filho: luto e impacto na saúde mental (Foto: Samara Meneses)

Além do luto

Luís tinha 21 anos e trabalhava como pedreiro, profissão que aprendeu com o avô. Era o filho caçula de Maria Aparecida e, quando morreu, deixou um bebê de apenas 10 meses. “Ele amava demais o filho dele, amava mesmo. Tem um monte de foto dele com o filho. Esse era ele: tudo era motivo de riso. Ele vivia rindo, era alegre. Ele era muito especial para mim”, conta.

A morte do filho mudou completamente a vida de Maria Aparecida. O impacto atingiu o trabalho, a convivência com a família e sua saúde mental. “Antes eu trabalhava de domingo a domingo, todos os dias fazendo faxina. Cuidava da minha casa. Era uma pessoa feliz; minha casa todo final de semana vivia cheia de gente. Hoje é raro eu ir trabalhar. Muitas vezes não consigo sair do quarto, nem pensar em pôr o pé na rua. É complicado. Hoje eu não tenho mais vida”.

Foi com o Vozes das Periferias que Maria Aparecida encontrou um espaço de acolhimento e força para seguir em frente. “Às vezes eu encontro força quando estou com elas. Eu tenho força, me anima quando resolvemos fazer alguma coisa, tipo: ‘Vamos organizar uma passeata, vamos organizar um ato’. Eu que organizo tudo. Aí, eu ocupo a mente, e assim eu consigo trabalhar normal”.

Rachel Gouveia Passos, coordenadora do Projeto de Pesquisa e Extensão Luta Antimanicomial e Feminismos da UFRJ e autora do livro “Na mira do fuzil: A saúde mental das mulheres negras em questão”, explica a importância desses movimentos de luta. “A construção dos coletivos é uma produção de cuidado. As mulheres vão produzindo um processo de mobilização também para o cuidado, o que não é novo na realidade brasileira. Elas são atrizes políticas. E não são só mulheres, tem pais, tem irmãos também — mas as mães são a grande maioria.”

No caso do Vozes das Periferias, o acolhimento não se limita ao compartilhamento da dor. O grupo também se torna um espaço de mobilização política, onde mães e familiares transformam experiências individuais de perda em reivindicações por justiça, memória e reparação.

Essa articulação também surge, segundo Gouveia, em um cenário no qual o Estado não oferece respostas suficientes às famílias afetadas pela violência. Para a pesquisadora, o Estado não está ausente, mas se apresenta de uma forma negativa: seja pelo modo de atuação policial nos territórios periféricos, seja pela precariedade das políticas de cuidado.

Eu me sinto orgulhosa de poder ajudar, de poder abraçar essas mães e falar: ‘Você não está sozinha, eu estou aqui’. Formamos uma rede de apoio, uma pela outra

Maria Aparecida dos Santos
Diarista e articuladora do Vozes da Periferia

Maria Aparecida relata que não recebeu atendimento psicológico ou outro tipo de suporte do Estado após a morte do filho, assim como outras mães do movimento. “Que vida nós vamos ter depois de tudo que fizeram com a gente?”, questiona a mãe de Luís. A rede municipal de saúde não oferece um olhar específico para o luto causado pela letalidade policial. A Prefeitura de Bauru explicou, em nota, que o atendimento a essas famílias segue as orientações gerais para todos os tipos de violência. De acordo com o protocolo municipal, casos classificados como ‘leves’ ou ‘moderados’ de sofrimento psíquico devem ser atendidos nas unidades de saúde ou direcionados a serviços de psicoterapia em instituições de ensino superior privadas e públicas. A entrada no Centro de Atenção Psicossocial — serviço especializado do município — é limitada apenas às situações em que a morte violenta já causou danos significativos, como risco de suicídio.

Gouveia explica que a busca pelo cuidado dessas mulheres não pode ser reduzida apenas ao atendimento psicológico, mas deve envolver uma rede multidisciplinar de cuidado, com diferentes profissionais e políticas públicas, para que essas mulheres consigam construir novas possibilidades de vida, ainda dentro de territórios marcados pela violência.

“A perda de um filho pela violência armada é um momento traumático que vai ter consequências físicas e psíquicas. E, não necessariamente, é preciso apenas uma escuta qualificada. Há também a permanência no próprio território, a dificuldade de sair para trabalhar, a perda de vínculos afetivos, a dificuldade de continuar o cuidado com outros filhos e processos de adoecimento físico. Essas são consequências que vão demandar, por exemplo, o acesso a outros médicos.”

Para a pesquisadora, quando essas mulheres chegam aos serviços de saúde e têm apenas suas queixas imediatas consideradas, sem que o contexto da violência seja compreendido, ocorre uma responsabilização individual pelo sofrimento. “Por consequência, o mesmo Estado que viola não acolhe — e, quando acolhe, patologiza, porque a pessoa ganha um diagnóstico.”

Manifestação do movimento Vozes das Periferias: rede de apoio entre mães de vítimas (Foto: Matheus Faustino)
Manifestação do movimento Vozes das Periferias: rede de apoio entre mães de vítimas (Foto: Matheus Faustino)

Uma pela outra

Maria Aparecida relata sentir orgulho por ter se tornado uma referência de apoio para outras mães do movimento, mesmo diante da falta de uma rede de cuidado adequada para mulheres afetadas pela violência. Ela conta que, em uma reunião, uma das mães afirmou que o acolhimento recebido por Maria havia sido fundamental naquele momento. “Eu me sinto orgulhosa de poder ajudar, de poder abraçar essas mães e falar: ‘Você não está sozinha, eu estou aqui’. Formamos uma rede de apoio, uma pela outra.”

Para Gouveia, esse protagonismo feminino precisa ser compreendido a partir das desigualdades de gênero, raça e classe que atravessam essas experiências. Segundo a pesquisadora, as mulheres que ocupam esses movimentos são majoritariamente negras, pobres e periféricas, marcadas não apenas pela perda de um familiar, mas por um histórico de violência que marca seus territórios.

“Vê-las como liderança tem a ver também com como elas conseguem se mobilizar e agenciar essa mobilização. Isso é um ponto positivo: como as mulheres vão se organizando historicamente nos territórios para produzir resistência através do cuidado — do cuidado de si e do cuidado do coletivo”, afirma.

Por um lado, você tem aqueles que são mortos — e os dados demonstram que quem morre são os homens, em sua maioria jovens. Por outro lado, são as mulheres que vão ser altamente medicalizadas e patologizadas

Rachel Gouveia Passos
Coordenadora do Projeto de Pesquisa e Extensão Luta Antimanicomial e Feminismos da UFRJ

Após quase dois anos de atuação, o Vozes das Periferias ampliou sua articulação e passou a ocupar espaços institucionais de debate sobre violência policial e direitos humanos. Em 26 de maio de 2026, o movimento participou do lançamento da Campanha Estadual Permanente Contra a Tortura, realizado na sede da 21ª Subseção da OAB Bauru.

O evento reuniu representantes de órgãos ligados à defesa dos direitos humanos, como o presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), Adilson Santiago; o ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, Mauro Caseri; integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB Bauru, além de representantes de movimentos sociais e familiares de vítimas da violência policial.

Parentes de vítimas da violência policial em evento na OAB de Bauru: batalhão da PM da região liderava em mortes por "intervenção policial" (Foto: Vozes das Periferias)
Parentes de vítimas da violência policial em evento na OAB de Bauru: batalhão da PM da região liderava em mortes por “intervenção policial” (Foto: Samara Meneses)

Durante o encontro, Caseri apresentou dados da Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo referentes ao Deinter 4, que abrange Bauru e municípios vizinhos. Em 2025, a ouvidoria registrou 28 denúncias de mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP), além de 27 denúncias de abordagens abusivas, oito de agressões e sete de ameaças. No primeiro trimestre de 2026, foram registradas duas mortes decorrentes de intervenção policial, três denúncias de agressão e duas de ameaça. Entre os 13 Departamentos de Polícia Judiciária do Interior (Deinter), o Deinter 4 ocupou a nona posição em número de registros de MDIP em 2025.

Levantamento da reportagem, com base em dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, mostra que 2024 foi o ano com o maior número de mortes decorrentes de intervenção policial em Bauru, desde o início dos registros da Secretaria da Segurança Pública (2013). Naquele ano, foram registradas 14 mortes, contra oito em 2023 e 11 em 2025. Entre 2023 e 2025, ao todo, 33 pessoas morreram em ações policiais no município.

Até julho de 2026, período em que esta reportagem foi produzida, entretanto, nenhuma morte decorrente de intervenção policial havia sido registrada em Bauru e região. De acordo com a Ouvidoria, a implantação de câmeras corporais no 13° BAEP, batalhão envolvido nas mortes de Guilherme e Luís, começou a ser utilizada apenas em janeiro de 2026.

Mortes por intervenção policial na região de Bauru desde 2023: com instalação de câmeras corporais, registros zeraram em 2026 (Gráfico com Claude.i)
Mortes por intervenção policial na região de Bauru desde 2023: com instalação de câmeras corporais, registros zeraram em 2026 (Gráfico com Claude.i)

A luta continua

Para Maria Aparecida, a mobilização das famílias tem contribuído para transformar esse cenário. O perfil das vítimas em Bauru revela uma predominância quase absoluta de homens: 32 das 33 pessoas mortas (96,97%) eram do sexo masculino, com idades entre 17 e 49 anos. Em relação ao recorte racial, 18 vítimas eram pardas, três pretas e 12 brancas, o que significa que 21 das 33 vítimas (63,6%) eram negras, segundo a classificação do IBGE. As ocorrências se concentraram principalmente em vias públicas e residências, com 12 casos em cada tipo de local, além de registros em terrenos baldios, áreas não ocupadas, unidades rurais e um estabelecimento comercial.

O perfil identificado em Bauru acompanha a tendência observada nacionalmente. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, 97% das pessoas mortas em intervenções policiais em 2025 eram homens. O anuário também aponta um agravamento da desigualdade racial: entre 2024 e 2025, a letalidade policial cresceu 3,5% entre pessoas pretas e pardas, enquanto permaneceu estável entre pessoas brancas.

Não podemos parar. Porque, se pararmos, eles podem voltar com truculência. Então temos que mostrar que permanecemos aqui. A luta é para sempre

Maria Aparecida Santos
Diarista e articuladora do Vozes da Periferia

Para a pesquisadora Rachel Gouveia, esses números refletem uma dinâmica estrutural da violência no país. “Ao falar de pessoas que tiveram familiares vitimados pela violência armada, é importante reconhecer quem são essas pessoas: majoritariamente pessoas negras e moradoras de territórios periféricos. São pessoas atravessadas por um processo de racialização e também pelo próprio classismo, com uma implicação das relações de gênero. Por um lado, você tem aqueles que são mortos — e os dados demonstram que quem morre são os homens, em sua maioria jovens. Por outro lado, são as mulheres que vão ser altamente medicalizadas e patologizadas”.

Além da violência, familiares enfrentam a dificuldade de responsabilização dos agentes envolvidos. Segundo dados apresentados pela Ouvidoria, 95% dos casos de mortes decorrentes de intervenção policial são arquivados. Dos 5% que chegam a julgamento, cerca de 95% terminam em absolvição. Esse cenário prolonga a busca por justiça e reforça a sensação de impunidade.

Protesto organizado pelo movimento Vozes das Periferias em Bauru: luta contínua por justiça e contra a impunidade (Foto: Matheus Faustino)
Protesto organizado pelo movimento Vozes das Periferias em Bauru: luta contínua por justiça e contra a impunidade (Foto: Matheus Faustino)

Gouveia explica que a busca por justiça não pode ser dissociada do direito à memória. Segundo a pesquisadora, o sofrimento das famílias não termina com a morte, mas se prolonga ao longo dos anos pela dificuldade de obter respostas do sistema de Justiça. “Por consequência, você tem um atravessamento físico e psíquico, porque suportar a perda e a busca por essa reparação é contínua também por causa do processo burocrático do sistema de justiça. Então a gente está falando de mecanismos institucionais que continuam punindo.”

Ela afirma que esse processo produz um estado permanente de sofrimento para as famílias. “Uma coisa que eu aprendi com elas foi que a bala que matou o filho continua girando e vai assassinando a família inteira, no nível simbólico. Como é que se suporta essa dor? Como é que se permanece nesse território? Como é que se segue adiante, sabendo que vai ter consequências? Isso, para mim, é o estado permanente de guerra.”

A percepção é compartilhada por Maria Aparecida. Para ela, a violência e a ausência de responsabilização transformaram a forma como enxerga a atuação do Estado e até mesmo sua participação política. “Parece que estamos vivendo uma guerra civil. Uma hora eles têm que parar. Eu nunca gostei de política. Hoje eu falo para elas: nós temos que votar e saber em quem estamos votando.”

Mesmo relatando ainda se sentir ameaçada no local onde mora, Maria afirma que incentiva outras mães a continuarem mobilizadas. “Não podemos parar. Porque, se pararmos, eles podem voltar com truculência. Então temos que mostrar que permanecemos aqui. A luta é para sempre”.

*Esta reportagem é resultado do trabalho final de Samara Meneses, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.

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Samara Meneses

Samara Meneses, estudante de Jornalismo na UNESP, faz estágio atualmente na Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo); criada na periferia da Zona Leste de São Paulo, tem interesse por temas relacionados à justiça social e às questões de gênero.

Samara Meneses

Samara Meneses, estudante de Jornalismo na UNESP, faz estágio atualmente na Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo); criada na periferia da Zona Leste de São Paulo, tem interesse por temas relacionados à justiça social e às questões de gênero.

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