Zé Darci pinta a ancestralidade negra do extremo sul

Foto colorida de Zé Darci. Ele é um homem negro, idoso, sem cabelo e usa óculos. Ele está com uma camiseta branca com desenho dos lanceiros negros e a frase: vencidos nunca, traídos sim. Ao lado dele, aparece uma de suas pinturas
Foto colorida de Zé Darci. Ele é um homem negro, idoso, sem cabelo e usa óculos. Ele está com uma camiseta branca com desenho dos lanceiros negros e a frase: vencidos nunca, traídos sim. Ao lado dele, aparece uma de suas pinturas
Zé Darci construiu trajetória como artista ao pintar a cultura negra e as cores do extremo sul gaúcho (Foto: Reprodução / Instagram @zedarciartista)

Artista resgata história da população negra no Rio Grande do Sul e valoriza tradições afro-brasileiras

Por Micael Olegário | ODS 10

Publicado em 20/08/2026 - 09h00 (Atualizado há 9 horas)

Tempo de leitura: 8 min

Há cerca de 353 km de Porto Alegre (RS), em Arroio Grande, José Darci Barros Gonçalves, 65 anos, pinta as cores do extremo sul para resgatar a história e a cultura da população negra no Estado. Mais conhecido como Zé Darci, o artista plástico retrata em seus quadros figuras como os lanceiros negros e orixás das tradições afro-brasileiras. 

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A trajetória de Zé Darci com as telas iniciou no início dos anos 2000 em Pelotas, uma das principais cidades do chamado extremo-sul gaúcho, região marcada pela presença da população negra, a partir das charqueadas e da resistência quilombola. “Não sabia que eu tinha o dom”, revela o artista, ao comentar sobre a participação em curso de pintura de óleo, promovido pelo Senac-RS.

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Curiosamente, o despertar para a arte também serviu para que Zé Darci começasse a se questionar sobre sua própria origem, em uma área ocupada por famílias de quilombolas, na zona rural de Arroio Grande. Inicialmente, suas pinturas reproduziam paisagens e elementos da natureza, porém, aos poucos, Zé Darci começou a se aproximar do movimento negro gaúcho.

“Foi quando comecei a conhecer quilombos e a verdadeira história da Revolução Farroupilhas e dos lanceiros negros, porque comecei a ler mais e a estar no meio de quem fazia essa discussão”, relembra o artista. Uma das principais coleções pintadas por Zé Darci, chamada “Heroísmo Farroupilha”, trata da história do conflito e do papel dos grupos de combatentes formados por escravizados, reconhecidos em 2024 no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

Hoje, o artista plástico faz questão de enfatizar as características da região onde nasceu e vive, por isso, o foco nas cores do extremo sul. “Como sou um artista negro que mora no extremo sul do Rio Grande do Sul, meu trabalho é muito focado nas lendas, contos, na questão quilombola e nas coisas que aconteceram nessa região, que é muito esquecida”, aponta Zé Darci.

Pintura de óleo sobre tela que retrata o massacre de porongos, durante a revolução farroupilha. Na imagem, aparecem diversos combatentes dos lanceiros sendo massacrados.
Obra de Zé Darci ilustra o massacre dos porongos, episódio em que combatentes escravizados foram traídos e emboscados no final da Revolução Farroupilha (Arte: Zé Darci/Reprodução)

Incentivos e o Instituto Ateliê da Laje

Funcionário público aposentado, Zé Darci lidou com diferentes reações ao seu trabalho, desde pessoas que o desacreditaram, mas felizmente, por amigos que o incentivaram a seguir pintando. Entre estes últimos está Giovane Lessa, ativista e uma das principais lideranças da ocupação Quilombo Urbano Canto de Conexão, em Pelotas. Outro importante apoio veio do religioso Beto Ferreira, também de Arroio Grande.

Ao longo do percurso, o artista já ilustrou mais de 20 livros e participou de diferentes exposições e eventos, como na Fundação Ecarta, em Porto Alegre. Durante um período, suas obras também fizeram parte de um circuito por diferentes regiões e outros países. Porém, Zé Darci comenta que esse não é mais seu foco: ter obras expostas em diversos lugares, mas sim pintar o que faz sentido.

Me disseram: tu não precisa estar lá dentro do terreiro. tu nos representa, tem a espiritualidade e pode fazer

Zé Darci
Artista plástico

Um dos objetivos atuais do artista é estruturar o Instituto Ateliê da Laje, fundado em 2022 com apoio da antropóloga Marília Floôr Kosby. A entidade funciona como um espaço cultural e comunitário com o objetivo de promover a educação antirracista e ampliar acesso à arte e à cultura nas periferias do extremo Sul do RS.

Recentemente, o local foi reconhecido como um Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, por meio da Política Nacional Cultura Viva. Além disso, em julho deste ano, a Câmara Municipal de Arroio Grande aprovou o projeto de lei nº 032/2026 que declara a utilidade pública do Ateliê da Laje. As duas conquistas servem para auxiliar a busca por recursos e financiamentos via editais de cultura.

Ainda em 2026, Zé Darci espera lançar seu primeiro livro, intitulado “O menino que sonhava colorir o mundo”, em que descreve aspectos de sua ancestralidade. “Fala do lugar que meus avós nasceram no interior de Arroio Grande, no que seria um quilombo. Narro diversas histórias, algumas são verdadeiras e outras são ficção”, explica. 

O artista se orgulha ainda de um outro reconhecimento que deverá se concretizar em 2027, a indicação para receber o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). O processo já foi iniciado, a partir de indicação do curso de Gestão de Turismo, do Campus Jaguarão.

Duas pinturas de Zé Darci. Na esquerda, preto velho, um homem negro de chapéu, sentado à beira de uma estrada. Na direita, um bará, negro com vestes vermelhas
Pinturas de Zé Darci; aos poucos, artista começou a abordar a religiosidade afro-brasileira (Fotos: Reprodução/Zé Darci)

Orixás e religiosidade

“Sou a bombacha de santo / Sou o churrasco de Ogum / Entre os filhos desta terra / naturalmente sou um”, diz trecho do poema “Sou”, de Oliveira Silveira, escritor gaúcho e um dos principais ativistas para o reconhecimento do Dia da Consciência Negra, em homenagem à resistência de Zumbi dos Palmares.

Assim como o poeta, a arte de Zé Darci dialoga com a religiosidade afro-brasileira. Porém, nem sempre foi assim. O artista conta que, no início, sentia receio de pintar orixás ou outras figuras religiosas, por não possuir proximidade e conhecimento sobre essas tradições. 

A primeira vez que pintou as figuras de Bará, Xangô e Iansã foi por encomenda, após muitos diálogos com lideranças de povos de terreiro. “Me disseram: tu não precisa estar lá dentro do terreiro. tu nos representa, tem a espiritualidade e pode fazer. A partir disso, eu perdi o medo e comecei a fazer”, conta o artista de Arroio Grande.

Atualmente, Zé Darci leva suas pinturas com orixás para as diversas feiras e eventos que participa, como a 32° Feicoop (Feira Internacional do Cooperativismo e da Economia Solidária), em Santa Maria (RS). “Até dezembro, eu tenho uma agenda cheíssima, principalmente, com convites de cursos de universidades da região e para exposições”, celebra.

Um dos eventos que o artista espera com animação está marcado para março do próximo ano, em Salvador (BA), em uma exposição que pretende apresentar o batuque do Rio Grande do Sul. E assim, de tela em tela, Zé Darci contribui para colorir a história viva do extremo sul e da população negra na região.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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