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Neymar e o direito inalienável dos homens ao erro

Eterno "menino Ney" é o emblema de uma cultura que concede benevolência a eles e cobra maturidade precoce das mulheres

ODS 5 • Publicada em 14 de julho de 2026 - 09:36 • Atualizada em 14 de julho de 2026 - 09:38

Vira e mexe, com muita culpa, decido fazer algo que, na teoria, deveria ser muito simples: passar um sábado descansando. Assistir a uma série, pedir almoço e, quem sabe, voltar para a cama depois. Mas, invariavelmente, antes mesmo de terminar o primeiro episódio, começo a fazer contas. Será que ainda dá tempo de limpar o banheiro? Trocar a roupa de cama? Aspirar a casa? Que descanso é esse? E, principalmente, que necessidade é essa de me manter ocupada, produzindo ou cuidando de alguma coisa o tempo todo? Não é um problema só meu. É um jeito muito feminino de habitar o mundo.

Muito se falou sobre a patacoada da convocação do Neymar à última Copa do Mundo. Um jogador lesionado, que mal entrou em campo, e que no jogo de eliminação ainda foi cantar de galo com o goleiro adversário por um gol feio e inútil. Um homem que apoia de bets a condenados por estupro. E talvez o retrato mais preciso de um privilégio masculino sobre o qual nunca falaremos o suficiente: o direito de continuar sendo menino mesmo depois de virar homem.

Neymar após a eliminação do Brasil da Copa do Mundo: retrato cultura que concede benevolência aos homens e cobra maturidade precoce das mulheres (Foto: Fifa)
Neymar após a eliminação do Brasil da Copa do Mundo: retrato cultura que concede benevolência aos homens e cobra maturidade precoce das mulheres (Foto: Fifa)

Não importa quantos anos o “menino Ney” tenha, de quantos filhos seja pai, ou quantos milhões acumule. Há sempre uma adolescência extra esperando pelo boleiro Neymar que “cresceu cedo demais”, “que ainda está aprendendo”. Enquanto isso, meninas seguem passando pela infância ouvindo a fraude de que amadurecem mais cedo.

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O erro masculino é chancelado etapa do crescimento. O de uma mulher frequentemente vira prova definitiva de caráter. Talvez por isso a gente sinta que tem tão pouca margem para errar. Se um pai vai a uma reunião de escola, pode separar o troféu de “Pai do Ano”, do século até. Se um homem se divorcia, dizem que “recomeçou” a vida. A mesma indulgência raramente é concedida às mulheres. Muito menos para mulheres não brancas, LGBTQIAPN+, mais velhas e empobrecidas.

Vivemos sob a lei daquela máxima: “vá em frente, e se der medo, vai com medo mesmo”. Não porque sejamos naturalmente mais corajosas, mas porque quase nunca tivemos o privilégio de esperar a coragem chegar. Se não formos “com medo mesmo”, passaremos a vida estagnadas.

No fim das contas, minha culpa no descanso e a eterna meninice do Neymar não falam sobre uma faxina pendente, ou sobre uma convocação burra à Copa do Mundo. São dois lados de uma moeda que fala sobre quem ocupa mais espaços de poder e pode chegar até eles com poucos obstáculos, podendo apostar na tentativa e erro, e ouvindo que ainda há tempo para aprender. Nós costumamos receber uma infância bem mais curta.

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