ODS 1
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Veja o que já enviamosViagem pelo país do forró – e da resistência
A busca por festas juninas legítimas, que vencem (ainda) a pressão da cultura do agronegócio, em lugares revigorantes do Brasil
Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Como no céu vai sumindo
O forró pé de serra, aquele de Flávio José, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho e outros artistas incríveis, escultores de um lindo pedaço do Brasil, sobrevive – mas, no verso de outro gênero musical, não está sendo fácil. Quando chega junho, época de Santo Antônio, São João e São Pedro, o Nordeste vira protagonista do caldeirão cultural brasileiro (mais do que no Carnaval), trava-se a batalha de resistência. Porque adversários não faltam.
O show business ultracapitalista sequestrou as maiores festas juninas, profanando suas programações. Roberto Carlos e Sorriso Maroto passaram o rodo: apresentaram-se no São João de Campina Grande (PB), autodenominado maior do mundo, de Caruaru (PE), autointitulado maior e melhor do mundo, e de Maracanaú (CE), o terceiro gigante. Alok, o DJ modernoso, esteve nos eventos em Pernambuco e no Ceará.
Sobra (algum) espaço para o gênero-raiz, mas a indústria se impõe e reserva os momentos principais para seus astros mais reluzentes. Ganha tudo certa cara de Rock in Rio – com todo respeito ao sortido festival carioca – e desafina com a ancestral cultura da região. Vai ficando cada vez mais apertado para o pessoal da sanfona e da zabumba, confinado aos horários mais áridos e palcos mais remotos.


A saída é perseverar em busca do arrasta-pé legítimo, longe dos lugares mais badalados, hoje alvo da atenção do país inteiro. Assim, bem-vindo ao orgulhoso (e autoexaltado) País do Forró: Sergipe, o estado que luta para preservar as tradições do São João e, por enquanto, ostenta algum sucesso.
Oásis de tranquilidade a salvo dos desafios de capitais maiores, como Salvador, Recife e Fortaleza, Aracaju oferece estadia perfeita para quem quer conjugar festa e sossego. Tem todos os encantos: a brisa permanente, a água do mar morninha, o povo hospitaleiro e, como bônus inestimável, a civilidade urbana, expressa nas faixas de pedestre sem sinais de trânsito. Os carros param voluntariamente para os pedestres atravessarem, cena banal que vira um êxtase delirante para cariocas.
(Aracaju mantém sua gastronomia a salvo da potente influência baiana, viabilizando prazeres e sabores com identidade. Neles, destaca-se a Budega do Jorjão, o melhor caranguejo da cidade, experiência imperdível. Dica: se puder, vá na quinta-feira, para encontrar o Bonifácio, o amor da Carminha. Procure saber.)
Mas e o forró? O bafafá começa no aeroporto, onde os passageiros são recebidos, no desembarque, por animado grupo que bota todo mundo para dançar. O auge se dá num par de eventos bem realizados, em pontos diferentes da capital: o Arraiá do Povo, na turística Orla da Atalaia, e o Forró Caju, na emblemática Praça dos Mercados. As duas reuniram atrações típicas do São João, concedendo poucas brechas aos outros gêneros.
A da praia, em especial, tinha o palco gigante, tecnológico, mas no horário nobre, garantiu os holofotes a artistas como Yasmin Sensação, a maravilhosa Barbie do Brega, e Flávio José, o rei do xote. Além disso, apresentou, em espaços menores, trios totalmente raiz, que entoaram os grandes sucessos juninos. Para completar, o Barracão da Sergipe (produção da afiliada local da Globo) abrigou quadrilhas exuberantes, espetáculos inesquecíveis da cultura mais cristalina.
Batalha penosa. Mesmo na festa sergipana, o quadriculado e os chapéus de palha tradicionais estão sendo crescentemente substituídos pelas roupas pretas, as botas e calças de couro e os chapéus de caubói, a estética colonizada (e colonizadora) do agronegócio. A alegria das cores juninas, das bandeirinhas iluminadas pelas fogueiras, se apaga, atropelado pelo pastiche do country estadunidense.


Mas jamais será São João, em toda sua plenitude, sem o sertão. Então, ‘bora pegar a estrada, na direção do São Francisco, até Niterói – não a amada terra do colunista, mas seu xará, povoado na margem direita do rio, para pegar a balsa e chegar a Pão de Açúcar, em Alagoas, onde está a mágica Ilha do Ferro.
Que lugar! Emoldurado pela vista majestosa do Velho Chico, o pequeno povoado, em verdade, é uma pequena península, mas ilha de alma, parada em outro tempo, a salvo de muitas mazelas do capitalismo. A vida anda bem mais devagar, naquelas três ruas, de 500 moradores, da Carmen e da Cintia e sua linda Casa Pirambeba, da Bia e sua Esquina do São Francisco, do seu Joaci e do Clemilton, da dona Vana e do Antônio Sandes, do André Macumba e da Leninha, da dona Lúcia do ceviche de piranha e do Dedé barqueiro. Uma gente hospitaleira, que vive feliz no ritmo todo próprio, recebe os visitantes com a porta aberta e o coração escancarado, numa hospitalidade permanente.
Quer almoçar? Tem que avisar cedo, ou na véspera. Café? Pode ser, mas não tem a qualquer hora. Padaria? Fecha cedo, ou nem abre. Urgências não prosperam por ali.
Na noite de São João, a frente das casas foi ocupada por fogueiras, no ritual supernordestino, o forró comeu solto até tarde no bar Calango e os inimigos do fim ainda foram tomar incontáveis saideiras no Bar Salão, do André Macumba. Antes, o jogo da seleção passou num telão na praça, todo mundo reunido numa linda fábula de convivência e gentileza.
Tem (a outra) arte – a principal. A Ilha do Ferro encontrou sua vocação graças a Fernando Rodrigues dos Santos, pescador, agricultor, caçador e poeta – um incrível artista autodidata. Por lá, antes dele, vivia-se do São Francisco e da lavoura e muitos moradores desenvolveram aptidão para fazer barcos de pesca e tamancos. As barragens das hidrelétricas acabaram com os peixes e os calçados foram substituídos pelas práticas sandálias de borracha. Seu Fernando deu, então, vazão a seu talento e, entre 1967 e 1981, produziu cadeiras, mesinhas, bancos e muitos outros objetos a partir de galhos mortos, deixados pelo caminho.


Iniciou-se então ciclo virtuoso único, com o surgimento de diversos escultores e pintores, que se espalham pelos ateliês nas casas coloridas do vilarejo. Roxinha Lisboa, Aberaldo, Zé Crente, Petrônio e Celia, Savinho e Cícero, Diogo e Vinicius Farias, Vavan. São todos celebrados país afora em exposições de arte popular e suas peças vendidas nas lojas sofisticadas de Rio e São Paulo. Mas lá, mora a simplicidade mágica de acessá-los com um simples “ô de casa”.
E vá logo, antes que acabe. A Ilha do Ferro vive hype que levou até lá apresentadores de TV com visão social míope (ou cega), mercadores variados e, claro, os cupins da especulação imobiliária. O preço dos terrenos nos arredores explodiu, ouve-se o vaivém frequente de helicópteros e as fofocas comunitárias especulam sobre a construção de resorts ao longo do São Francisco.
Porque as lutas vão muito além da resistência pelo forró legítimo.
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