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Cynthia Jaramillo durante encontro com mulheres no México: escuta e desenvolvimento de metodologias para empoderar indígenas latino-americanas (Foto: Arquivo Pessoal)
Cynthia Jaramillo e o fortalecimento das mulheres indígenas no México
A partir de experiência em El Salvador, ativista mexicana exerce um feminismo latino-americano baseado em dignidade, cuidado, justiça restaurativa e sobrevivência coletiva
Todo mundo conhece Frida Kahlo. Muitas pessoas também já ouviram falar de Sor Juana Inés de la Cruz, Elena Poniatowska, Graciela Iturbide, Nahui Olin e tantas outras mulheres mexicanas que marcaram a história com sua arte, coragem e inteligência. O México é a terra e raíz de inúmeras mulheres extraordinárias, algumas mundialmente conhecidas, outras ainda por serem descobertas e reconhecidas.
E é por isso que a história de hoje nos leva a esse país tão potente e à trajetória de uma querida amiga, com quem tenho tido o prazer de aprender tanto. Mas antes de entrarmos na história de Cynthia Jaramillo, vamos pousar no país cuja capital foi erguida sobre as ruínas da cidade asteca de Tenochtitlán, literalmente construída sobre um lago. É sobre essa terra de camadas sobrepostas, de histórias que afundam e resistem, que começa a nossa história.
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No México, mercados populares transbordam cores, cheiros e sons: mulheres vendem tortillas, bordados, ervas e frutas enquanto equilibram filhos, trabalho e sobrevivência. Em bairros periféricos da Cidade do México, sua capital, o trânsito interminável e os muros grafitados convivem com desigualdades. Mais ao sul, em comunidades indígenas de Chiapas, Oaxaca e Guerrero, mulheres seguem sustentando economias inteiras enquanto enfrentam pobreza, racismo estrutural e violências de gênero historicamente naturalizadas.
Cynthia nasceu na Cidade do México em uma família trabalhadora. Filha mais velha de três irmãs, cresceu em uma casa atravessada pelas tensões econômicas comuns a tantas famílias mexicanas. Os pais faziam enormes esforços para mantê-las em escolas privadas, acreditando que educação era a única herança possível.
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Veja o que já enviamosEla queria ser veterinária como a mãe, que abandonou a faculdade ao ter as filhas. Depois sonhou em estudar arquitetura na Universidad Nacional Autónoma do México, mas, apesar de ter passado por todo o processo seletivo, perdeu a vaga por não conseguir retirar os documentos escolares devido às dívidas acumuladas pela família.
O caminho então mudou de direção quase por acaso: escolheu estudar comunicação e descobriu no jornalismo uma paixão. Ao cobrir eventos corporativos, Cynthia entrou em contato pela primeira vez com o universo da responsabilidade social empresarial. A ideia de conectar impacto social e transformação econômica a fascinou. Estudou o tema de forma intensa, fez cursos, mergulhou em cooperativismo e empreendedorismo social.
Desesperada por respostas, busquei caminhos na religião, na mindfulness, em cursos, livros e diferentes formas de tentar reconstruir algum sentido. E foi justamente quando parei de procurar respostas de forma desesperada que um novo chamado me encontrou. Foi aí que El Salvador entrou na minha vida
Em seus primeiros trabalhos com comunidades rurais e indígenas, Cynthia passou a enxergar aquilo que muitas vezes permanece invisível para os centros urbanos do México: mulheres atravessadas simultaneamente por machismo, pobreza, racismo e exclusão territorial. Foi também nesse período que começou a perceber as contradições no ambiente de trabalho. Vivenciou disputas de ego, soluções impostas de cima para baixo e narrativas salvacionistas que falavam sobre as comunidades, mas raramente com elas. Essa ambiguidade começou a se tornar uma presença constante e desestimulante em sua trajetória.
Então vieram as rupturas pessoais.
Seu companheiro foi diagnosticado com leucemia. Cynthia interrompeu sua própria vida para se dedicar integralmente a ele. “Foi um ano e meio de cuidado, amor e profunda dedicação. Dias atravessados por hospitais, exames e incertezas.” No entanto, no final ele perdeu a batalha e faleceu. Vieram o colapso emocional e o luto.
Em meio a esse processo, ao utilizar o computador dele para buscar informações pessoais, Cynthia encontrou pastas com fotos e descobriu que ele mantinha, paralelamente à relação deles, outro relacionamento. Foi um novo abalo, um segundo luto dentro do primeiro.
Somaram-se a isso o endividamento, o fracasso de sua organização e, em seguida, o terremoto de 2017 no México, que não apenas devastou territórios, mas também redesenhou prioridades institucionais, aprofundando a crise já existente.
Pude reconhecer também a minha própria história. Também sou sobrevivente das muitas quedas e puxadas de tapete que a vida me trouxe
A escritora e ativista mexicana Marcela Lagarde, ao falar sobre violência estrutural e desigualdades de gênero na América Latina, descreve como muitas mulheres vivem “processos de despossessão da vida”, não apenas pela violência direta, mas pela soma de perdas sociais, econômicas e simbólicas que corroem lentamente a possibilidade de futuro.
Cynthia descreve esse período como anos marcados por excesso, dor e uma sensação persistente de perda de direção. “Lembro desse período como uma queda livre. Desesperada por respostas, busquei caminhos na religião, na mindfulness, em cursos, livros e diferentes formas de tentar reconstruir algum sentido. E foi justamente quando parei de procurar respostas de forma desesperada que um novo chamado me encontrou. Foi aí que El Salvador entrou na minha vida.”
A travessia começou através de uma amiga, filha da Vicky Guzmán, uma mulher que inspirou profundamente Cynthia. Guzmán é fundadora de uma organização local e, durante o conflito salvadorenho, foi perseguida, mas ainda assim dedicou décadas à defesa de mulheres, crianças e comunidades em situação de vulnerabilidade.


Cynthia foi convidada a colaborar em projetos sociais no país. Foi ali que começou a trabalhar com mulheres sobreviventes de violência em territórios historicamente controlados por maras. E foi nesse encontro, escutando histórias de dor, resistência e amor pelos filhos e filhas, que voltou a encontrar sentido. “Pude reconhecer também a minha própria história”, conta ela. “Também sou sobrevivente das muitas quedas e puxadas de tapete que a vida me trouxe”.
Em El Salvador, Cynthia encontrou não apenas um novo propósito de vida, mas uma nova forma de compreender o feminismo latino-americano: menos centrado em discursos abstratos e mais enraizado em cuidado, dignidade, justiça restaurativa e sobrevivência coletiva.
Hoje, de volta à Cidade do México, Cynthia trabalha justamente na intersecção entre gênero, racialidade e liderança comunitária. Sua rotina é feita de deslocamentos, pela América Central e por zonas remotas do México, levando consigo uma escuta que aprendeu a afinar ao longo de anos de perdas e recomeços.
Seu foco está em mulheres indígenas artesãs mexicanas, especialmente em comunidades onde o patriarcado e as desigualdades históricas seguem profundamente presentes. A partir dessa escuta, ela desenvolve metodologias de fortalecimento de lideranças femininas baseadas em aprendizagem coletiva, interseccionalidade e valorização cultural.
Ao ouvi-la falar, lembrei-me imediatamente de Rosario Castellanos, escritora, diplomata e uma das intelectuais feministas mais importantes do México. Nascida na Cidade do México e profundamente marcada pelas desigualdades de Chiapas, Castellanos dedicou sua obra a escancarar as violências silenciosas do patriarcado, do racismo e da exclusão indígena. Em seus livros, mulheres indígenas, camponesas e marginalizadas deixam de ser figurantes para ocupar o centro da narrativa. Sua pergunta atravessa gerações: quem tem direito à voz, à dignidade e ao futuro?
Existe um fio comum entre essas mulheres: a recusa em aceitar que determinadas vidas sejam tratadas como imutáveis, fadadas à invisibilidade ou ao fracasso.


Esse mesmo fio também se revela na trajetória de Remedios Varo, artista espanhola que deixou seu país durante a Guerra Civil e encontrou no México um espaço de recomeço. O exílio não significou apenas deslocamento geográfico, mas também um processo profundo de reinvenção pessoal e criativa. Em sua obra, Varo deu forma a universos imaginários nos quais ciência, misticismo e espiritualidade se entrelaçam, como se a criação artística pudesse reorganizar a realidade diante da instabilidade, da perda e do desenraizamento. Já estabelecida no México, integrou um importante círculo de artistas e intelectuais exilados que contribuíram para renovar o cenário cultural do país, enquanto sua produção se tornava cada vez mais singular, introspectiva e marcada por um simbolismo próprio, profundamente original.
De certa forma, Cynthia, hoje com 48 anos, também parece operar a partir dos deslocamentos, não apenas geográficos, mas emocionais e sociais, transformando rupturas em formas de leitura do mundo e criando, a partir delas, novas possibilidades de ação, pertencimento e sentido.
Enquanto tantas narrativas insistem em retratar mulheres indígenas latino-americanas apenas pela falta, Cynthia escolhe outro caminho: escutar, construir junto e desenvolver metodologias que partem da inteligência coletiva dessas mulheres.
No México, como em tantos lugares da América Latina, resistir nunca foi apenas sobreviver. Sempre foi organizar, ensinar, cuidar e imaginar futuros possíveis, como ela própria fez, em uma história de vida atravessada por perdas e reinvenções, o que ajuda a explicar sua profunda empatia e a força com que segue essa missão.
Escutá-la nos devolve a crença no possível. E nos provoca também um movimento interno: a vontade de começar mudanças hoje, com a esperança de que transformações íntimas possam, pouco a pouco, abrir caminhos para mudanças no mundo ao redor.
Porque há histórias que não apenas são contadas. Elas deslocam algo dentro de nós, e nos convidam a não permanecer exatamente os mesmos depois de ouvi-las. Por hoje é só.
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Camila Batista
Camila Batista Pinto, advogada e ativista pelos direitos das mulheres, é uma empreendedora social brasileira e COO da Migraflix, organização que promove a inclusão social e econômica de migrantes e refugiados na América Latina por meio do empreendedorismo; também preside o Conselho Consultivo da Migration Youth and Children Platform (MYCP), plataforma global oficial de participação juvenil em processos intergovernamentais e no sistema das Nações Unidas, e é conselheira da organização Palhaços Sem Fronteiras Brasil







































