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Veja o que já enviamosRua do Senado faz soprar os bons ventos da esperança no Centro
Multiplicação de estabelecimentos e ocupação dos espaços públicos levam antiga via carioca a ser eleita a rua mais 'cool' do mundo
Sete anos atrás, este #RioéRua aproveitou um sábado para flanar pela Rua do Senado, um pretexto para comer tremoços no centenário Armazém do Senado, acompanhar a roda de samba do bar e passear entre as lojas de antiguidade, que espalham mercadorias pelo asfalto. Ao lado do então recém-inaugurado restaurante Lilia, eram essas as modestas atrações da rua, que, no fim de 2025, foi eleita a “mais cool do mundo”, no ranking da revista britânica Time Out, a primeira vez que uma via da América Latina chegou ao topo desse ranking.
Essa transformação em sete anos é um bom sinal da tentativa de recuperação do Centro do Rio, que, em processo de decadência neste século 21, mergulharia numa crise ainda maior com a covid-19. Ao longo do século 20, o Centro foi deixando de ser um bairro residencial para se tornar um polo de comércio e negócios, que já estava em declínio quando a pandemia provocou o fechamento centenas de lojas e de escritórios – muitos pequenos comércios não conseguiram reabrir, o trabalho remoto virou regra em muitos setores e deixou espaços vazios onde antes funcionavam bancas de advocacia e empresas de contabilidade.
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Na Rua do Senado, entretanto, a maioria das lojas de antiguidades resistiu. O Armazém do Senado – fundado em 1907 – já sobrevivera à epidemia de gripe espanhola de 1918 e continuou firme no seu ponto tradicional. O Lilia passou pelos apertos de todos os comerciantes mas, consolidado pelo fama de boa mesa, deu um impulso à rua: seus sócios abriram no fim de 2020, o Labuta Bar, um micro botequim, ao lado do Armazém do Senado.
Foi o Labuta, que, sem espaço para mesas, inaugurou a onda de ocupação da calçada e do asfalto, antes restrita ao primeiro trecho da Rua do Senado entre as ruas do Lavradio e Gomes Freire. Neste primeiro trecho, os resistentes antiquários ganharam boas companhias. Desde dezembro de 2022, o Solar dos Abacaxis passou a ocupar um casarão histórico com ateliês, áreas de exposição para mostras e performances, biblioteca e espaços para oficinas. No começo de 2026, o prédio anexo – parte também de um conjunto centenário da Casa Granado erguido em 1912 – foi aberto como Mercado Central, já ocupado por bares e restaurantes.


Quando o Mercado Central chegou, a rua do Senado já tinha sido eleita a mais cool – legal, descolada – do mundo pela Time Out, impulsionada pela abertura neste mesmo trecho da Destilaria Maravilha (em abril de 2025), primeiro bar com destilaria do Rio de Janeiro, que produz vodca, gim e cachaça, e do Braseiro Labuta (em 2023), do mesmo grupo do micro bar e do Lilia, especializado em carnes, e já no quarteirão seguinte, entre a Gomes Freire e a Rua dos Inválidos.


Quando foi aberta no fim do século 18, entretanto, a Rua do Senado tinha pouco mais do que esse trecho badalado: ligava apenas à Rua Espírito Santo (hoje Pedro I) à Rua dos Inválidos, terminando no Morro Pedro Dias, chamado a partir de então de Morro do Senado. O batismo da via está relacionado ao Senado da Câmara – uma espécie de câmara de vereadores não eleita, formada por funcionários burocratas na então colônia portuguesa para ajudar na administração da cidade.
O Morro do Senado teve o mesmo destino do Morro do Castelo e de outros do Centro do Rio: veio abaixo. Seu pico, com 50 metros de altura, estava onde fica hoje a Praça da Cruz Vermelha. Com sua derrubada, a Rua do Senado foi sendo ampliada até o seu trajeto atual de quase dois quilômetros, que termina na Rua do Riachuelo, já na altura da Central do Brasil, quase no bairro do Estácio. Entre a Riachuelo e a Vinte de Abril (na altura da Praça da República), a Rua do Senado tem uma série de pequenos hotéis e, até a área badalada, abriga muitos sobrados antigos, boa parte deles degradados e/ou abandonados.


O exemplo da Rua do Senado mostra que um sopro de vida pode se transformar em ventania. Foi o movimento diurno da via, que fez a Destilaria Maravilha abrir com a proposta de ocupar a rua à noite: o bar fica aberto até o começo da madrugada. Com roda de samba e DJs, a Rua do Senado vira até pista de dança. O sucesso da destilaria levou a criação de um cardápio noturno no Braseiro. Inspirados pelos Labutas, dois outros estabelecimentos mais próximos à Rua dos Inválidos, também botaram mesas na calçada e no asfalto. O caminho da rua é o caminho da esperança para as cidades.
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