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No Carnaval como na política, debate sem participação popular

Caciques da prefeitura e do samba definem mudança no número de escolas de samba do Grupo Especial, numa discussão tão restrita quanto a do mandato-tampão no governo estadual

ODS 11ODS 16 • Publicada em 14 de abril de 2026 - 09:48 • Atualizada em 14 de abril de 2026 - 11:12

Nas últimas semanas, o Rio de Janeiro foi tomado por um debate, muitas vezes, acalorado sobre tema que impacta a vida dos moradores dessa terra e que pode, potencialmente, ter um resultado positivo: o número de escolas de samba a desfilar no Grupo Especial do Carnaval – e, por consequência, nos outros grupos. Samba e carnaval são temas muito sérios para a vida social e cultural da capital e de sua região metropolitana e seus desdobramentos econômicos acabam por atingir todo o estado do Rio de Janeiro.

Alguns podem ter pensado ao ler as primeiras palavras desta coluna que se tratava de outro debate que impacta a vida do Rio de Janeiro: como será governado o estado até dezembro depois que o ex-governador renunciou pouco antes de ser condenado por crime eleitoral e tornar-se inelegível, o ex-vice-governador abandonou o mandato para ser conselheiro do Tribunal de Contas (também condenado e  inelegível) e o presidente da Assembleia (também condenado e inelegível) está preso por associação com a maior facção criminosa do estado.

Desfile da Viradouro, campeã do Grupo Especial na Passarela: decisão de cúpulas sobre aumento do número de escolas de samba (Foto: Marco Terranova / Riotur - 16/02/2026)
Desfile da Viradouro, campeã do Grupo Especial na Passarela: decisão de cúpulas sobre aumento do número de escolas de samba (Foto: Marco Terranova / Riotur – 16/02/2026)

Teremos uma outra eleição direta antes da marcada para outubro? Uma eleição indireta com voto dos deputados estaduais? Ou permaneceria o presidente do Tribunal no mandato-tampão até a posse do eleito em outubro? Mas, nesta discussão, nada pode sair de positivo. Todas as alternativas são ruins – como quase tudo gerado pelo ex-governador, aquele que mostra orgulho de, em seu mandato, o Rio ter sido palco das maiores matanças policiais de sua violenta história.

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Voltamos a samba e Carnaval, assuntos mais importantes, e o debate sobre o número de escolas a desfilar no Grupo Especial e nos outros. Desde o surgimento do primeiro desfile competitivo das escolas de samba realmente organizado, e promovido em 1932 pelo jornal Mundo Sportivo, do jornalista Mário Filho, o domingo de Carnaval sempre foi a data oficial. E todas as escolas desfilavam no mesmo dia – e o grupo de elite continuou no domingo, quando, em 1952, foi criado o segundo grupo e o sistema de acesso e descenso. Só em 1984, no primeiro desfile na nova Passarela, a competição foi dividida em dois dias, numa decisão unilateral do governador Leonel Brizola e seu vice-governador, secretário de Cultura e manda-chuva do Carnaval, Darcy Ribeiro.

A direção da maioria das escolas – já então dominadas por banqueiros do jogo do bicho – não gostou, a TV Globo, dona dos direitos de transmissão também não (e nem transmitiu os desfiles de 1984), mas a fórmula, com pequenas adaptações, deu certo. Organizados a partir de 1985 na LIesa, os dirigentes das escolas de samba ganharam poderes na gestão do desfile e foram tornando o espetáculo mais  profissional e muito mais rentável e lucrativo, com 12 escolas do Grupo Especial, divididas em desfiles no domingo e na segunda.

Até 2024, quando o sambódromo da Marquês de Sapucaí completou 40 anos. Após o Carnaval, a Liesa – agora dirigida pelos herdeiros dos antigos banqueiros do bicho – anunciou que, a partir de 2025, seriam três noites de desfiles, com quatro escolas por noite (domingo, segundo e terça): o objetivo principal – enfeitado por frases de efeito – era, obviamente, aumentar a receita do espetáculo, com a venda de mais ingressos e mais faturamento dos parceiros comerciais.

Muitos não gostaram: o público, que pagava caro – muito caro na maioria dos casos – para assistir a passagem de seis escolas, ia desembolsar o mesmo para acompanhar quatro. E os mais apaixonados protestaram, para ver todas as escolas, tinham que pagar ainda mais. Houve queixas também de quem precisou passar a trabalhar três madrugadas seguidas em vez de duas – jurados, equipes técnicas da Passarela, trabalhadores da infraestrutura. E o segundo parágrafo deste #RioéRua – o da eleição – entrou em cena: às vésperas de deixar o cargo para ser o candidato a governador, o prefeito Eduardo

Paes lançou a ideia de aumentar o número de escolas por noite, de quatro para cinco, e, de quebra (e de olho em votos), propôs uma virada de mesa, com o convite a “escolas tradicionais” (Império Serrano, Estácio de Sá e União da Ilha do Governador).
Como para o novo prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, sugestão de Paes, a quem deve toda a sua carreira política e agora também o cargo, é uma ordem.

E, no discurso de posse, anunciou 15 escolas no Grupo Especial, cinco por noite. A Liesa não gostou, lembrou uma série de pertinentes dificuldades logísticas, questionou a virada de mesa reforçado por Cavaliere. Foram três semanas de debates, animados pelos dirigentes dos outros grupos, dos especialistas de carnaval, de representantes do comércio e do turismo. Os poderosos da Liesa e os poderes da Prefeitura acabaram avançando na discussão e parecem ter chegado a um acordo.

Mas os debates paralelos entre a mudança no desfile das escolas e o vácuo de poder no governo do estado acabaram ajudando a ressaltar a ausência popular nas discussões – nem os “sambistas”, assim compreendidos todos aqueles envolvidos com as escolas, foram ouvidos sobre o carnaval; nem o eleitorado que, sequer em pesquisa, foi consultado para saber o que seria melhor após renúncia e cassações. Como nas mudanças em regulamentos e calendários do futebol, nosso esporte mais popular, os cartolas decidem e a torcida só assiste – e torce para dar certo.

O universo das escolas de samba vai muito além do Carnaval. Como ensinam os mais velhos, as escolas destilam porque existem (e não existem porque desfilam). São entidades entranhadas em suas comunidades, com intensa participação na vida social e cultural de cada uma, com decisiva formação na identidade local. A partir das quadras, desenvolvem projetos artísticos, esportivos, de ação e assistência social.  E, naturalmente, são ainda fonte de trabalho porque a engrenagem do desfile funciona o ano inteiro.

A previsão é que, em 2027, pelo menos 93 escolas de samba se apresentem nos cinco grupos do Carnaval. São cinco divisões: Especial e Série Ouro na Passarela da Marquês de Sapucaí, as Séries Prata e Bronze, e o Grupo de Avaliação, na Estrada Intendente Magalhães. tradicional via carnavalesca na Zona Norte da cidade. São mais de 100 mil pessoas desfilando, sem contar as crianças das mais de 20 escolas mirins.

Carnaval na Intendente Magalhães: desfiles reúnem mais de 90 escolas de samba em cinco grupos (Foto: Leo Ripamonti / Riotur - 07/03/2025)
Carnaval na Intendente Magalhães: desfiles reúnem mais de 90 escolas de samba em cinco grupos (Foto: Leo Ripamonti / Riotur – 07/03/2025)

Nenhuma das decisões sobre mudanças nos desfiles, desde 1984, passou por essa multidão. Neste abril de 2026, as cúpulas chegaram a um acordo: o Grupo Especial terá 15 escolas, mas só a partir do Carnaval de  2030. E nada de convite ou virada de mesa – a partir de 2027, sobem duas escolas da Série Ouro para o Especial e cai uma só. Os herdeiros do banqueiros do bicho mantiveram a tradição do “vale o escrito”, associado desde sempre ao jogo ilegal, contrariando os interesses políticos-eleitorais.

As outras organizações do samba, sem o mesmo poder de fogo, atenderam ao prefeito e fizeram a virada de mesa. A Liga RJ, responsável pela Série Ouro, o grupo de acesso ao Especial, anunciou um convite a três escolas, deixando claro que estava “em alinhamento com a orientação expressa pelo prefeito”:  Inocentes de Belford Roxo e Unidos do Jacarezinho, que cairiam para a Série Prata, vão permanecer; a São Clemente, segunda colocada da Prata, que não subiria, também vai desfilar no acesso.

O mesmo fez a Superliga, que organiza os desfiles da Intendente Magalhães: engordou a Série Prata com mais três escolas (Rosa de Ouro, Unidos de Cosmos e Boi da Ilha do Governador) e a Série Bronze com outras três (Acadêmicos de Madureira, Arame de Ricardo e Coroado de Jacarepaguá). E também jogou a decisão no colo da política explicando que a virada de mesa estava “em alinhamento com o que foi determinado e solicitado pelo prefeito Eduardo Cavaliere”.

Se o resultado desse debate para engordar o Grupo Especial, será melhor para o desfile, as escolas de samba e o Rio de Janeiro, não tenho como prever – como a maior parte do distinto público, este carioca estava acostumado e satisfeito com o desfile em dois dias. Mas tenho convicção de que, da discussão sobre o mandato-tampão até um novo governante eleito legitimamente, é impossível sair um resultado positivo porque, repito, todas as alternativas são ruins. Resta apenas o consolo de que o estado não ficará, nos próximos meses, em mãos mais perversas do que aquelas mãos encharcadas de sangue do mais recente inelegível.

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