Mercado fechado na Macapá às escuras durante o apagão: comerciantes perderam mercadorias e equipamentos em drama para pequenos negócios do Amapá (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 07/11/2020)

Mercado fechado na Macapá às escuras durante o apagão: comerciantes perderam mercadorias e equipamentos em drama para pequenos negócios do Amapá (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 07/11/2020)

Amapá entre o apagão e o apagamento: o drama para os pequenos negócios

Amapá entre o apagão e o apagamento: o drama para os pequenos negócios

Por Clarice Candido ODS 10ODS 7

Com o blecaute, seguido por constantes quedas de energia, comerciantes perderam mercadorias e equipamentos; muitos buscam até hoje indenização na Justiça

Publicada em 16 de junho de 2026 - 01:35

Aldemar Pessoa é proprietário da lanchonete Aldemar Lanches. O estabelecimento, que fica no Mercado Central de Macapá, anda sempre lotado de turistas e moradores da capital do Amapá. Para conseguir um lugar para um café da manhã reforçado, os clientes precisam chegar cedo, principalmente aos domingos, quando a demanda duplica. Aberta desde 1976, a lanchonete virou tradicional na região. O pedido especial, favorito dos clientes, é o pão da Dani, um pão com ovo, queijo e presunto, completo para começar o dia.

Eu estava com meus freezers todos lotados de lanches, de polpas de fruta, com todas essas coisas. Mas eu perdi tudo, sem ter pra quem reclamar.

Aldemar Pessoa
Dono de lanchonete em Macapá

Além de Aldemar, quem ajuda a comandar todo o funcionamento é Rosa. Casados há 50 anos, ambos começaram um negócio familiar. Dos três filhos, dois seguiram caminhos profissionais diferentes, mas Dani, a filha do meio, trabalha quase todos os dias ao lado dos pais. Mas, com a pandemia, a situação se complicou e só iria piorar com o apagão. Durante o confinamento inicial, só podiam circular nas ruas os trabalhadores mais essenciais ou de situações de emergência. Também foi estipulado barreiras para conter essa movimentação de pessoas nas vias para não aumentar o contágio da covid-19.

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A Aldemar Lanches precisou ficar um tempo fora de funcionamento, devido ao isolamento social necessário para o momento. Pensando em formas de se adaptar à nova rotina, seu Aldemar e dona Rosa começaram a vender lanches da cozinha da própria casa. Os clientes ligavam, faziam o pedido, eles produziam o alimento e os próprios consumidores iam buscar no portão da casa de Rosa e Aldemar. Todo esforço para não ficar sem trabalho, segundo o empreendedor.

Aldemar e Rosa na sua lanchonete em Macapá, recuperada após os prejuízos com o apagão: "A gente sobrevive a qualquer caos", confia o comerciante (Foto: Ricardo Beda)
Aldemar e Rosa na sua lanchonete em Macapá, recuperada após os prejuízos com o apagão: “A gente sobrevive a qualquer caos”, confia o comerciante (Foto: Ricardo Beda)

A rotina funcionou por um tempo e, com o início do blecaute, eles precisaram continuar no mesmo esquema. O apagão foi um grande choque para o empreendedor, que em pouco tempo perdeu todo o estoque, especialmente produtos refrigerados. “Como eu trabalho com lanches, preciso sempre ter bastante aqui e em casa. A gente produz bastante, tudo o que os clientes consomem somos nós que produzimos. Eu estava com meus freezers todos lotados de lanches, de polpas de fruta, com todas essas coisas. Mas eu perdi tudo, sem ter pra quem reclamar. A gente precisou segurar as pontas”, relembra Aldemar. Ele conta que, para não ter perda total de seus produtos, doou a maioria para quem precisava.

trabalhar era quase impossível porque não tinha como entrar em contato com os turistas. Não tinha sinal. Quando conseguíamos carregar um pouquinho o telefone era por pouco tempo e, quando as mensagens chegavam, já tinham um ou dois dias de atraso. Foi um período de muita tristeza e de muitos prejuízos

Antonio Carlos
Guia turístico no Amapá

Para muitos comerciantes, as quedas constantes de energia representaram grandes perdas porque, além de comidas estragadas, muitos equipamentos foram queimados. Segundo o comerciante, a situação seria “normal” e ele não foi o único a sofrer as consequências do apagão no próprio estabelecimento. Benedito Moreira é dono da sorveteria e pizzaria Plutão, no Centro de Macapá, e também foi impactado de forma parecida. Pela falta de refrigeração, perdeu boa parte do estoque de sorvetes, cerca de 80 baldes de 10 litros cada.

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Ambos contam que não tiveram a opção de comprar um gerador porque no primeiro dia as lojas já estavam sem estoque do produto. “Na época, houve uma corrida enorme atrás de geradores portáteis. Todo mundo queria um, porque ninguém sabia quando a energia ia voltar. As pessoas faziam fila onde ainda tinha pra vender. Um gerador que custava cerca de R$ 3.500 rapidamente passou a R$ 7.000, e mesmo assim não se encontrava mais. Muita gente começou a procurar em Belém, mas lá também já tinha acabado de tanto amapaense tentando comprar”, conta Bené, como é conhecido o comerciante.

O guia turístico Antonio Carlos relembra o drama do apagão para os pequenos negócios: "Teve comerciante que fechou as portas" (Foto: Ricardo Beda)
O guia turístico Antonio Carlos relembra o drama do apagão para os pequenos negócios: “Teve comerciante que fechou as portas” (Foto: Ricardo Beda)

Com inflação e sem indenização

A única solução que o dono da Plutão encontrou foi comprar peça por peça, em partes, e montar o próprio gerador. Os portáteis, ele relembra, conseguiram comprar em Belém depois de um tempo, o que foi um alívio. “Nós, como comerciantes, sofremos muito. Não foi uma situação anunciada para nós, nós perdemos muito”.

​Com a alta demanda e a necessidade por itens essenciais, como água e alimentos não perecíveis, os produtos inflacionaram de forma significativa e, no desespero do risco de desabastecimento, a corrida para a compra foi grande. Estoque de gelo, água mineral, postos de combustível e rede hoteleira sofreram uma alta no consumo. Produtos como velas, essenciais num contexto de falta de luz, chegaram a sofrer uma inflação de quase 100%. Na época, os comerciantes recorreram ao Instituto de Defesa do Consumidor do Amapá (Procon-AP), que realizou uma fiscalização e multou alguns estabelecimentos que forneciam os produtos para revenda.

Sem energia, bombas de combustíveis pararam de funcionar e apenas os postos com geradores próprios conseguiram operar. Os demais só abriam nos curtos períodos em que o fornecimento era restabelecido durante o racionamento. As agências bancárias também foram afetadas, com caixas eletrônicos e máquinas de cartão inoperantes, impedindo saques e pagamentos, o que impediu que muitos amapaenses pudessem fazer compras essenciais.

Até hoje as pessoas que recorreram pelos seus prejuízos não ganharam nada

Benedito Moreira
Comerciante em Macapá

Quem não tinha dinheiro para comprar os produtos inflacionados dependia de doações vindas da própria comunidade. Alguns preferiam correr o risco de contaminação na água, ao ingerir de poços artesianos ou até do Rio Amazonas, do que ficar sem ter o que beber. “As pessoas realmente achavam que o mundo ia acabar. Você ia no mercado e não conseguia comprar vela, água, porque as pessoas estocavam. O preço de um galão de água de 5 litros, que antes era R$ 7, chegou a ser vendido por R$ 30. Isso porque todos estavam precisando, não tinha água na torneira para beber”, relembra a designer Dayanne Farias.​​

O guia turístico Antonio Carlos também sofreu no ramo de viagens. Ele conta que, já que passava longos períodos sem comunicação, não conseguia entrar em contato com os turistas. “Íamos até o aeroporto, onde tinha gerador, pegava o turista e levava para algum hotel, e nem todos [os hotéis] tinham energia. Mas trabalhar era quase impossível porque não tinha como entrar em contato com os turistas. Não tinha sinal. Quando conseguíamos carregar um pouquinho o telefone era por pouco tempo e, quando as mensagens chegavam, já tinham um ou dois dias de atraso. Foi um período de muita tristeza e de muitos prejuízos”, conta.​

Nem todos conseguiram sobreviver a combinação de pandemia com apagão no Amapá. “Teve comerciante que fechou as portas. O pequeno comerciante principalmente, com freezer cheio de frango, calabresa e outros produtos que se estragam com facilidade. Foi tudo para o lixo. Você via as pessoas chorando, sem poder fazer nada”, recorda Antonio.

Estabelecimentos comerciais às margens do Rio Amazonas: apagão provocou um prejuízo calculado em R$ 190 milhões à economia do Amapá(Foto: Ricardo Beda)
Estabelecimentos comerciais às margens do Rio Amazonas: apagão provocou um prejuízo calculado em R$ 190 milhões à economia do Amapá (Foto: Ricardo Beda)

Prejuízo de R$ 190 milhões na economia do Amapá

Manter um negócio aberto durante o blecaute foi um grande desafio. Com o estado às escuras, os comerciantes tentavam equilibrar prejuízos e responsabilidades de manter o pagamento dos funcionários em dia. “Não deixei de pagar meus funcionários. Mesmo durante toda aquela situação, com menos clientes e sem luz, não podia deixar de dar o salário a eles. Afinal eles são muito leais aqui há muitos anos”, afirmou Aldemar.

Outros empregadores do Amapá não puderam fazer o mesmo e precisaram demitir trabalhadores para não decretarem falência, o que aumentou o desemprego na época em todo o estado. Muitos desses funcionários precisaram ficar em casa, sem luz, sem ter como trabalhar e, logo, sem ter como receber.

Segundo informações da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) no Amapá, que representa cerca de 1.400 empresas – destas, 900 localizadas em Macapá – a maior parte dos empreendimentos locais é formado por microempresas e pequenos negócios, muitas vezes familiares, com até cinco funcionários. Ainda de acordo com a entidade, o blecaute levou a um fechamento significativo desses estabelecimentos, demissões e perda total de receita e, num contexto em que a população já enfrentava dificuldades para armazenar alimentos, o fechamento desses comércios agravou ainda mais a insegurança alimentar. “Até hoje as pessoas que recorreram pelos seus prejuízos não ganharam nada”, lamenta Bené.

De acordo com estimativas do Coletivo Nacional dos Eletricitários (CNE), órgão que reúne representantes de trabalhadores do setor elétrico, o prejuízo para a economia devido ao blecaute foi de R$ 190 milhões, levando em consideração o que não foi produzido durante o período. O cálculo foi feito com base no Produto Interno Bruto (PIB) do Amapá em 2019 e considerou o impacto da paralisação total pelo tempo que o estado ficou sem eletricidade. Na época, o jornal O Estado de S. Paulo teve acesso a um documento assinado pelo presidente da distribuidora CEA, Marcos do Nascimento, que afirmou que a empresa conseguiu suprir apenas 15% da demanda diária por energia elétrica.

Atualmente, Aldemar Pessoa e sua equipe se reergueram, e a lanchonete continua funcionando a todo vapor no Mercado Central de Macapá. “No fim, deu pra sobreviver. A gente sobrevive a qualquer caos, qualquer situação. Nós precisamos sobreviver”, afirma, com esperança. Assim como ele, centenas de comerciantes amapaenses seguem firmes, tentando até hoje conseguir uma indenização na justiça mas, para muitos, ainda sem resposta.

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Clarice Candido

Formada em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Clarice trabalhou nos jornais “O Dia” e “Meia Hora” e atua no setor de energia. Tem interesse em temas ligados a meio ambiente, mudanças climáticas, Amazônia, direitos humanos e transição energética. Ganhou o prêmio Expocom na categoria Reportagem Longform com “Entre o apagão e o apagamento”, republicada agora pelo #Colabora, em novo formato

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