Apagão torna Amapá estado de calamidade pública

Moradores de Macapá fazem fila para pegar água em carro-pipa: apagão deixa 13 municípios do Amapá sem energia e sem água (Foto: Prefeitura de Macapá)

Com 13 dos 16 municípios sem energia e sem água desde 3 de novembro, estado enfrenta situação caótica após incêndio em subestação elétrica

Por Amazônia Real | ODS 11ODS 7 • Publicada em 8 de novembro de 2020 - 11:53 • Atualizada em 18 de novembro de 2020 - 09:12

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Moradores de Macapá fazem fila para pegar água em carro-pipa: apagão deixa 13 municípios do Amapá sem energia e sem água (Foto: Prefeitura de Macapá)

Bianca Andrade*

Macapá (AP) – Após uma tempestade e um incêndio na subestação elétrica da concessionária privada Isolux Corsan na noite de terça-feira (03), o Amapá enfrenta um apagão de energia sem precedentes. A prefeitura da capital, Macapá, emitiu decretos de emergência e de calamidade pública. Mas são os moradores, sobretudo os das periferias e das comunidades, que mais sofrem com a interrupção de serviços essenciais, como abastecimento de luz e água, além do acesso à comunicação. Há relatos de brigas, tiros e filas enormes para comprar água mineral. Desesperados, os amapaenses pedem socorro pelas redes sociais.

O autônomo José Edival Batista, 58 anos, contou à agência Amazônia Real que enfrentou mais de seis horas na fila para abastecer o carro. Nesses três últimos dias, ele tem presenciado cenas lamentáveis. “Comerciantes jogando mercadorias fora, tudo descongelando. Os shoppings lotados de gente para carregar o celular. Temos amigos, parentes com crianças, idosos, pessoas doentes em casa e a gente não sabe como elas estão. Vou atravessar a cidade para ver como estão os pais e avós de uma amiga que está sem comunicação e sem combustível”, relatou.

A situação é caótica. Os postos têm combustível, mas poucos possuem gerador para alimentar as bombas. Nem todos os caixas eletrônicos das agências bancárias permitem sacar ou passar o cartão eletrônico. “É triste a situação. A criança chorando com calor e não ter água nem para fazer a higienização”, relatou Batista. “No aeroporto, uma falta enorme de humanidade e solidariedade com a população que ia carregar os celulares. O segurança disse que as tomadas eram para os passageiros ou quem estivesse em trânsito, e não para população. Fecharam os banheiros para não serem usados”.

População protesta diante de barricada da polícia: incerteza sobre volta da energia revolta moradores (Foto: Rudja Santos/Amazônia Real)

saiu briga, até tiros, na fila pra comprar água mineral. O pior: os governantes fazem previsões que qualquer pessoa com bom senso sabe que não é verdade. Prometeram que até as 19 horas da quinta-feira seria restabelecido 70% da energia. Depois de uma noite sem conseguir dormir, já é sexta-feira e nada de energia

José Edival Batista
Autônomo, morador de Macapá

A subestação incendiada é de responsabilidade da Isolux Corsan, empresa espanhola que teve sua concessão em 2010 para operá-la e mantê-la. Mas, diante da demora no reparo do apagão a estatal Eletrobrás Eletronorte mobilizou equipes técnicas para auxiliar os agentes do sistema elétrico. Em coletiva realizada na noite de quinta-feira (5), o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, afirmou que agentes de outros ministérios também irão se deslocar para o Amapá.

Com quatro hidrelétricas, o Amapá possui uma das tarifas de energia elétrica mais caras do Brasil. A população já vinha se manifestando contra a precariedade dos serviços oferecidos e pedindo providências pelas constantes quedas de energia. Dos 16 municípios do estado, apenas Laranjal do Jari, Vitória do Jari e Oiapoque estão com luz, pois são abastecidos por sistemas independentes.

Brigas, tiros e protestos

O ambiente é de tensão e a polícia montou bloqueio nas ruas. “Hoje saiu briga, até tiros, na fila pra comprar água mineral. O pior: os governantes fazem previsões que qualquer pessoa com bom senso sabe que não é verdade. Prometeram que até as 19 horas da quinta-feira seria restabelecido 70% da energia. Depois de uma noite sem conseguir dormir, já é sexta-feira e nada de energia”, disse Batista. “Difícil, complicada, calamitosa, é pouco pra definir o que estamos passando. Sem energia, sem água potável, sem telefone, uma pequena parcela da população tem internet péssima, filas enormes para comprar água mineral, quando encontra”, acrescentou.

Embora o problema tenha começando na terça-feira (3), somente dois dias depois o governador Waldez Góes (PDT) autorizou o aluguel de um gerador para a companhia de água. O atraso na medida revoltou os moradores, como o autônomo Batista. “Eles sabiam da real situação, poderiam ter amenizado pelo menos as consequências da falta d’água. Eles não estão nem aí, porque pra eles não falta nada. Eles têm tudo, duvido que estejam sem água e sem energia”, protestou. Famílias com poder aquisitivo mais elevado estão se hospedando em hotéis que possuem geradores. O estado do Amapá tem uma população estimada em 860 mil habitantes – quase 800 mil estão sem energia.

Morador de Macapá atira pedra durante protesto contra a falta de energia na noite de sexta-feira: dias de tumulto em todo o Amapá ((Foto: Rudja Santos/Amazônia Real)
Morador de Macapá atira pedra durante protesto contra a falta de energia na noite de sexta-feira: dias de tumulto em todo o Amapá ((Foto: Rudja Santos/Amazônia Real)

Na quinta-feira (5/11), o governo estadual apresentou o planejamento do governo federal e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para o restabelecimento da energia no Amapá. A promessa é que, no curto prazo, seja recuperado o transformador danificado no incêndio, permitindo que 13 municípios voltem a restabelecer até 70% da energia. Mas a nota oficial divulgada pelo governo não define prazos. Geradores estão sendo levados de Manaus para Macapá. Em 15 dias, chegará um segundo transformador de Laranjal do Jari, com capacidade de 100 MWA. E em um mês um terceiro transformador será trazido de Boa Vista (RR). Os dois últimos equipamentos devem ainda ser desmontados, retirados o óleo interno, transportados por barcas e caminhões e remontados.

Em meio à incerteza sobre o retorno da eletricidade e sem o cronograma de fornecimento por bairros e municípios, houve protestos de moradores nas cidades de Macapá, com queima de pneus e brigas, que começaram na noite de sexta-feira (6) e se estenderam pelo fim de semana. A Polícia Militar estabeleceu bloqueio em ruas para tentar conter os protestos, mas houve tumulto, com a PM tentando dispersar manifestantes com bombas de gás e moradores revoltados atirando pedras nos policiais.

Questionado sobre um transformador que está em revisão desde dezembro de 2019 e não ter voltado da manutenção, o ministro Bento Alburque informou que instituiu um Gabinete de Gestão de Crise, coordenado também pelo ONS, da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), Eletrobrás e LMTE, e anunciou a abertura de uma investigação. A apuração do incidente terá um prazo de 30 dias, quando serão apresentados uma análise final e o encaminhamento das informações.

Moradores de Macapá à luz de lampião: com calor acima de 35 graus, população passa parte da noite na rua (Foto: Rudja Santos/Amazônia Real)
Moradores de Macapá à luz de lampião: com calor acima de 35 graus, população passa parte da noite na rua (Foto: Rudja Santos/Amazônia Real)

O ‌Ministério‌ ‌Público‌ ‌Federal‌ ‌(MPF)‌ também tomou medidas ‌para ‌apurar‌ ‌as‌ ‌possíveis‌ ‌responsabilidades‌ ‌das‌ ‌empresas‌ ‌e‌ ‌órgãos‌ ‌envolvidos‌ ‌no‌ ‌apagão‌ ‌ ‌do‌ ‌Amapá.‌ ‌Os procuradores da República dão prazo de 24 horas para o governo do Amapá informar os planos de ação traçados para o restabelecimento da energia em todo o estado. A Justiça Federal determinou neste sábado (7) o prazo de três dias para que o apagão no Amapá seja completamente solucionado, sob pena de multa de R$ 15 milhões. O juiz João Bosco Costa Soares da Silva determinou também que a empresa privada responsável pela administração da subestação, deve apresentar em até 12 horas um plano de ações para o restabelecimento de serviço de energia elétrica e que deve receber sanções contratuais.

Apagão no meio da pandemia

Em plena pandemia da Covid-19, o desespero dos amapaenses não poderia ser maior. Não há água nem para lavar as mãos, uma das medidas para conter a disseminação do novo coronavírus. De acordo com o último boletim epidemiológico do governo do Amapá, com data de 3 de novembro, 99 pessoas estão internadas em leitos públicos, 29 na rede privada e 7.375 em isolamento domiciliar.

O enfermeiro Anderson Amoras Barata, 39 anos, trabalha na saúde há 20 anos. Em abril, ele e sua família foram acometidos pela Covid-19, e não esperavam passar por nossos desafios, até a ocorrência do apagão. À Amazônia Real, Anderson recordou que em seu trabalho, tanto ele quanto a grande maioria de seus colegas de profissão foram acometidos pela doença. Ele perdeu alguns companheiros e amigos próximos. O apagão surge como um pesadelo.

Anderson alertou que no trabalho nem todas as unidades de saúde dispõem de geradores, o que causa apreensão. A falta de combustível já afetou alguns hospitais. Ele explica que os equipamentos tipo respirador mecânico, possuem bateria que normalmente duram em média 3 horas de tempo. “A partir daí, é bronca. Eu diria que é mais uma ameaça para quem está lutando pela vida”. E ressalta: “Está sendo usado muito combustível, em especial o óleo diesel, se faltar, pode ocorrer mais fatalidades”.

*Amazônia Real

Amazônia Real

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