O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o retorno da ofensiva contra a crise climática na agenda internacional e pediu o fim do negacionismo em seu discurso de abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (22/08). “Até pouco tempo, a resposta à mudança climática estava consolidada no centro da agenda internacional. Este ano, o tema desapareceu dos debates do G7, nos debates do G20, fóruns que reúnem os maiores emissores de carbono do mundo. É hora de retomar a ofensiva e impor uma derrota ao negacionismo”, disse Lula.
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No discurso, seu décimo na ONU e a última do atual mandato, o presidente brasileiro também mencionou o derretimento das geleiras do Himalaia – que provocou a tragédia no Nepal no final de agosto – e a chegada de um El Niño de proporções históricas. “Um Super El Niño pode provocar chuvas torrenciais, secas e incêndios florestais em diferentes partes do globo. Seus efeitos golpearão sobretudo os mais vulneráveis”, enfatizou.
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Veja o que já enviamosO discurso, de 18 minutos, foi um misto de jogo para a plateia doméstica, algo esperado às portas de uma eleição crucial – houve espaço até para a defesa do PIX e do fim da escala 6×1 –, e de uma intervenção de estadista, ticando todas as caixinhas dos problemas globais apontados antes de Lula pelo secretário-geral da ONU, António Guterres. O presidente queixou-se da paralisia das Nações Unidas, criticou a “corrida sem freios éticos” da inteligência artificial, fustigou nominalmente Binyamin Netanyahu pelo genocídio em Gaza (na hora, as câmeras mostraram a delegação israelense se agitando nas cadeiras) e disse que as concessões à lei do mais forte “já passaram dos limites”.
Sem citar Donald Trump, Lula desfiou um longo rosário de ameaças à soberania e denunciou a interferência das “tentações hegemônicas” dos EUA na América Latina. “A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos”, afirmou, depois de dizer que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Ao mesmo tempo em que repeliu o hegemon, porém, Lula achou por bem se justificar em relação às falsas acusações de Trump de que o Brasil seria um paraíso para “narcoterroristas” – e detalhou as ações de seu governo para combater o crime organizado transnacional.
Acertadamente, denunciou a hipocrisia de Trump ao impor tarifas ao Brasil usando como desculpa um suposto descontrole ambiental. “Temos autoridade moral para rejeitar medidas protecionistas disfarçadas de apego à causa ambiental”, afirmou.
Ao citar os minerais críticos e terras raras, Lula defendeu que a exploração tenha como contrapartida obrigatória a geração de valor em território nacional, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais. “Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro e é em benefício dele que serão exploradas”, disse.
Ainda na área ambiental, Lula afirmou que o Brasil seguirá adiante com o mapa do caminho para superação da dependência de combustíveis fósseis (ou para a “descarbonização da economia”, nas palavras do presidente). O plano, prometido desde dezembro por um despacho presidencial, até hoje não saiu do papel, e o Ministério de Minas e Energia mal disfarça a intenção de enterrá-lo.
No entanto, ao mesmo tempo em que defendeu o avanço da agenda de transição energética, Lula perdeu uma boa chance de ficar quieto ao afirmar que o Brasil continuará explorando petróleo, inclusive na região da Foz do Amazonas. “Conquistamos nossa autossuficiência em petróleo e seguiremos pesquisando o potencial de novas reservas, como a da Margem Equatorial.”
Contradições e bizarrices domésticas à parte, Lula acertou a mão em sua fala. E lembrou, ao final, o que está em jogo nas eleições que ocorrem em menos de duas semanas. Brasileiras e brasileiros vão às urnas para decidir “entre democracia e negacionismo”, num pleito em que candidatos “abusam da liberdade de expressão para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país”. Resta saber se os eleitores entenderão o recado.
Guterres ataca fósseis e cobra poluidores
O secretário-geral das Nações Unidas que mais fez para que a crise climática ocupasse o centro da agenda global se despediu da Assembleia-Geral nesta terça-feira (22/08) com dois recados: primeiro, quem mais fez para causar o problema – as grandes petroleiras – deve pagar para solucioná-lo. Segundo, todos os países precisam desenvolver seus próprios mapas do caminho para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis.
Em seu discurso na abertura da 81a sessão da Assembleia-Geral, António Guterres, 77, que deixará a ONU em dezembro após uma década de mandato, disse que a emergência climática é um dos quatro grandes testes do exercício do poder no mundo neste século (os outros três são as guerras, a desigualdade e a inteligência artificial).
“De muitas maneiras, este é o mais profundo desequilíbrio de poder de todos: uma geração consumindo o futuro da outra; um grupo lucrando, enquanto os menos responsáveis sofrem primeiro e em maior grau”, afirmou o diplomata português. Citando a tragédia do Nepal, Guterres disse que três anos atrás foi ao Himalaia e soou o alarme sobre “o teto do mundo estar cedendo”. “Alguns minimizaram dizendo que era exagero, mas, como eventos trágicos mostraram, os impactos estão chegando mais cedo, mais graves e se espalhando mais do que muitos previam.”
Ao lembrar que o mundo está à beira de ultrapassar o limite de aquecimento de 1,5oC do Acordo de Paris, o secretário-geral também ressaltou que a última década assistiu a “uma das maiores transições de poder do nosso tempo”, a ascensão vertiginosa da energia limpa, com a queda do preço da eletricidade eólica e solar. “Um futuro além dos combustíveis fósseis está à vista. A questão é como”, disse.
Guterres lembrou os lucros das cinco maiores petroleiras – meio trilhão de dólares em quatro anos – e os comparou aos US$ 34 bilhões do Fundo de Adaptação. Ele voltou a pedir uma transição energética justa, ordenada e equitativa, chamando todos os governos “a adotar um plano nacional para transitar para longe dos combustíveis fósseis alinhado com 1,5grau, com um calendário claro e proteção para trabalhadores e comunidades”.
Guterres elevou o volume dos discursos pró-clima e passou a alvejar sem meias-palavras a indústria do petróleo. Foi autor de tiradas memoráveis, como “abrimos a porta do inferno” e “entramos em um período de ebulição global”. Segundo Michael Bloomberg, o bilionário ex-prefeito de Nova York, Guterres foi a pessoa que mais fez para manter o clima na agenda multilateral, e isso enfrentando de saída um Brexit e um governo Trump.
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