Pressão política limita autonomia e adoece professores, mostra pesquisa

Foto colorida que mostra uma professora de costas e escrevendo em um quadro. Em primeiro plano, aparecem várias crianças também de costas.
Foto colorida que mostra uma professora de costas e escrevendo em um quadro. Em primeiro plano, aparecem várias crianças também de costas.
Pesquisa mostra insegurança e medo de represálias no cotidiano de muitos professores (Foto: Isabella Mayer/SECOM – Prefeitura de Curitiba)

Estudo traz dados sobre como a politização nas escolas limita a autonomia dos docentes. Relatos expõe precarização e adoecimento da categoria

Por Micael Olegário | ODS 4

Publicado em 22/09/2026 - 09h00

Tempo de leitura: 16 min

“Estamos adoecendo, cansados, desvalorizados, com medo de agir, falar, contrariar, com medo de represálias”. O relato é de um dos participantes de pesquisa com 2.235 profissionais da educação básica pública. O estudo revela que 75,6% das professoras e professores no Brasil temem sofrer consequências profissionais caso suas decisões contrariem interesses políticos.

Divulgada nesta terça-feira (22/09), a nota técnica “Politização no cotidiano das escolas: um olhar para a prática docente” oferece um retrato sobre as pressões e a falta de autonomia da classe responsável pela educação das futuras gerações de brasileiros. A pesquisa foi realizada pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP) em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).

O levantamento ouviu professores dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio de todas as regiões do país, entre 23 de junho e 20 de agosto deste ano, por meio de um questionário online.

A nota ressalta que a amostra não permite fazer generalizações, porém, os dados mostram algo de fácil identificação em muitos contextos: a crescente politização de temas do cotidiano escolar, como conteúdos de biologia ou geografia.

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Segundo a pesquisa, 61,7% dos docentes entrevistados sentem que a pressão política limita sua autonomia para exercer o trabalho como consideram adequado. Outros 66,8% afirmam que decisões rotineiras do trabalho podem ser interpretadas como posicionamento político, e 71,7% relatam que sua atuação está hoje mais exposta a críticas políticas do que no passado.

“A pressão vem de duas frentes: ou porque se trabalha certo conteúdo considerado mais sensível pela família ou porque não se trabalha. E a pressão vem por ameaça de denúncia, nunca para uma conversa, para saber os motivos do planejamento didático ser daquela forma”, relata outro docente no estudo.

Os principais temas alvo de pressão são gênero, sexualidade, religião, questões étnico-raciais e conteúdos políticos e de cidadania, como explicar o funcionamento da democracia e das eleições. A nota técnica associa a percepção de politização a movimentos como o Escola Sem Partido e à atuação de parlamentares que acusam professores de “doutrinação política” em sala de aula. 

A nota cita ainda dados do levantamento do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE), feito a partir de entrevistas com mais de 3 mil profissionais da educação de todas as regiões. Nesse outro estudo, a grande maioria relatou ter sofrido, presenciado ou tomado conhecimento de situações de censura ou perseguição entre 2010 e 2024. 

Precarização e adoecimento

O Brasil possui 2,4 milhões de docentes registrados, dos quais 1,9 milhões em escolas públicas. No entanto, a categoria lida com condições de trabalho adversas e um desinteresse crescente pela profissão. Projeção feita pelo Instituto Semesp indica o risco de um “apagão” de professores, com um déficit na educação básica que pode chegar a 235 mil em 2040.

“Eles (professores) estão com medo de tomar decisões, porque estão se sentindo expostos e estão mudando procedimentos e práticas para evitar alguns tipos de conflito”, aponta Gabriela Lotta, pesquisadora da FGV EAESP e uma das responsáveis pelo estudo. Segundo ela, outro elemento que influencia a insegurança em sala de aula é a pressão institucional.

“Muitos professores adoecem de tanta pressão que sofrem pela gestão, que também é vítima de pressão por parte das Unidades Regionais de Ensino e essa por parte da Secretaria da Educação”, aponta outro relato da pesquisa.

Os números gerais da pesquisa reforçam essa percepção: apenas 33,7% dos professores consideram que as ações de sua escola se baseiam sempre ou frequentemente em critérios técnicos, sem interferência política. Por outro lado, 56,3% dizem confiar na direção de sua escola e 54,9% acreditam que serão apoiados pela direção em eventuais conflitos com famílias.

Tivemos relatos, por exemplo, de professores que não estão mais podendo adotar o nome social dos alunos, mesmo quando os alunos requerem isso. Ouvimos professores que estão com medo de dar aulas sobre saúde reprodutiva e como os bebês são gestados

Gabriela Lotta
Pesquisadora da FGV e uma das coordenadoras do estudo

Gabriela explica que as redes de educação possuem características diferentes, em virtude da descentralização da gestão pelos Estados e municípios. “É importante lembrar que na maioria dos municípios do Brasil, os diretores são indicados politicamente, o que faz o sistema todo já ser de alguma forma politizado”, complementa.

A nota técnica evidencia uma contradição na experiência docente brasileira: enquanto o discurso oficial exalta a autonomia pedagógica, a prática cotidiana é marcada por vigilância, medo de retaliação e cerceamento profissional.

“Os professores estão exaustos e doentes. Não temos apoio do governo, não temos apoio da comunidade nem dos familiares dos alunos. Somos taxados de doutrinadores e preguiçosos. Há muita burocracia, aprovações instantâneas e falta de respeito com os professores. Precisamos de valorização salarial e apoio. Estamos com medo, cansados e desestimulados”, escreveu outro participante da pesquisa.

Foto colorida de sala de aula em Santarém. Na imagem, aparece um professor de pé no canto direito da imagem, ele é um homem negro e usa uma camiseta azul. Crianças aparecem sentadas em cadeiras azuis diante de classes azuis.
No Pará, professores que adoecem acabam perdendo gratificação por estar em sala de aula (Foto: Agência Santarém)

Realidades distantes, pressões semelhantes

A reportagem do #Colabora entrou em contato com sindicatos que representam profissionais da educação das diferentes regiões do Brasil. O objetivo foi compreender as pressões institucionais em realidades distintas. Até o momento da publicação, conseguimos retorno apenas dos sindicatos do Pará e do Rio Grande do Sul.

Coordenador do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação Pública do Estado do Pará (SINTEPP), Robson Bastos destaca que, desde a pandemia, os docentes têm sido pressionados à facilitar a aprovação de alunos, de forma a melhorar o desempenho da rede estadual em avaliações, como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

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O foco nos indicadores da educação envolve ainda aumentar as cargas horárias de disciplinas como matemática e língua portuguesa, o que está previsto também no Novo Ensino Médio. Segundo Robson, isso tem gerado sobrecarga de trabalho e adoecimento de muitos professores. Ao mesmo tempo, docentes de outras áreas têm sua carga diminuída e precisam se dividir entre muitas turmas.

No Rio Grande do Sul a situação não é muito diferente. Presidenta do Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS Sindicato), Rosane Zan cita a padronização do currículo promovida pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como outro elemento que afeta a autonomia docente, priorizando métricas e impondo tarefas burocráticas.

“O Ideb tem que ser um fator de valorização e de organização do ensino à aprendizagem, independente da disciplina que é ministrada dentro do espaço da escola”, defende Rosane. Para ela, a desvalorização da categoria é também uma forma de violência.

Métricas e adoecimento

Em outubro de 2025, o governo do Rio Grande do Sul anunciou o Programa de Reconhecimento da Educação Gaúcha, iniciativa que vincula o reconhecimento com indicadores educacionais, com pagamento de uma bonificação aos professores e servidores da rede com base no desempenho das escolas. O Cpers Sindicato se manifestou contrário à proposta, em virtude da lógica meritocrática que não considera as desigualdades estruturais entre as escolas.

Segundo Rosane, o programa e a oferta do “14° salário” como um bônus atrelado às métrica cria um ambiente de competição nas escolas. “Quando o professor deveria estar mais preocupados em preparar uma boa aula, ele está preocupado em responder as metas”, comenta. A sindicalista relaciona esse processo e essas pressões por métricas com o aumento de casos de burnout e com o adoecimento de docentes.

“O índice de adoecimento de professor no trabalho é muito grande”, pontua Robson Bastos. Uma estimativa repassada ao sindicato pela própria Secretaria Estadual de Educação do Pará (Seduc) indica que 1.700 profissionais estão em readaptação por conta de problemas de saúde. Porém, ao serem afastados por adoecimento, estes docentes perdem uma gratificação por estar em sala de aula.

“Ele (professor) perde a bonificação e vai trabalhar em secretaria, com uma carga horária diferente, com aumento de trabalho. Então, quando o professor mais precisa de suporte para cuidar da doença que adquiriu no seu trabalho, ele tem a remuneração reduzida e a sua carga de aumentada”, aponta Robson.

Em fevereiro de 2025, o governo e a assembleia estadual revogaram a Lei nº 10.820/2024 após mobilização de professores e indígenas, inclusive, com ocupação do prédio da Seduc por aproximadamente um mês.

O coordenador do Sintepp cita a lei como um exemplo da tentativa de retirar direitos da categoria. O texto também permitia a substituição do regime presencial por aulas exclusivamente virtuais em escolas indígenas do estado.

Foto colorida de sala de aula com diversas estudantes e uma professora no canto direito. Ela é uma mulher negra e está de pé, usando uma camiseta cinza
Professores enfrentam precarização e críticas por tentar implementar lei sobre estudo de cultura afro-brasileira (Foto: Ramon Belmonte / Prefeitura de Novo Hamburgo)

Racismo e negacionismo

Em maio deste ano, a Justiça condenou um homem em um caso de discriminação contra uma professora de uma escola estadual no litoral norte de Santa Catarina. Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público, o pai compareceu à unidade de ensino após tomar conhecimento de que a filha havia participado de aula sobre cultura afro-brasileira. No local, o homem acusou a professor de “doutrinação” religiosa, além de fazer referências depreciativas às religiões de matriz africana e à identidade racial da docente.

Em novembro do ano passado, quatro policiais militares armados, um deles com uma metralhadora, entraram na Escola Municipal de Ensino Infantil (EMEI) Antônio Bento, no Caxingui, zona oeste de São Paulo. O caso ocorreu após um pai denunciar que a filha era “obrigada a ter aula de religião africana”, porque fez um desenho da orixá Iansã.

Os dois casos ilustram o preconceito e as perseguições contra professores que tentam cumprir a lei n° 11.645/2008. A norma determina o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena como elemento obrigatório no currículo das redes de ensino do país e tem sido alvo de parlamentares conservadores na Câmara.

O racismo também apareceu nos depoimentos coletados na pesquisa da FGV EAESP e da CNTE. “Tivemos relatos de professores dizendo que nas aulas de artes não podem abordar certos tipos de música que estão associados à cultura afrodescendente, porque teve diretrizes da sua gestão direta”, conta Gabriela Lotta.

Outro aspecto frequentemente politizado nas escolas são os debates sobre gênero. “Tivemos relatos, por exemplo, de professores que não estão mais podendo adotar o nome social dos alunos, mesmo quando os alunos requerem isso. Ouvimos professores que estão com medo de dar aulas sobre saúde reprodutiva e como os bebês são gestados”, descreve Gabriela.

O negacionismo não para por aí. Em pesquisa anterior que foi base para o questionário, com entrevistas de 30 professores da rede municipal de São Paulo, Gabriela teve contato com o relato de uma professora que foi criticada por ensinar que a terra não é plana. “O aluno foi para casa e, no dia seguinte, o pai do aluno foi na escola brigar com a professora, porque a terra seria plana”.

Envelhecimento da categoria

Divulgada no dia 16 de setembro pelo Instituto Semesp, a segunda edição da pesquisa “Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil” revela uma outra dimensão da precarização da carreira docente no Brasil. O estudo revela que o número de professores do ensino médio com até 24 anos caiu 31,1% entre 2015 e 2025, enquanto o contingente de docentes com 60 anos ou mais aumentou 104,5% no período

Na comparação entre 2015 e 2025, a entidade constatou que o número de professores com até 24 anos diminuiu de 17,3 mil para 11,9 mil. Já o contingente de profissionais com idade a partir de 60 anos mais que dobrou, passando de 18,2 mil para 37,3 mil. Em 2040, a estimativa é de um professor de até 24 anos para cada seis docentes com 60 anos ou mais.

Além do envelhecimento, o estudo da Semesp identificou um aumento expressivo no número de contratações temporárias. O número de professores nessa condição passou de 146 mil para 205 mil entre 2015 e 2025, um crescimento equivalente a 40,4%. Os docentes com esse tipo de vínculo já respondem por 43,4% ou quase metade do quadro público.

Para Gabriela Lotta, os resultados dos dois levantamentos convergem. “O professor já enfrenta muita dificuldade, mas sonha que aquilo faz diferença, porém, quando vai para a escola e nem fazer diferença ele não pode mais, porque será acusado, criticado. Isso gera problemas de saúde mental e diminui a vontade das pessoas de entrarem na carreira docente”, destaca a pesquisadora.

No contexto do Pará, Robson Bastos menciona o aumento de contratação de professores temporários, em percentuais que se aproximam da média nacional. O líder sindical cita mudanças que retiram gratificações dos docentes com este tipo de vínculo e a incerteza sobre a incerteza em relação aos direitos da categoria em novos concursos. Tudo isso, contribui para a diminuição no interesse pela profissão.

Segundo Gabriela, apesar de todos os desafios, a tarefa de ensinar ainda está muito relacionada com uma “vocação” pessoal. Os números comprovam isso, uma vez que 96,3% dos profissionais ouvidos pela FGV EASP e pela CNTE consideram importante contribuir para o bem-estar da sociedade. Além disso, 88,6% avaliam positivamente sua relação com os alunos.

“Parece até contraditório, mas eu diria que se o professor perder essa boa relação com os alunos, ele vai sair de sala de aula e procurar uma outra profissão”, aponta a pesquisadora. 

A pesquisa sobre politização nas escolas integra um projeto mais amplo sobre o impacto da polarização política nas condições de trabalho de profissionais da linha de frente dos serviços públicos. 

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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