Bolsonaro na ONU: 10 mentiras ambientais em 4 minutos

Arte: Claudio Duarte

Presidente ignora país em chamas, diz que é Brasil é vítima de campanha de desinformação e tenta distorcer fatos e dados

Por Oscar Valporto | ODS 14ODS 15 • Publicada em 22 de setembro de 2020 - 17:13 • Atualizada em 30 de setembro de 2020 - 08:53

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Arte: Claudio Duarte

Em discurso lido e gravado, de pouco mais de 14 minutos, na abertura da 75ª Assembleia Geral da Organizações Unidas, o presidente Jair Bolsonaro disparou uma série de mentiras e impropriedades sobre a questão ambiental – mesmo enquanto o mundo inteiro assiste ao Brasil em chamas no Pantanal e na Amazônia. Além de insistir nas fantasias – “sofremos uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre o Pantanal e a Amazônia” – sobre as queimadas, o presidente conseguiu ainda citar a cloroquina, acusar parte da imprensa de “disseminar o pânico” sobre a pandemia, atacar o lema “fique em casa”, fazer um apelo de “combate à cristofobia” e, sem surpresa, elogiar o colega norte-americano Donald Trump por suas iniciativas no Oriente Médio, “que finalmente acendem uma luz de esperança para aquela região”.

Foram muitos absurdos em pouco tempo, principalmente em relação ao meio-ambiente. Nos quatro minutos dedicados ao tema, Bolsonaro deu 10 declarações mentirosas, uma a cada 24 segundos. O Fakebook.eco – plataforma organizada pelo Observatório do Clima de combate à desinformação ambiental, da qual o #Colabora é parceiro – listou os piores – e falsos – momentos do discurso de Bolsonaro na ONU ao ter como foco (não confundir com fogo) o meio-ambiente.

1. “Os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação”, disse Bolsonaro. Não é verdade. Queimadas já devastaram 21% do Pantanal. Até 21/09 foram 16.119 focos, número mais alto em 23 anos de monitoramento. Ibama, principal órgão de fiscalização, executou só 30% do orçamento para fiscalização até agora.

2. “Buscamos a regularização fundiária, visando identificar autores de crimes”, Outra mentira. O Brasil reduziu desmatamento em 73% entre 2004 e 2009 sem mexer na lei de terras. Em 2019, Bolsonaro regularizou 6 (SEIS) propriedades, contra média anual de 3.190 entre 2009-2018.

3. “Os incêndios ocorrem no entorno leste da floresta, em áreas já desmatadas”. MENTIRA, aponta o Fakebook. As queimadas ocorrem por desmatamento, práticas agrícolas e incêndios que escapam para florestas. A Nasa mostrou que 54% dos focos têm origem em desmatamentos recentes.

4. “Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta,  onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência”. Também não é verdade. Na Amazônia, estudo do Ipam aponta para  a alta proporção de focos em propriedades privadas e assentamentos, possivelmente devido à conversão de florestas em outros usos, e em florestas públicas não destinadas, como resultado da grilagem e da ação de criminosos interessados em especular com a terra.

5. Fogo no Pantanal é “consequência da alta temperatura somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição”, disse Bolsonaro, ignorando informações dos seus próprios agentes. A Polícia Federal identificou cinco proprietários rurais como suspeitos de dar início aos incêndios mais graves. O Instituto Centro Vida mostrou que 9 incêndios deram origem à tragédia e 5 estavam em fazendas do Pantanal.

Bolsonaro ao gravar seu discurso para a abertura da Assembleia da ONU: mentiras e falsidades sobre o meio ambiente (Foto: Presidência da República)
Bolsonaro ao gravar seu discurso para a abertura da Assembleia da ONU: mentiras e falsidades sobre o meio ambiente (Foto: Presidência da República)

6. “Nosso Pantanal (…) assim como a Califórnia, sofre dos mesmos problemas” (de incêndios e desmatamento ilegal), afirmou o presidente na ONU. O Fakebook lembra que a Califórnia pega fogo por conta do aquecimento global. Não há fronteira agrícola. A extensão dos incêndios lá, os piores da história, é de menos da metade do Pantanal até agora.

7. Brasil é uma vítima de “campanha internacional escorada em interesses escusos”. Também não é verdade. Não há qualquer evidência de ligação entre ONGs e cientistas que denunciam o desmatamento e interesses comerciais. Ao contrário, lembra o Fakebook, os protecionistas europeus torcem por desmatamento.

8. “Somos líderes em conservação de florestas tropicais”, disse Bolsonaro, tentando aproveitar da pujança amazônica e de ações de governos anteriores para encobrir o seu fracasso. O Brasil foi o país que mais desmatou florestas tropicais no mundo: concentrou mais de um terço de toda a perda, segundo a Global Forest Watch.

9. O presidente exagerou também dados do país, afirmando que o Brasil tem “27% do território para agricultura e pecuária, números que nenhum país possui”. O Brasil tem 30% do território em agropecuária. O número está na média mundial.

10. “Em 2019, o Brasil foi vítima de um criminoso derramamento de óleo venezuelano, vendido sem controle”. Infelizmente, não foi possível determinar até o momento nem se a Venezuela teve envolvimento no derramamento nem se a ação foi de cunho criminoso, como disse o presidente em seu discurso.

Como provado pelas declarações sobre a Amazônia, o Pantanal e as questões ambientais, a mentira é um método de discurso. Pedimos aqui licença aos colegas do site de checagem Aos Fatos para listar outras falsidades no discurso de apenas pouco menos de 15 minutos de Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU. Reportagem do site também mostra imprecisões, contradições, exageros e até alguns poucos fatos verdadeiros citados pelo presidente brasileiro no discurso.

1. “Desde o princípio, alertei, em meu País, que tínhamos dois problemas para resolver: o vírus e o desemprego, e que ambos deveriam ser tratados simultaneamente e com a mesma responsabilidade”.  Declaração falsa, atesta Aos Fatos.  “O discurso de Bolsonaro sobre a pandemia realmente foi, desde o começo, que o coronavírus traria dois problemas ao Brasil, um econômico e um de saúde pública. O presidente, porém, não tratou as duas questões com o mesmo peso, já que, desde o início da pandemia no país, ele tem minimizado os efeitos da Covid-19. Em diversas entrevistas e declarações públicas, Bolsonaro relacionou a doença a uma “gripezinha” e chegou a dizer, em discurso realizado no dia 18 de setembro, que o isolamento social seria “conversinha mole” e que as medidas de restrição de circulação seriam para “os fracos”.

2. “Por decisão judicial, todas as medidas de isolamento e restrições de liberdade foram delegadas a cada um dos 27 governadores das unidades da Federação. Ao Presidente, coube o envio de recursos e meios a todo o País”.  A declaração também é falsa   Na verdade, o que o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu foi que o governo federal deveria respeitar a autonomia de estados e municípios para tomar medidas de isolamento contra a Covid-19, mas que o dever de combater a pandemia era compartilhado entre todas as instâncias do poder público.

3. “Como um membro fundador da ONU, o Brasil está comprometido com os princípios basilares da Carta das Nações Unidas: paz e segurança internacional, cooperação entre as nações, respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais de todos”. A declaração de Bolsonaro contradiz ações que vêm sendo adotadas por seu governo, principalmente quando o assunto é direitos humanos. Em dezembro de 2019, o Conselho Nacional dos Direitos Humanos apontou que o governo de Jair Bolsonaro havia violado 36 vezes o Programa Nacional de Direitos Humanos do início do mandato, em janeiro, até novembro daquele ano

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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