ODS 1
Carla, Yoko, eu e você: a misoginia nem precisa saber um nome
Agredida por desconhecido, influenciadora mostra que a violência de gênero não depende de vínculo, intimidade ou endereço compartilhado
Como muitas das pessoas de bom gosto do Rio, Carla Lemos estava vivendo a vida em uma roda de samba no último fim de semana, cercada de amigos, em uma casa que frequentava. Voltava do banheiro quando pediu a um homem bêbado, que cambaleava sobre as pessoas, que se afastasse um pouco. A resposta foi um empurrão, seguido de socos. Carla conta que só depois, no ambulatório, soube por testemunhas que ele havia puxado suas tranças e continuado a agredi-la no chão. Mais de cinco homens teriam sido necessários para contê-lo. Ela levou seis pontos no supercílio.


E há uma coisa nessa história que desmonta boa parte do repertório de precauções que aprendemos a incorporar desde meninas: Carla NUNCA tinha visto aquele homem. Não havia relação abusiva a ser identificada, encontro que pudesse ser evitado, sinal anterior a perceber. Ela estava acompanhada, num lugar conhecido, existindo. Ainda assim, bastou um maldito desconhecido se sentir contrariado para que ele se sentisse autorizado a transformar seu corpo no destinatário de uma raiva que sequer havia começado com ela.
Leu essa? Homens, a culpa é de vocês
A ideia de que mulheres podem administrar a própria segurança não resiste muito bem a uma história dessas. Podemos compartilhar localização, vigiar o copo, evitar determinadas ruas, andar acompanhadas, calcular horários e trajetos. Fazemos tudo isso porque aprendemos a tratar a violência masculina como uma variável permanente da vida cotidiana. Mas o caso de Carla acrescenta uma verdade dura de engolir: nenhum desses cuidados resolve o problema quando o perigo não depende do nosso comportamento. A vulnerabilidade está dada antes de qualquer escolha.
Judith Butler ajuda a pensar essa distribuição desigual da vulnerabilidade quando pergunta quais vidas são reconhecidas social e politicamente como vidas que merecem proteção. Não é que determinados corpos literalmente não importem, mas que não importam da mesma maneira: alguns permanecem muito mais disponíveis à violência do que outros. No primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou 741 feminicídios, cerca de quatro mulheres assassinadas por dia. O dado foi divulgado pelo Ministério da Justiça como uma redução de 2,5% em relação ao mesmo período de 2025. Há alguma coisa profundamente perturbadora em termos chegado ao ponto em que quatro mulheres mortas por dia cabem estatisticamente na categoria de melhora.
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Veja o que já enviamosE sempre penso também no caráter maquiavelicamente recreativo de violar corpos femininos. Em “Cut Piece”, performance apresentada por Yoko Ono pela primeira vez em 1964, a artista permanecia sentada enquanto integrantes da plateia recebiam uma tesoura e podiam cortar suas roupas. As imagens da obra mostram a interação do público começando com pequenos cortes nas mangas, avançando para pedaços cada vez maiores da roupa até chegar a um homem cortando as alças do sutiã de Yoko Ono, enquanto a plateia assiste e ri. Quando ninguém interrompe a primeira violência, o agressor entende o silêncio como permissão para avançar sobre o corpo da mulher. É uma experimentação do quanto é possível fazer quando nenhuma consequência interrompe o gesto.
E foi exatamente o que aconteceu com o agressor da Carla. Depois de receber atendimento médico, ela foi à delegacia e, enquanto aguardava para prestar depoimento, o agressor passou pelo local e mandou um beijo. A delegada responsável pelo plantão não estava fisicamente no local e avaliou remotamente o flagrante a partir das informações encaminhadas. Carla afirma que sua advogada questionou se a agressão não configuraria violência de gênero e ouviu que não havia elementos suficientes. O homem foi liberado.
Um relato individual evidentemente não dá conta de diagnosticar todo um sistema, mas é difícil ignorar a distância entre sofrer a violência e conseguir que ela seja reconhecida institucionalmente em toda a sua dimensão. Isso acontece dentro de estruturas policiais ainda majoritariamente masculinas. Seria simplista dizer que policiais homens necessariamente protegem menos mulheres. A questão é outra: instituições carregam a história e os desequilíbrios da sociedade que as produziu, e a presença minoritária de mulheres nos espaços de decisão da segurança pública não é irrelevante quando discutimos como a violência de gênero é percebida, classificada e enfrentada.
O caso chega justamente quando essa fronteira jurídica está em discussão. O STF analisa se a proteção da Lei Maria da Penha deve alcançar situações de violência de gênero praticadas por homens sem vínculo doméstico, familiar ou afetivo com a vítima. Dito assim, parece uma discussão jurídica bastante específica. Coloque Carla dentro dela e a pergunta fica muito mais simples: por que a misoginia de um desconhecido deveria produzir menos proteção do Estado do que a misoginia de um homem cujo nome a mulher conhece?
A Lei Maria da Penha foi decisiva porque obrigou o Estado a compreender que aquilo que acontecia dentro de casa não era um problema privado. Vinte anos depois, é urgente completar esse movimento e reconhecer que a violência de gênero tampouco deixa de ser o que é quando atravessa a porta. O agressor não precisa conhecer uma mulher para reconhecer nela alguém sobre quem acredita poder exercer força.
Carla estava cercada de gente. Houve testemunhas, homens que interromperam a agressão, atendimento médico, seis pontos, laudo e delegacia. Ainda assim, ao final daquela noite, ela carregava, e carrega até agora, no rosto, a materialidade do que havia acontecido e o homem acusado de agredi-la estava livre para voltar para casa. É difícil encontrar imagem mais precisa para a urgência dessa discussão: a misoginia já aprendeu há muito tempo que não precisa de intimidade para nos alcançar. É urgente que as políticas de proteção e responsabilização também dispensem apresentações.
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