ODS 1
Alertas de desmatamento em 2026 são os menores da história




Operação da Polícia Federal em Rondônia: Alertas de desmatamento em 2026 são os menores da história (Foto: Polícia Federal)
Ações para conter destruição da Amazônia desde 2023 evitaram emissão de 2,238 GtCO2e, o equivalente a um ano de emissões brasileiras
A Amazônia registrou em 2026 a menor área sob alertas de desmatamento da série histórica: 2.874 km2, uma queda de 36% em relação ao ano passado (4.495 km2). Os números do sistema Deter, divulgados nesta sexta-feira (07/08) pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), aumentam a chance de que o Brasil venha a registrar o recorde histórico de queda do desmate quando os dados finais saírem, nos próximos meses.
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Eles também comprovam que o país achou a fórmula para controlar a destruição da floresta tropical, aplicando o mesmo conjunto de políticas públicas que frearam as motosserras – e as emissões de gases de efeito estufa – no começo do século.
Os números apresentados são históricos, fruto de políticas sérias de proteção ambiental, e provam que é plenamente possível cumprir o compromisso assumido pelo país de zerar e reverter o desmatamento até 2030
Segundo os dados do Inpe, a área de alertas medida nos 12 meses entre agosto de 2025 e julho de 2026 (o “ano fiscal” do desmatamento) é a menor desde 2016, quando a série atual do Deter foi iniciada. Ações do Ibama, como os embargos coletivos de áreas desmatadas e os remotos por satélite, contribuíram para a queda. No total, segundo o Ibama, foram embargados 350 mil hectares de áreas com desmatamento irregular na Amazônia em 2026.
No Brasil inteiro, 815 mil hectares foram embargados remotamente desde 2023, quase metade dos 2 milhões de hectares embargados em todo o país no período. A reação dos ruralistas não tardou: o embargo coletivo foi combatido por políticos da bancada e até por aliados de Lula, como o governador Hélder Barbalho (PA). Em maio, a Câmara aprovou um projeto de lei proibindo os embargos remotos. O texto tramita no Senado.
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Veja o que já enviamosNos quatro anos do governo Lula 3, a área de alertas na Amazônia somou 19.642 km2, uma queda de 41% em relação ao período 2019-2022, que registrou 33,4 mil km2 (pouco mais que uma Bélgica).
O Deter usa imagens de satélite produzidas em tempo quase real. Ele serve para orientar a fiscalização do Ibama, mas é “míope”, ou seja, tem resolução relativamente baixa. Por isso não é usado para fazer cálculo de área desmatada, função que cabe a um outro sistema do Inpe, o Prodes, cujas estimativas são publicadas todo fim de ano.
No entanto, os dados do Deter têm permitido antecipar o comportamento do Prodes. Se a queda de quase um terço observada em 2026 no Deter for repetida no Prodes, o Brasil possivelmente terá a menor taxa oficial de desmatamento desde o início das medições por satélite, em 1988.
“Os números apresentados são históricos, fruto de políticas sérias de proteção ambiental, e provam que é plenamente possível cumprir o compromisso assumido pelo país de zerar e reverter o desmatamento até 2030”, diz Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.
Os dados também têm impacto direto na trajetória de emissões do Brasil, já que quase metade de todo o carbono que o país lança na atmosfera todo ano vem da destruição de florestas. Segundo cálculos do Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases do Efeito Estufa), do Observatório do Clima, a redução na destruição reportada pelo Deter no período entre 2023 e 2026 evitou o lançamento de 2,238 bilhões de toneladas de CO2 equivalente (GtCO2e) na atmosfera, valor equivalente ao total bruto emitido pelo país em um ano. Os resultados posicionam o Brasil como uma das nações que mais reduziram emissões no mundo nos últimos quatro anos. Os cálculos de emissões de desmatamento do Seeg são produzidos pelo Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
Assim como entre 2005 e 2012, a queda no desmatamento ocorre enquanto a produção agropecuária – e os ganhos do setor – aumenta: estudo feito pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), em parceria com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP), mostra que o PIB do agronegócio brasileiro e o volume de produção cresceram 12,2% e 6,76% respectivamente, em 2025. O valor total gerado pelas atividades do setor escalou de R$ 2,5 trilhões em 2022 para R$ 3,2 trilhões no ano passado.
A redução do desmatamento tem ainda um efeito importante em tempos de El Niño. Com a menor derrubada da floresta, há menos material combustível para pegar fogo, o que reduz as chances de ocorrer incêndios florestais descontrolados como em 2023 e 2024.
Mas nem tudo é festa. Neste exato momento, deputados e senadores preparam uma ofensiva contra a legislação ambiental brasileira, com projetos que visam enfraquecer a capacidade de atuação do Ibama, anistiar grileiros de terras, diminuir a proteção de Unidades de Conservação e flexibilizar o Código Florestal e outras regras de proteção à vegetação nativa.
A redução do desmatamento também enfrenta fogo amigo. Em junho deste ano, o Dnit, órgão ligado ao Ministério dos Transportes, autorizou, sem o devido licenciamento ambiental, a pavimentação de trechos da rodovia BR-319 (Porto Velho-Manaus), que corta a região mais preservada da Amazônia. Segundo cientistas, o asfaltamento pode levar a uma escalada do desmatamento na região, com a emissão de 8 bilhões de toneladas de CO2 equivalente até 2050, quatro vezes mais do que se poupou com a redução dos alertas de desmate em quatro anos.
“A redução dos índices de desmatamento é o maior legado ambiental do governo Lula e uma das maiores contribuições dada à agenda de clima nos últimos anos. Porém, o fim da destruição de nossas florestas só será possível com uma grande mudança no Parlamento, além de equacionar contradições dentro do próprio governo”, diz Astrini. “Teremos a chance de fazer isso daqui a três meses, quando escolheremos o próximo Congresso Nacional”.
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