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‘Trans e travestis estão revolucionando e produzindo conhecimento’, diz pesquisadora

Conheça o primeiro núcleo de pesquisa científica de uma universidade pública brasileira formado apenas por pessoas trans e travestis: o NeTrans.


“Trans e travestis estão revolucionando e produzindo conhecimento”
Maria Zanela (segunda à direita) com integrantes do NeTrans; grupo existe desde maio de 2018 na UFSC (Foto: Reprodução)

Maria Zanela, 24 anos, faz parte de duas estatísticas completamente destoantes que mostram a realidade, dura e marginalizada, de pessoas trans e travestis no Brasil. Por um lado, recorreu à prostituição como meio de sobrevivência, assim como 90% dos transgêneros brasileiros, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Por outro, integra, com orgulho, o tímido universo de 0,2% de estudantes declaradamente trans que conseguiram ingressar em uma universidade pública no país. É justamente nesse cenário de quase total invisibilidade que a atuação de Maria se torna primordial e um exemplo para muitos.

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Graduada em Biblioteconomia e doutoranda em Educação, ela e mais um grupo de 13 travestis, trans e pessoas não-binárias estão tentando reverter esse quadro por meio de muito estudo e ações para a inclusão. Maria é uma das fundadoras do núcleo de pesquisa NeTrans, da Universidade Federal de Santa Catarina: o primeiro do Brasil, formalizado no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), voltado para questões sobre gênero e transgeneridade. “Pessoas trans e travestis estão revolucionando e produzindo conhecimento nas universidades do país, sim”, afirma.

Nascida em Balneário Camboriú, Maria recorda do tempo em que, ainda adolescente, passava pelos pontos de prostituição e se via na pele das travestis e trans. Função essa que passaria a exercer anos depois, justamente para custear os estudos e conseguir ingressar numa universidade federal. Ciente do seu papel e dos contrastes desses dois mundos nos quais está inserida, se torna ativista pelos direitos de seus iguais. Resultado dessa militância, cria o NeTrans em maio de 2018, durante seu mestrado em Serviço Social, juntamente com Gabriela da Silva, mulher trans e professora há 30 anos.

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“Trans e travestis estão revolucionando e produzindo conhecimento”
Pesquisadores do NeTrans em reunião com o reitor da UFSC, Ubaldo Cesar Balthazar (Foto: Reprodução)

Com encontros quinzenais, o núcleo possui linhas de pesquisa em diversas áreas. Entre os temas dos pesquisadores estão: saúde; patologização; esporte; infância em família e no ambiente escolar; transfeminicídio, experiências transgêneras ao longo da história; e outros. Em busca de conscientização, o grupo também desenvolve revista e cartilhas sobre a população trans e, em maio, desenvolveu o primeiro seminário para exposição das pesquisas.

Da Colômbia e integrante do NeTrans, Ale Mujica, de 33 anos, é a primeira pessoa do grupo a ganhar o título de doutor com uma pesquisa voltada para as trajetórias de cuidado à saúde das pessoas trans em Florianópolis. Para Ale, a iniciativa ganha uma importância ainda maior em razão do contexto político atual do Brasil e fez toda diferença para conclusão da sua jornada acadêmica. “Estamos em um momento bastante complexo, de uma conjuntura política conservadora. O NeTrans é, portanto, uma forma de luta e reivindicação dos espaços. De forma pessoal, foi um local que me constituiu como pessoa trans e ainda me constitui. Hoje, posso compartilhar minhas vivências, meus afetos e ser acolhida. Foi uma força para o meu processo de doutorado e me ajudou a pensar na diversidade como uma forma de potencial”.

Cotas em debate

A ideia de construir um grupo de resistência trans no ambiente acadêmico surgiu com o crescimento de alunos e pesquisadores transgêneros na UFSC. Com cotas específicas para pessoas trans e travestis na pós-graduação desde 2018, a instituição é uma das 15 universidades brasileiras com a política de ação afirmativa, segundo estimativa do Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE).

A educação é fundamental para a transformação social e estamos conseguindo ocupar espaços nunca antes ocupados

Maria Zanela
Doutoranda pela UFSC

Aliás, essa pauta voltou ao centro das atenções em meados de julho após o presidente Jair Bolsonaro anunciar, pelo Twitter, a suspensão de um vestibular específico para candidatos transgêneros e intersexuais da Unilab (Universidade da Integração da Lusofonia Afro-Brasileira), após intervenção do Ministério da Educação. A medida gerou polêmica nas redes sociais e, claro, revolta nos integrantes do NeTrans.

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“Foi contra a autonomia universitária. Uma reação movida pela transfobia. As ações afirmativas surgem como uma reparação histórica. 90% da nossa população exercem a prostituição, e grande parte desse número não consegue concluir o ensino médio porque trans e travestis são expulsas das escolas. Então, é um grande passo para que pessoas que são excluídas de direitos e tratadas com indiferença perante a sociedade, consigam se direcionar ao contexto da educação”, opina Zanela, que teve como uma das principais referências ao longo da sua jornada, Luma Andrade, primeira travesti doutora do país.

Para ela, o que está sendo feito pelo NeTrans na UFSC deve servir como exemplo para universidades do Brasil inteiro. “A gente tem feito uma frente de resistência muito importante, tanto pela conjuntura e pela produção de conhecimento, mas também pela articulação dentro da universidade. Esse lugar também é lugar da construção de saberes das experiências dos indivíduos trans. Essa realidade por muito tempo foi ignorada e dita apenas por pessoas cis. A educação é fundamental para a transformação social e estamos conseguindo ocupar espaços nunca antes ocupados”.

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Escrito por Yuri Fernandes

Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é mineiro de Ipatinga. Sempre sonhou em morar no Rio de Janeiro e realizou seu desejo em 2014 ao passar para o programa de estágio da TV Globo. Trabalhou nas redações do "Bom Dia Brasil", do "Jornal Nacional" e do "EGO". Tem grande interesse em pautas de inclusão social e diversidade de gênero. Acredita que o jornalismo pode e deve ser usado como forma de combater a opressão a minorias. Cresceu vendo novelas e sempre manteve essa paixão viva.

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