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Sensor detecta Alzheimer no início

Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) desenvolvem dispositivo, em fase de testes, que se baseia nos níveis de uma proteína no sangue


Sensor para detectar Alzheimer se baseia nos níveis de uma proteína e poderá ser utilizado a partir de uma coleta de sangue, evitando exames invasivos (Foto: Divulgação/UFScar)
Sensor para detectar Alzheimer se baseia nos níveis de uma proteína e poderá ser utilizado a partir de uma coleta de sangue, evitando exames invasivos (Foto: Divulgação/UFScar)

O Alzheimer, doença que acomete pelo menos 1,2 milhão de brasileiros, é um enorme desafio para os médicos: não tem cura. Além disso, dificilmente é diagnosticada no início, algo que possibilitaria adiar o aparecimento dos sintomas. Esse segundo obstáculo, pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), em São Paulo, estão perto de superar. Em conjunto, os departamentos de Química e Gerontologia desenvolveram um sensor que se baseia nos níveis de uma proteína do sangue, Adam 10, para diferenciar idosos saudáveis ou com diferentes níveis da doença. Poderá ser utilizado a partir de uma coleta de sangue em postos de saúde e clínicas, evitando exames invasivos, por baixíssimo custo. A falta de dinheiro dos centros de pesquisa, porém, é o principal entrave para que sensor saia dos laboratórios para o alcance de qualquer médico.

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“Precisamos da parceria de alguma indústria para financiar a fase final de testes. A universidade não tem recursos para isso”, admite a bióloga Márcia Cominetti, uma das coordenadoras da pesquisa. A verba repassada pelo CNPQ para o trabalho é insuficiente. A principal fonte de dinheiro foi a Fapesp, mas este financiamento já chegou ao seu limite. “Para essa fase agora, não temos onde pedir. Só a parceria com a iniciativa privada”, explica.

Precisamos de uma indústria que venha para ajudar a terminar o estudo e  ampliar os testes para dar mais confiabilidade ao exame

Ronald Censi Faria
Pesquisador da UFSCar

Na doença de Alzheimer, os primeiros sintomas aparecem depois de muito tempo que o cérebro já está perdendo neurônios. Pode demorar de 10 a 15 anos desde o começo do processo até os primeiros sinais clínicos. O objetivo da pesquisa, que começou há oito anos, era procurar um marcador, que possibilitasse um diagnostico na fase inicial. Conseguiram. “Depois que aparecem os sintomas graves, não dá para fazer muito; o paciente fica acamado”, relata a bióloga. Em uma intervenção na fase inicial, é possível mudar a dieta, prescrever exercícios e estimulação cognitiva que adiem o início da fase aguda.

Os pesquisadores pretendem que, no futuro, o sensor seja tão comum  como os exames atuais de sangue ou diabetes, que servem para acabar com a dúvida sobre diagnósticos. “O Alzheimer é muito confundido com vários tipos de demências, como a demência vascular, o Parkinson e outras. Para o médico, é importante confirmar nessa fase pré-clínica”, diz Cominetti. O dispositivo foi patenteado e há empresas que querem licenciar, mas não há nada definido. Na fase de licenciamento, é necessário fazer teste em cerca de 200 pacientes antes de decidir se vai ser colocado à venda para os médicos em geral.

“Precisamos de uma indústria que venha para ajudar a terminar o estudo e  ampliar os testes para dar mais confiabilidade ao exame”, detalha o químico Ronald Censi Faria, outro coordenador do trabalho. “Precisamos também continuar a pesquisa para aperfeiçoar, ampliar o número de pessoas beneficiadas”.

Tudo ficou ainda mais difícil com o corte (ou contingenciamento) determinado pelo Ministério da Educação nos recursos de universidades e institutos federais. “Agora tivemos bolsas cortadas. Uma aluna minha, que está nesse caso, foi para a Espanha; vai ficar lá, trabalhar por lá”,  lamenta Márcia Cominetti. “Se não tivermos os alunos bolsistas, não teremos quem faça o trabalho. O professor tem que dar aulas, coordenar curso, participar de reuniões… Tem que fazer ensino e extensão. Fica quase impossível”, desabafa.

Patricia Regina Manzine Moralles, Márcia Regina Cominetti, Tássia de Oliveira e Ronaldo Censi Faria, pesquisadores da UFSCar: contingenciamento de verbas afasta bolsistas e desanima alunos (Foto: Divulgação/UFScar)
Patricia Regina Manzine Moralles, Márcia Regina Cominetti, Tássia de Oliveira e Ronaldo Censi Faria, pesquisadores da UFSCar: contingenciamento de verbas afasta bolsistas e desanima alunos (Foto: Divulgação/UFScar)

A penúria causa também um outro péssimo efeito colateral. Os pesquisadores notam o desânimo de alguns alunos que permanecem no país. “Além de pessoas excelentes saírem do Brasil, os cortes de verbas também desestimulam os novos estudantes que pensavam em entrar na área de pesquisa. Acabam indo para as empresas privadas”, relata a pesquisadora. “Se não mudar essa história de cortes de verbas, a gente vai afundar. A ciência vai estagnar no Brasil. Como docente, eu vou dar minha aula só, não vou ter alunos para desenvolver os projetos”.

Caso consigam a parceria para fazer os testes finais no sensor de Alzheimer, a estimativa é que leve 5 a 6 anos para chegar ao mercado. Como se viu, o diagnóstico feito no início pode representar uma importante diferença na qualidade de vida desses pacientes, cujo contingente aumenta rapidamente — o país tem cerca de 100 mil novos casos por ano. Talvez por isso, a cada notícia sobre o estudo dos departamentos de Gerontologia e Química da Ufscar muita gente procura os pesquisadores em busca de alento. São parentes de pacientes que sofrem de Alzheimer. “O estudo trabalha com diagnóstico, não com tratamento da doença. Além disso, ainda não terminamos a fase de testes,  por isso o sensor ainda não pode se comercializado”, esclarece o professor Ronaldo Censi  Faria.

Os pacientes e seus familiares têm pressa e torcem para que a pesquisa seja validada. Os pesquisadores também têm pressa. Falta ao Ministério da Educação ser contaminado por esse sentido de urgência e liberar os recursos cortados de trabalhos tão importantes quanto o sensor de Alzheimer desenvolvido na Ufscar para que a ciência brasileira continue dando resultado.

18/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil.

 


Escrito por Chico Alves

Chico Alves tem 30 anos de profissão: por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Na maior parte da carreira atuou como editor-assistente na revista ISTOÉ, mais precisamente por 19 anos. Foi editor-chefe do jornal O DIA por mais de três anos. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

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