ODS 1
Documentário descreve diplomacia do caos e faroeste tarifário de Trump


Produção do CanalCurta! mostra como a política econômica dos EUA pode levar a enormes riscos inflacionários, mas, ao mesmo tempo, lucros insanos para os mais ricos


O presidente estadunidense Donald Trump vem mirando no passado por acreditar que sua nova política comercial vai reposicionar o tabuleiro de xadrez internacional. Com o enorme poder da China de equilibrar a balança do poder a seu favor, os Estados Unidos transformaram sua economia em arma de dominação e declararam guerra – e o país asiático não é o único alvo.
Cercado por estrategistas ultraconservadores, Trump abraçou o protecionismo agressivo, adotou sanções direcionadas a taxar os parceiros comerciais e apontou seu arsenal bélico contra a China, que considera seu maior e pior inimigo.
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Veja o que já enviamosÉ sobre isso o documentário francês “Trump na Arquitetura da Economia Global”, que estreou no CanalCurta! e no CurtaOn, este mês e ainda sem data para sair do ar. Entrevistados de diferentes matizes ideológicos analisam a abordagem por trás da nova ordem econômica mundial imposta por Trump, poucos dias depois da sua posse.
Em abril de 2025, em uma coletiva para imprensa, em um auditório lotado de apoiadores, o presidente anunciou sua diplomacia do caos – um conjunto de tarifas comerciais que atingiu cerca de 180 países. À época, anunciou que aquele dia seria lembrado por todos os estadunidenses como “O Dia da Libertação” — nada mais do que uma ruptura com a ordem econômica mundial então estabelecida.
Resultados das tarifas
Seis meses depois da posse de Trump, as tarifas já haviam sido responsáveis por arrecadar US$ 150 bilhões para os cofres americanos, praticamente o dobro de receita do ano de 2024.
“Trump está impondo regras novas no jogo e isso acrescenta muita incerteza na economia global. É um retrocesso em décadas de globalização”, analisa, no documentário, a jornalista Abha Battarai, correspondente de Economia do Washington Post. Para ela, a política nacionalista adotada pelo presidente dos EUA é uma espécie de “castigo” para os concorrentes comerciais.
Leu essa? Estratégia de Trump depende do recrudescimento do aquecimento global
Para o historiador Justin Jackson, da Universidade de Massachusetts, Trump estaria convencido em um retorno à “época de ouro” dos Estados Unidos, como ocorreu após a Segunda Guerra Mundial. Um olhar mais aprofundado sobre a política econômica americana aponta para enormes riscos inflacionários, mas, ao mesmo tempo, para lucros insanos para os mais ricos – uma espécie de novo faroeste, como define o documentarista Hugo Van Offel, diretor do filme.
Ruptura brutal
A influenciadora conservadora, Isabela DeLuca, de 25 anos, virou garota-propaganda da administração Trump. Anistiada após ser condenada pela invasão do Capitólio em janeiro 2021, ela apresenta o programa His Glory – uma emissora de TV cristão, muito popular nos Estados Unidos, com uma audiência de pouco mais de cinco milhões de telespectadores. O programa combina teoria da conspiração com fake news. Para DeLuca, Trump está devolvendo o orgulho aos estadunidenses, após o fim da era do democrata Joe Biden.
Gerard Araud, ex-embaixador da França nos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Trump, admitiu nunca ter imaginado a possibilidade de uma ruptura tão radical na política comercial do país. “Trump não se faz de rogado e usa seu poder de forma brutal”.
O economista Stephen Moore, da Fundação Heritage, por sua vez, avalia que os Estados Unidos ameaçam os países com tarifas e faz isso para levar os parceiros comerciais à mesa de negociação fragilizados e, no fim, conseguir um acordo melhor para si mesmos.
A ideologia fiscal de Trump remonta a do século XIX, antes da introdução do imposto de renda. Foi quando, no ano de 1896, o então presidente Willian McKinley, adotou as maiores tarifas da história dos Estados Unidos, isso antes, obviamente, de que fora anunciado por Trump em abril passado. À época de McKinley, as tarifas subiram em média 50%.
O economista francês Thomas Piketty, autor do livro “Capital no século XXI”, afirma que as tarifas anunciadas por Trump vão contribuir para a inflação — o que, de fato, já vem ocorrendo. Ainda que as medidas adotadas pelo presidente estadunidense estejam embaladas numa defesa da indústria nacional, será que realmente essa indústria será protegida? Será realmente que vai ajudar a reduzir o déficit comercial? E, por fim, será que aumentará positivamente a taxa de emprego nos Estados Unidos?
Em resposta a esses questionamentos, Piketty afirma não acreditar em nenhuma dessas possibilidades, especialmente porque para atingir a reindustrialização, como deseja, defente o economista, é preciso investir na capacitação e na infraestrutura do país. E, sobretudo, adotar uma política que reduza a desigualdade social.
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Liana Melo
Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.







































