Ponto de não retorno na Caatinga: mudanças climáticas potencializam desertificação

Foto colorida de vegetação do Raso da Catarina, em área árida da região do Vale submédio do Rio São Francisco, na Bahia. Na imagem, aparece a entrada de um cânion com vários arbustos pequenos, típicos da Caatinga
Foto colorida de vegetação do Raso da Catarina, em área árida da região do Vale submédio do Rio São Francisco, na Bahia. Na imagem, aparece a entrada de um cânion com vários arbustos pequenos, típicos da Caatinga
Entrada do Cânion Seco, na área do Raso da Catarina, há cerca de 52 km do município de Glória (BA) faz parte da área classificada com clima árido (Foto: Divulgação / Prefeitura de Glória)

Aumento da temperatura média global acelera processos de evapotranspiração e coloca em risco biodiversidade e cultura do semiárido

Por Micael Olegário | ODS 15

Publicado em 03/08/2026 - 09h25 (Atualizado há 1 dia)

Tempo de leitura: 9 min

A Caatinga é um ecossistema naturalmente resiliente ao clima semiárido. Porém, mesmo esse bioma adaptado aos períodos de seca pode chegar em um ponto de não retorno. Monitorar os diversos elementos que indicam o limiar da capacidade de regeneração da Caatinga é a tarefa que a pesquisadora Luciana Vieira decidiu abraçar.

“Tem lugares que mesmo quando a chuva volta, não cresce mais nada”, alerta a meteorologista, com doutorado em Clima e Ambiente pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Natural de Belém (PA), Luciana conheceu a Caatinga há cerca de 10 anos, quando morou em Fortaleza (CE). Desde então, tem dedicado sua atenção ao estudo da desertificação e das mudanças climáticas no semiárido, em parceria com o climatologista Carlos Nobre.

Uma das ameaças concretas que indicam a proximidade de um ponto de não retorno em áreas do bioma é a diminuição das áreas adequadas para o cultivo do caju. De acordo com as projeções climáticas feitas com base no aquecimento global, o Nordeste pode perder cerca de 36% das áreas de plantio da fruta até 2050, isso em um cenário intermediário de aumento da temperatura média no planeta. No prognóstico mais extremo, a perda de áreas para cultivo do caju pode chegar a 58%

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Conhecido por possuir raízes profundas capazes de aproveitar a umidade do solo e resistir aos períodos de seca, o caju é vital para a economia do sertão nordestino. Segundo dados da Embrapa, a planta nativa é responsável pela geração de 35 mil empregos diretos no campo e 15 mil na indústria, além de 250 mil postos de trabalho indiretos.

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Luciana explica que, com base nas projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), a temperatura média na Caatinga pode subir 3,5°C acima da média do período industrial até 2070. O calor extremo é um dos elementos que serve para acompanhar um possível ponto de não retorno do bioma, em conjunto com o ciclo hidrológico, a atividade biológica do solo e as atividades humanas.

Clima e desertificação

Dados de monitoramento do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), apontam que 1.340.863 km² do semiárido podem ser classificados como “Áreas Susceptíveis à Desertificação (ASD’s). Esse percentual inclui 1.488 municípios do Nordeste, além de áreas de Minas Gerais e do Espírito Santo

O estudo mostra ainda que 12,85% do semiárido brasileiro já está em processo de desertificação, o que equivale a 126.336 km². Em termos de comparação, essa área equivale à 18 milhões de campos de futebol, ou ao território somado dos estados de Alagoas, Rio Grande do Norte e Sergipe. Entre os estados, Alagoas lidera com 32,8% de sua área em processo de desertificação.

Os dados, porém, não indicam que a Caatinga será como os desertos do Saara ou do Atacama. “Não significa que essas áreas estão se transformando literalmente em um deserto. Esse percentual de aproximadamente 13% indica perda da capacidade produtiva dos solos, redução da cobertura vegetal, diminuição da biodiversidade e comprometimento de vários serviços ecossistêmicos”, explica Luciana Vieira.

A pesquisadora lembra que os processos de desertificação são amplificados pelas mudanças climáticas e trazem também impactos sociais. “A desertificação reduz a resiliência dos ecossistemas e aumenta a vulnerabilidade da população que depende diretamente desse território”, complementa a meteorologista. Uma das consequências mais severas deve ser o aumento da evapotranspiração, a quantidade de água que evapora do solo, o que afeta o regime de chuvas e pode agravar os períodos de seca.

Gráfico colorido com o desenho do Brasil com cores que indicam o nível de clima entre árido e úmido, no mapa, a área do nordeste e da Caatinga aparece mais laranja e vermelha
Gráfico identifica áreas de clima semiárido e porção de território com clima árido no Brasil (Fonte: Divulgação/Cemaden – 2024)

Erosão e aridez

No final de 2023, o Brasil teve identificada a primeira zona árida do país. Trata-se de um trecho de aproximadamente 5,7 mil km² no vale submédio do Rio São Francisco, no centro-norte da Bahia e perto da fronteira com Pernambuco. A primeira área classificada no estágio anterior ao clima hiperárido dos desertos foi registrada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

“A erosão tem sido um fator que tem avançado em alguns lugares. No Maranhão, existem áreas com um quadro muito sério de erosão do solo. Embora não sozinhas, as mudanças climáticas potencializam o avanço de aumento de áreas áridas”, ressalta Luciana Vieira. Isso acontece devido ao déficit hídrico do solo, o que deixa a terra mais vulnerável à erosão.

“Na Caatinga, se houver redução da chuva e aumento de temperatura, diversas espécies poderão já entrar em declínio, esse é outro fator para somar no ponto de não retorno”, acrescenta a pesquisadora. Atualmente, Luciana trabalha com modelos climáticos voltados ao crescimento da vegetação, o que insere um outro desafio relacionado à ocupação do solo do bioma.

Desmatamento e resiliência na Caatinga

Entre 1985 e 2023, a Caatinga perdeu 14,4%, ou 8,6 milhões de hectares de vegetação nativa, segundo dados do MapBiomas. O que restou representa 59,6% do bioma, ou 51,4 milhões de hectares. Outros 32,9 milhões de hectares (38,2% do bioma), são áreas que tiveram algum tipo de intervenção humana. O avanço do desmatamento tende a piorar a situação do bioma, que ocupa 10% do território nacional.

“Sem  manejo adequado e preocupação com a recuperação, vamos caminhar para a expansão das áreas áridas, lugares em que mesmo com o retorno das chuvas, não há recuperação de vegetação naquela área”, alerta Luciana Vieira. A adaptação e a mitigação desses impactos passam pela ciência e também pela valorização dos saberes tradicionais, no que a pesquisadora define como resiliência socioecológica.

Experiências eficazes e equilibradas de convivência com o semiárido já fazem parte do cotidiano de muitas comunidades, a exemplo das agroflorestas, cisternas e troca de sementes crioulas. Parte dessas iniciativas e exemplos esteve em evidência durante a Caatinga Climate Week, evento promovido em Pernambuco pelo Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá e pelo Instituto Socioambiental (ISA).

Evitar o ponto de não retorno na Caatinga envolve também valorizar os saberes e experiências dos povos que vivem do bioma. Não por acaso, esses grupos são considerados prioritários para a implementação da Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga e do Programa Recaatingar, iniciativas voltadas à recuperação socioprodutiva de áreas degradadas.

“Não existe resiliência climática sem justiça ambiental. Um território só é verdadeiramente resiliente, quando os seus ecossistemas são conservados e a população mais vulnerável tem condição de se adaptar e participar das decisões”, destaca Luciana.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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