Carlos Nobre sobre a COP30: “a Ciência está sendo apagada nos textos”

O climatologista Carlos Nobre, um dos cientistas à frente do Pavilhão de Ciências Planetárias da COP 30. (Foto: Liana Melo)

Documento entregue pelos cientistas aos negociadores alerta sobre alguns países estarem fazendo de tudo para dissociar os dados científicos das negociações climáticas

Por Liana Melo | ODS 13
Publicada em 20 de novembro de 2025 - 15:11  -  Atualizada em 22 de novembro de 2025 - 23:59
Tempo de leitura: 6 min

O climatologista Carlos Nobre, um dos cientistas à frente do Pavilhão de Ciências Planetárias da COP 30. (Foto: Liana Melo)
O climatologista Carlos Nobre, um dos cientistas à frente do Pavilhão de Ciências Planetárias da COP 30: apagamento da ciência (Foto: Liana Melo)

(Belém, Pará) – As emissões de CO2 bateram no teto e os principais responsáveis foram as maiores economias do mundo. As projeções dos cientistas mostram que as emissões de CO2 em 2025 vão bater um recorde e superar em 1,1% as de 2024 e restam apenas quatro anos para que o orçamento de carbono de 1,5ºC se esgote.

O cenário alarmante não é novo, mas foi entregue em mãos para os negociadores presente a COP30, na quarta (19/11). O documento foi assinado pelos maiores climatologistas do mundo e escrito no pavilhão da Ciência Planetária, bem próximo a sala dos tomadores de decisão reunidos na Zona Azul, em Belém.

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Faltando apenas um dia para o encerramento, marcado para esta sexta (21/11) da Conferência do Clima – à medida que as horas vão passando, fica mais claro que o resultado dessa COP é ainda uma incógnita –, a adesão dos países ao chamado do presidente Lula para longe dos combustíveis fósseis ainda precisa percorrer um longo caminho e muitas horas e horas de negociação, especialmente com a oposição frontal que vem sendo feita por países dependentes de petróleo, seja como produtores (Arábia Saudita) ou consumidores (Índia).

A dependência contínua de combustíveis fósseis provavelmente fará com que o mundo ultrapasse o limite de 1,5ºC mais rapidamente e por mais tempo”, alerta um dos trechos do documento.

Depois de participar de pouco mais de 35 painéis científicos nesta COP, o climatologista e copresidente do Painel Científico para a Amazônia, Carlos Nobre, é taxativo: “Zerar os combustíveis fósseis é algo que precisa ser feito até 2040, no máximo 2044”. Nobre foi um dos nove cientistas que assinaram o documento.

O texto dos cientistas não deixa dúvidas ao afirmar que “alcançar as emissões líquidas zero globais exige uma mudança radical de mentalidade e governança em todos os países, bem como, principalmente, a expansão da energia renovável, a eliminação gradual de todos os combustíveis fósseis e o fim do desmatamento.”

Todos os países tropicais, comentou Nobre, já aderiram à proposta de zerar o desmatamento. “Se for aprovado, será a primeira COP na história das conferências do clima a encerrar com o mapa do caminho para zerar o desmatamento.”

No seu retorno a Belém, na quarta, dia da entrega do documento aos negociadores, Lula, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, e a diretora executiva da conferência, Ana Toni, passaram o dia em zilhões de reuniões bilaterais com mais de 50 países, além de representantes do setor privado e a sociedade civil.

Mais de 70 organizações e 82 países apoiaram o mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis – nenhum deles do bloco dos Brics, exceto, obviamente, o Brasil. É uma adesão ainda pequena frente ao alerta feito no documento dos cientistas que essa “é a única opção para evitar uma crise planetária.”

O documento faz mais um alerta preocupante: “Estamos vendo a ciência ser apagada dos textos e isso faz parte de uma estratégia mais ampla de adiamento e negação. Os dados e a ciência são vitais para que tomemos as decisões certas, tanto aqui na COP quanto em nossos países.”

Só a combinação de desmatamento zero com redução contínua do uso de combustíveis fósseis pode evitar “um ecocídio”, diagnostica Nobre, comentando que “corremos o risco de a Amazônia entrar no ponto de não retorno e perdermos 70% de floresta”.

E mais: se o planeta continuar aquecendo, como vem mostrando as projeções, os solos congelados da Sibéria e do norte do Canadá podem liberar algo como 200 bilhões de toneladas de metano, um gás muito mais potente e perigoso que o gás carbônico.

 

 

 

 

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Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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