Com IDH verde, Brasil melhora posição no ranking de desenvolvimento

Fogo e desmatamento na Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará: Brasil tem posição melhor em ranking de IDH que considera pegada ambiental (Foto: Marizilda Cruppe/Amazônia Real/Amazon Watch – 17/09/2020)

PNUD ajusta o IDH, acrescentando a pegada ecológica, mas Bolsonaro coloca em risco posição conquistada com vantagem ambiental brasileira

Por Liana Melo | ODS 13 • Publicada em 4 de maio de 2021 - 09:26 • Atualizada em 10 de maio de 2021 - 19:43

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Fogo e desmatamento na Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará: Brasil tem posição melhor em ranking de IDH que considera pegada ambiental (Foto: Marizilda Cruppe/Amazônia Real/Amazon Watch – 17/09/2020)

E se o Brasil fosse analisado pela ótica dos seus recursos naturais? Dono da maior floresta tropical do mundo, o país, que ocupa um lugar vergonhoso no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas, ganharia na comparação. A análise promoveria uma dança das cadeiras que deixaria os países desenvolvidos envergonhados. Ou melhor, “seria o vexame dos países ricos”, como escreveu o economista Pedro Fernando Nery.

Ao promover um ajuste no IDH, incluindo o que chamou de “pressão planetária”, o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD, na sigla em inglês) fez o Brasil avançar dez casas no ranking do IDH-P: o Índice de Desenvolvimento Humano Ajustado às Pressões Planetárias. No IDH verde, o Brasil saiu da 84ª posição para o 74º lugar. Alguns vizinhos da região avançaram ainda mais: Chile subiu 14 posições; Argentina, 20, e Peru, 28.

Ainda experimental, o IDH-P é, segundo explicação do PNUD, “o desenvolvimento humano ajustado pelas emissões de dióxido de carbono por pessoa e pegada ambiental per capita para compensar a pressão excessiva no planeta”. É um “incentivo à transformação”, como defende a instituição. “Este é, muito provavelmente, o primeiro de outros índices que podem surgir como o objetivo de medir a pressão das atividades humanas sobre o planeta”, comenta Betina Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do PNUD.

De acordo com o documento, nenhum país alcançou ainda um desenvolvimento humano muito alto sem colocar imensa pressão sobre o planeta. A expectativa é que a atual seja a primeira geração a corrigir esse erro na que é considerada “a próxima fronteira para o desenvolvimento humano”. O relatório argumenta que à medida que as pessoas e o planeta entram numa época geológica totalmente nova, o Antropoceno ou Idade dos Seres Humanos, é momento de todos os países redesenharem os caminhos para o progresso.

Apesar de o Brasil ter melhorado sua posição no ranking do IDH-P, o país ainda está muito mal na foto. Na nova métrica, o índice do Brasil cai de 0,765 para 0,710. Este número, entretanto, leva o país a subir 10 posições no ranking – países com mais emissões de dióxido de carbono e a pegada ambiental mais crítica tiveram queda maior.

O IDH-P é o IDH de cada país corrigido pelas pressões planetárias, estimadas como uma média aritmética das emissões de dióxido de carbono per capita e da pegada ecológica das matérias (biomassa, metais, carbono etc.) usadas nos processos produtivos. Mostra a pressão na biosfera resultante das atividades econômicas, como uso da terra, perda da integridade dos ecossistemas, composição de fontes de energia. Por isso, apesar de subir no ranking, o IDH verde brasileiro é menor que o IDH.

Se as emissões aumentarem, pressionando o planeta, a lógica do IDHP é de redução. Então podemos dizer que o resultado do novo índice do Brasil é melhor do que o do IDH, mas a tendência não é boa não

Do ponto de vista ambiental, corremos o risco de perder a corrida e começar a cair também neste ranking – no último IDH tradicional, o Brasil caiu de 79º para 84º lugar. Na Cúpula do Clima, quando Bolsonaro fez um discurso recheado de promessas, ficou evidente que o país corre o risco de perder a vantagem captada pelo IDH-P. Sem mostrar compromisso e nem apresentar metas, o Brasil continua com alto passivo ambiental expresso nas taxas de desmatamento da Amazônia. O “avanço” do Brasil no IDHP, complementa Nery, está relacionado ao histórico do país e não a gestão atual. “Se as emissões aumentarem, pressionando o planeta, a lógica do IDHP é de redução. Então podemos dizer que o resultado do novo índice do Brasil é melhor do que o do IDH, mas a tendência não é boa não”.

O desenvolvimento humano ajustado pelas emissões de dióxido de carbono por pessoa e pegada ambiental per capita para compensar a pressão excessiva no planeta é um ‘incentivo à transformação’

É fato que a pandemia colocou em xeque diferentes dimensões do desenvolvimento humano mundo afora. A renda foi atingida em cheio, sofrendo uma retração econômica global que fora vivenciada nos anos 1930, durante a Grande Depressão. A saúde expôs o flagelo da desigualdade. O Brasil atingiu a marca de  400 mil mortos no final de abril, um ano e um mês depois de a pandemia ter sido decretada. A educação empurrou 24 milhões de crianças e adolescente para fora das escolas. A covid-19 desencadeou uma crise tripla: sanitária, social e econômica.

Pode parecer pouco, mas o acréscimo do P no IDH não representa apenas uma mudança apenas cosmética. Ela retrata a necessidade de olhar os países sob a ótica da emergência climática, o impacto ambiental em cada sociedade e a pressão sobre os recursos naturais.

A Noruega, exemplo de qualidade de vida no IDH ao unir renda, educação e saúde, despenca no novo índice, protagonizando uma queda livre de 15 posições. Saiu do 1º para o 16º lugar. Maior produtor de petróleo da Europa Ocidental, o combustível fóssil é o principal responsável por manchar a pontuação da Noruega no IDH verde.

Os Estados Unidos ficaram numa posição ainda mais vexaminosa: o país despencou 45 posições no IDHP, saindo do 17º lugar no IDH para 62º quando o país é analisado sob a ótica da pressão planetária. O fato de os EUA serem, depois da China, os maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta, ajudou a derrubar a posição do país na reclassificação.

Pelo IDH-P, mais de 50 países sairiam do grupo de desenvolvimento humano muito alto, refletindo sua dependência de combustíveis fósseis e sua pegada ambiental – o IDH considera muito alto a partir de 0,8. Com esses ajustes, países como Costa Rica, Moldávia e Panamá sobem em pelo menos 30 lugares no ranking, reconhecendo que é possível uma pressão mais leve sobre o planeta.

 

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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5 comentários “Com IDH verde, Brasil melhora posição no ranking de desenvolvimento

  1. Sestrel disse:

    No mínimo, muito estranho atribuir o declínio do nosso IDH a queimadas e desmatamentos, pegando inclusive uma imagem absolutamente não representativa das nossas florestas, eis que o Brasil figura dentre as nações mais preservacionistas do Planeta. Estranho inclusive o fato das grandes potências econômicas apresentarem elevado IDH, quando são “potências”, justamente, pelo fato de trem exaurido seus recursos naturais, haja vista que estão de olho nos nossos…

  2. Sestrel disse:

    Muito estranho atribuir o declínio do nosso IDH a queimadas e desmatamentos, pegando inclusive uma imagem absolutamente não representativa das nossas florestas, eis que o Brasil figura dentre as nações mais preservacionistas do Planeta. Estranho inclusive o fato das grandes potências econômicas apresentarem elevado IDH, quando são “potências”, justamente, pelo fato de trem exaurido seus recursos naturais, haja vista que estão de olho nos nossos…

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