ODS 1
Calçadas de pedras portuguesas assustam idosos em Lisboa


Pesquisa mostra que 90% dos maiores de 55 anos temem caminhar nas calçadas da cidade. Mais de 50% contam que já sofreram algum acidente


Em seu romance “Fim”, de 2013, a atriz e escritora Fernanda Torres inicia o livro com a seguinte frase: “Morte lenta ao luso infame que inventou a calçada portuguesa. Maldito d. Manuel I e sua corja de tenentes Eusébios”. A praga é rogada por um dos personagens, de nome Álvaro, que tropeça em uma dessas famosas e polêmicas pedras portuguesas que adornam as ruas do Rio, de Lisboa e de outras cidades ao redor do mundo. Álvaro, no entanto, não é o único a praguejar contra as pedrinhas brancas e pretas. Há 15 dias, durante um debate na Universidade da Madeira sobre saúde pública, o ex-ministro da Saúde de Portugal Adalberto Campos Fernandes usou a expressão “o desastre que é a calçada portuguesa” para ilustrar os riscos de quedas e fraturas que elas representam.
Uma pesquisa realizada pela Prefeitura de Lisboa, durante a elaboração do Plano de Acessibilidade Pedonal da cidade, mostrou que 92% dos moradores com mais de 55 anos têm medo de tropeçar ou escorregar nas calçadas. Já 55% disseram que já sofreram algum tipo de acidente ao caminhar pelos passeios públicos. Dados que, raramente, aparecem nos registros oficiais. Se um pedestre é atropelado na rua, o caso, geralmente, é registrado na polícia. Se ele tropeçar em uma pedra portuguesa solta, não. Mesmo que o segundo acidente tenha sido mais grave, como revela o curioso estudo do sociólogo Ricardo Antunes, do Instituto Universitário de Lisboa.
Em sua tese de doutorado, Ricardo Antunes resolveu investigar as causas originais de 1935 óbitos hospitalares: 944 ocorridos em Lisboa e 991 em Beja, uma cidade do Alentejo. Ele se surpreendeu, inicialmente, com o elevado número de mortes por pneumonia na capital, a região mais rica do país, com hospitais diferenciados, melhores médicos, mais tecnologia de saúde e, portanto, com mais condições de enfrentar a doença.
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Veja o que já enviamosAo reconstruir a história clínica de cada um dos falecidos, ele encontrou um padrão surpreendente. Os registros mostravam claramente que um número significativo de vítimas havia sofrido, recentemente, um episódio de queda na via pública. Em um dos capítulos da sua tese, que aborda as desigualdades na Saúde, Antunes trata exatamente da relação entre as calçadas portuguesas e a mortalidade. Segundo ele, a sequência fatal é a seguinte: queda, fratura, internação, período longo de convalescença na cama, sedentarismo, medo de sair de casa, acumulação de secreções na base dos pulmões… Ou seja, a pessoa cai e começa por ter um problema ortopédico, mas logo depois isso vai detonar uma série de outras consequências.
Na mesma linha, um relatório de 2012, da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), que reúne os países mais ricos do mundo, intitulado “Acidentes com pedestres não motorizados: um problema oculto”, em tradução livre e reduzida, mostra que esses acidentes representam uma crise amplamente subnotificada e que as quedas isoladas de pedestres, especialmente de idosos, representam até três quartos de todas as lesões e até 80% das hospitalizações relacionadas a pedestres.
Lisboa, onde a arte das pedras portuguesas surgiu, tem hoje 5 milhões de metros quadrados dessas calçadas. Ao longo da cidade é possível ver pedras soltas ou mal colocadas, assim como no Rio, mas esse não parece ser o maior temor dos lisboetas. Lisboa é conhecida como a cidade das sete colinas, com muitas ladeiras, mirantes, subidas e descidas. Com o tempo, as calçadas portuguesas vão se tornando cada vez mais escorregadias. E nada pior para qualquer pedestre, especialmente os mais velhos, do que uma calçada íngreme e escorregadia.


No Rio, entre as vítimas ilustres que já se acidentaram por conta das pedras portuguesas soltas ou mal colocadas aparecem a atriz Beatriz Segall, o poeta e compositor Hermínio Bello de Carvalho e o pianista Nelson Freire. Em março a prefeitura do Rio anunciou um novo programa de reforma das calçadas de pedras portuguesas, começando pelo Centro e por Vila Isabel. De acordo com o Secretário de Conservação, Diego Vaz, o trabalho vai além da simples manutenção urbana, mas busca “preservar elementos que contam a história da cidade e fazem parte da identidade cultural do Rio”.
A discussão é a mesma em Lisboa, as pedras portuguesas representam um risco para a saúde dos moradores, mas são também uma tradição, motivo de orgulho, uma marca da cidade, uma arte que se espalhou pelo mundo. As calçadas de Lisboa já são um patrimônio cultural de Portugal e são candidatas, desde 2021, a se transformar e um patrimônio imaterial da Unesco. E vamos combinar que elas são lindas mesmo. Mas o que fazer, então?
Para começar, o Plano de Acessibilidade Pedonal de Lisboa criou duas categorias de calçada: a “calçada artística” e a “calçada sem qualidade”. A primeira, como o nome diz, distingue-se pela “qualidade plástica e ou construtiva”, a qual lhe confere valor. A calçada sem qualidade trata-se de “um sucedâneo pobre que hoje é aplicado de forma automática, e que da calçada original retém apenas o nome, mas muito poucas qualidades”, como explicita o Plano. Ou seja, uma deve ser preservada e valorizada, a outra pode e deve ser modificada para garantir a saúde dos moradores.
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Agostinho VieiraFormado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. É um dos criadores do Projeto #Colabora.








































