ODS 1
Comunidades guarani ‘descongelam’ tradições e recuperam territórios degradados no sul


Dados do Projeto Ar, Água e Terra mostram que áreas em recuperação ambiental triplicaram e plantas nativas voltaram a ser cultivadas nas aldeias


“Estamos descongelando a nossa cultura”, afirma Valdecir Xunu, cacique da Teko’a Pindó Mirim. Enquanto segura o seu cachimbo, o líder guarani descreve o processo de retomada das tradições e do modo de vida de sua comunidade, localizada em território sobreposto ao município de Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre (RS).
“Hoje a gente tem tudo aqui na nossa aldeia, plantas medicinais, frutas, plantações de batata doce e fumo”, diz Valdecir, orgulhoso. A comunidade guarani da Teko’a Pindó Mirim está entre as dez aldeias que participam do Projeto Ar, Água e Terra, promovido pelo Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (IECAM).
A iniciativa tem como objetivo a preservação e recuperação ambiental dos territórios e existe desde 2012, sendo financiada com recursos do Programa Petrobras Socioambiental. Dados do IECAM mostram que, nos últimos anos, as áreas das aldeias em recuperação ambiental triplicaram — passando de dez para mais de 30 hectares. Já as áreas em reconversão produtiva cresceram de cinco para mais de 26 hectares.
Um dos eixos do projeto é o cultivo de mudas de espécies nativas em viveiros. Desde 2024, o número de mudas cresceu de 20 para 30 mil. Um processo que acompanha o plantio nas aldeias, que subiu de 30 mil mudas para mais de 60 mil. As parcerias permitem ainda a troca de sementes entre as comunidades envolvidas.
Quando a gente planta, não é só colocar na terra e deixar ali. Falamos para ela (planta): vamos cuidar e vocês vão cuidar de nós”
Mais do que números, o trabalho garante o bem viver dos indígenas. Isso porque, plantas nativas como erva-mate, bambu e milho crioulo, são essenciais para a realização de cerimônias, para a segurança alimentar e para a saúde física e espiritual dos guarani*.
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“Hoje, depois que a mata cresceu, os animais estão voltando […] temos erva-mate, frutas nativas, remédios. Assim, as pessoas ficam com mais saúde porque o espírito fica mais feliz”, destaca o cacique José Cirilo Pires Morinico, da Teko’a Anhetenguá, aldeia urbana, localizada no bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre.
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Veja o que já enviamosCirilo cita como exemplo o bambu, utilizado para fazer o takuapu, um instrumento musical de percussão que é tocado pelas mulheres guarani em cerimônias. A batida desse bastão de bambu no solo ou em uma tábua produz um som grave que lembra um trovão. “A gente já tem muda e planta aqui também”, conta o cacique da Teko’a Anhetenguá, que significa aldeia da verdade, na tradução para o português.


Recuperar naturezas-culturas
Ao contar a história sobre a parceria com o IECAM, Valdecir costura passado, presente e futuro da comunidade. Ele explica que o nome Pindó Mirim significa “coqueirinho” ou “dos coqueiros” e fica em uma área próxima ao Parque Estadual de Itapuã, unidade de conservação gerida pelo governo estadual.
Na época do início da retomada guarani no território, no início dos anos 2000, o local possuía muitas plantações de eucalipto e pinus – espécies de árvores exóticas, utilizadas comercialmente. Foi nesse período que o avô de Valdecir conheceu Denise Wolf, bióloga e coordenadora do projeto.
Aos poucos, os indígenas passaram a substituir o eucalipto pelas mudas de árvores nativas. “Traziam mudas de caçamba mesmo, principalmente frutíferas, como laranja e pinhão, tanto é que as nossas crianças estão colhendo esse pinhão que o meu avô plantou junto com a Denise”, exemplifica Valdecir.
Um dos mais recentes projetos é para iniciar a meliponicultura – cultivo de abelhas nativas sem ferrão – na comunidade. “Hoje estamos tentando recuperar as abelhas sem ferrão, que é a jataí, porque o mel dela é uma medicina pura”, explica o cacique.
Para o povo guarani – assim como para outras nações indígenas – não existe separação entre natureza e cultura. Recuperar o contato com espécies nativas de plantas significa, nas palavras do próprio Valdecir, “descongelar” saberes e práticas de vida que foram marginalizadas pelo projeto de “civilização” da modernidade e colonialidade.
“Quando a gente planta, não é só colocar na terra e deixar ali. Falamos para ela (planta): vamos cuidar e vocês vão cuidar de nós”, descreve Cirilo, da Teko’aAnhetenguá. Em setembro de 2025, a comunidade realizou o primeiro “carijo”, processo que resgata a ancestralidade e a origem do chimarrão.
O carijo envolve diferentes etapas e possui um significado simbólico de conexão com a terra e fortalecimento do corpo e espírito. O processo inicia com a coleta e seleção de ramos de “a ka’a/ ca’a/ caá” (erva-mate, em guarani), passando por uma “sapecagem” em uma fogueira, seguida da secagem e da separação das folhas secas dos ramos, até a moagem em pilão.


Ar, Água e Terra
Juntas, as dez aldeias que fazem parte do Projeto Ar, Água e Terra somam 3.409 hectares, sendo que 96% desse território (3.281 hectares) permanecem conservados. Os números evidenciam que os indígenas estão na linha de frente da ação climática no RS, ao proteger a biodiversidade dos biomas Pampa e Mata Atlântica.
“Não se trata apenas de preservar, mas de cuidar, produzir e manter vivo um sistema que integra floresta, água, terra e saberes ancestrais”, afirma Denise Wolf, que atua desde os anos 1990 com os guarani. Ela destaca o protagonismo dos indígenas e menciona a importância de ações que considerem as especificidades de cada território e comunidade. Também integram o projeto:
- Teko’a Ka’aguy Pau (Aldeia Vale das Matas) e Teko’a Nhuu Porã (Aldeia Campo Bonito/Molhado), entre Caará, Maquiné e Riozinho;
- Teko’a Kuaray Resé (Aldeia Sol Nascente), em Osório;
- Teko’a Yriapu (Aldeia Som do Mar), em Palmares do Sul;
- Teko’a Pará Rokê (Aldeia Porta do Mar), em Rio Grande;
- Teko’a Guaviraty Porã (Aldeia da Guabiroba Boa), em Santa Maria
- Teko’a Nhuu Porã (Aldeia Campo Bonito), em Torres;
- Teko’a Nhuundy (Aldeia do Campo Aberto/ Capinzal), em Viamão.
Além da recuperação de mudas nativas, principalmente, por meio de viveiros comunitários, o trabalho colaborativo entre IECAM e as comunidades inclui a elaboração de mapas de gestão territorial. Esses instrumentos servem de base para as ações que envolvem a promoção da segurança alimentar e na manutenção e ampliação da cobertura vegetal nas aldeias.


Sistemas fotovoltaicos
Outra ação realizada pelo Projeto Ar, Água e Terra foi a instalação de dois sistemas de geração de energia solar, sendo um deles na Teko’a Anhetenguá de Porto Alegre, e o segundo na Teko’a Yvyty Porã, no município de Maquiné (RS). A iniciativa visa demonstrar alternativas para lidar com uma das principais lacunas que os guarani enfrentam, a falta de infraestrutura básica nas aldeias.
Levantamento da Emater RS/Ascar apontam que 80,65% das 62 comunidades da etnia possuem acesso à energia elétrica, sendo que mais da metade (53,22%) reportaram problemas como queda frequente e más condições da rede. Além disso, 92% das aldeias relataram problemas nas habitações.
A Teko’a Yvyty Porã é uma das comunidades que enfrenta dificuldades no acesso à energia elétrica, por sua localização mais isolada. Diante desse cenário, foi instalada uma estação de energia solar pré-montada, com objetivo de dar mais autonomia aos indígenas. O sistema permite que os próprios moradores conectem diretamente aparelhos como celulares, notebooks e refrigeradores.


Já o sistema fotovoltaico da Teko’a Anhetenguá foi pensado para aliar custo e desempenho, sendo composto por painel solar, bateria e conversor. “A intenção era justamente mostrar que é possível. São projetos pilotos, um sistema solar mais complexo e caro na aldeia mais isolada, e um sistema mais acessível na de Porto Alegre”, explica Denise.
As medidas ajudam a garantir mais segurança energética, especialmente no contexto de eventos extremos que afetam a rede elétrica. “É muito importante termos uma forma de energia que não nos deixe isolados e nos ajude com os custos de consumo”, celebra o cacique José Verá, da Teko’a Yvyty Porã. A instalação dos sistemas fotovoltaicos também ajuda a romper com a ideia de que os indígenas devem ser mantidos à parte do acesso à tecnologias.
No Rio Grande do Sul – estado que tem sentido de perto os impactos das mudanças climáticas – as comunidades guarani têm muito a ensinar sobre uma relação mais equilibrada com a terra e os mais-que-humanos (Rios, plantas, animais e outros seres vivos).
*Na língua mbyá guarani não existe a letra “s” e o plural costuma ser dado por outras palavras ou uso de sufixos, como kuery. Em respeito à língua originária, neste texto opto por não usar o “s” no plural da palavra guarani.
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Micael Olegário
Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.








































