ODS 1
Da música à erva-mate: os 400 anos de colonização e resistência nas Missões


Apagamento da violência nas narrativas sobre as reduções jesuíticas contribui para invisibilidade da presença milenar do povo guarani no sul


“O que a história relata / Não traduz as dimensões”. A memória humana é seletiva e no caso das reduções jesuíticas no Rio Grande do Sul, a escolha do que lembrar costuma limitar a história ao que aconteceu a partir de 1626, ou seja, aos últimos 400 anos. Mas antes disso, há pelo menos dois milênios, o povo Mbyá Guarani e outras etnias indígenas já habitavam esse território.
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“Liberdade e cultura / E até o jeito que se reze / Não se impõe a criatura / Com espada e catequese”. Estes versos e os que aparecem no início do parágrafo anterior pertencem à música “Pena Guarani”. A canção foi a última lançada pelo cantor e compositor Pedro Ortaça, reconhecido como um dos “troncos missioneiros”.
Com descendência guarani por parte da avó paterna, Pedro morreu aos 83 anos, no dia 29 de maio deste ano. Natural do interior de São Luiz Gonzaga, na região das Missões, o multiartista foi um dos responsáveis por cantar a história regional e, em algumas de suas obras, denunciar a exclusão social do povo mbyá guarani.
Já a narrativa oficial sobre a chegada dos padres da Companhia de Jesus ao atual território gaúcho costuma apagar a violência da colonização. A “herança” jesuíta costuma ser celebrada como marco do início da história do Estado, o que aparece no programa dos 400 anos das Missões, idealizado pelo governo do Rio Grande do Sul.
“Os 400 anos das Missões não são só uma data histórica: são uma disputa de memória no presente. O que está em jogo não é apenas o que aconteceu, mas quem escolhe o marco, o repertório, o monumento, o destino do orçamento e o sentido da comemoração”, destaca a etnomusicóloga e compositora Clarissa Ferreira.
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Veja o que já enviamosA música é um dos elementos centrais que aparecem na disputa sobre o sentido dos 400 anos das Missões. Outro elemento importante para a história e o presente do território é a erva-mate, um dos principais símbolos da cultura gaúcha e uma herança ancestral dos saberes e tecnologias do povo guarani.
Este repórter nasceu e cresceu em Caibaté, município conhecido como “Coração das Missões”. Ao longo da apuração, foram procuradas lideranças do povo guarani e um representante da Teko’a Koenju, de São Miguel das Missões, além de pessoas que estudam a história da região. Ainda assim, esta é uma narrativa não indígena sobre o período missioneiro.


Luta por justiça e reparação
Na programação original do Estado, dos cerca de R$50 milhões destinados para investimentos na região, principalmente em obras de infraestrutura e turismo, apenas 0,6% ou R$330 mil foram destinados para o povo guarani e investidos em um Espaço de Integração Sociocultural. O descaso com as comunidades mais afetadas pelo processo de colonização levou o Ministério Público Federal (MPF) a entrar com uma ação civil pública contra o governo estadual.
O objetivo da ação é garantir reparação histórica e justiça sócio econômica com investimentos em habitação, educação e saneamento para as comunidades guarani. No último dia 25 de maio, uma audiência de conciliação foi realizada em São Miguel das Missões com representantes do judiciário, do governo e de lideranças indígenas.
Como parte da tentativa de reorganizar as “celebrações” dos 400 anos das Missões, está prevista a realização de um “Encontro dos Povos Guaranis”, em novembro deste ano.
Professor da Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Igineo Romeu Ko’ẽju, em São Miguel das Missões, Mariano Reis Benites, 33 anos, é direto em afirmar que não há o que celebrar na história das Missões. “É uma chacina, na verdade, o que aconteceu”, aponta Karai, nome indígena de Mariano.
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A memória que ficou para o povo guarani do período é a de um processo de aculturação e redução no sentido literal da palavra. “Para nós, é triste esse episódio”, acrescenta Karai. Para quem a preservação da língua e da cultura é um desafio cotidiano em meio às pressões da sociedade não indígena.
Atualmente, a escola da Teko’a Koenju conta com cerca de 60 alunos, das aproximadamente 40 famílias que vivem na aldeia guarani, a única remanescente nas Missões, localizada a cerca de 30 km da sede de São Miguel das Missões.
Em sua língua originária, Koenju significa “amanhecer” ou “alvorecer”. O território conta com 236 hectares, em área adquirida pelo governo estadual em 2001 e cedida ao povo guarani. O artesanato é uma das principais fontes de renda da comunidade que possui ainda o coral Jerojy Mbaraete, responsável por realizar apresentações em diversos eventos culturais na região.


Roque González e Nheçu
A história das reduções jesuíticas no Rio Grande do Sul costuma ser contada em dois períodos distintos. A primeira fase inicia com a chegada do padre Roque González de Santa Cruz ao território do Tape (como era chamado pelos indígenas) em 1626, cruzando o Rio Uruguai, no local onde hoje fica o Porto de Santo Isidro, no interior do município de São Nicolau.
Nascido em Assunção, no Paraguai, Roque é descrito como um religioso que falava guarani e tinha facilidade para se aproximar dos indígenas. Apesar disso, nem todas as lideranças do povo mbya guarani aceitaram ser “reduzidas” e adotar o cristianismo. Esse conflito levou ao assassinato de Roque e outros dois padres em 1628, a mando de um cacique chamado de Nheçu.
Roque González e os padres João de Castilhos e Afonso Rodrigues foram posteriormente canonizados pela Igreja Católica. Durante muito tempo, a história de sua morte foi narrada como um ataque brutal dos indígenas, apagando a tentativa de aculturação dos jesuítas e a resposta militar da Coroa Espanhola.
“Eles dizimam, literalmente, terminam com toda a aldeia de Nheçu. Matam mulheres, crianças, indígenas, guerreiros e nesse entrevero, não se tem certeza absoluta disso, mas Nheçu se vê obrigado a fugir”, explica Josnei Weber, professor de História em Roque Gonzales.
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O primeiro período das reduções no Rio Grande do Sul, porém, segue até meados de 1637, quando as reduções passam a sofrer constantes ataques de bandeirantes paulistas. Os padres voltam a cruzar o Rio Uruguai em 1682 e fundam os chamados Sete Povos das Missões, marcando o início da segunda fase.


Erva-mate
O segundo período das reduções em solo gaúcho foi marcado por intensas transformações, entre elas a exportação de erva-mate das Américas. Nesse processo, as comunidades guarani foram protagonistas, uma vez que, foram elas que criaram as técnicas para a produção dessa erva com propriedades medicinais até hoje estudadas.
Jornalista e historiador com foco na história missioneira, Luiz Carlos Tau Golin é o autor de “Mateando: os ervais dos povos indígenas: história da erva-mate e do chimarrão”, obra lançada em 2002 e que trata das diferentes fases do uso da ka’a ou caá (erva-mate em guarani), parte do cotidiano e de ritos culturais desse povo originário.
“É uma genialidade dos povos indígenas, porque eles descobrem isso a partir dos galhos de árvores que dão a 15-20 metros de altura”, destaca Tau Golin. Posteriormente, os guaranis e os jesuítas também desenvolveram um método para quebrar a dormência das sementes e cultivar ervais próximos de suas cidades.
Antes de perceber o potencial medicinal e econômico da erva-mate, os jesuítas chegaram a proibir o seu consumo, o que perdurou até meados de 1630. Em determinados relatos coloniais, a ka’a chegou a ser chamada de “erva do diabo”.
Segundo Tau Golin, na metade do século XVII, cada redução estava limitada a vender 400 arrobas (cerca de 11 a 15kg) de erva-mate ao porto de Buenos Aires. “Para manter uma reserva de mercado aos ervateiros coloniais paraguaios, que produziam geralmente a erva de pau (com o talo), enquanto os indígenas possuíam produto de melhor qualidade, a Caá-Mini”.
Trabalho e tempo nas Missões
Tau Golin ressalta ainda que existe uma complexidade imensa ao se abordar o modo de organização das reduções. Segundo ele, existiam cacicados formados por lideranças indígenas que eram responsáveis por muitas atividades.
Ainda assim, os interesses e as lógicas que predominavam eram a dos jesuítas, inclusive, na organização do trabalho e do tempo. Os termos abambaé e tupambaé (em guarani) revelam essa dinâmica, em que o segundo se refere ao que era produzido para “Deus”, ou seja, destinado aos interesses da Coroa Espanhola e aos portos de exportação.
Tau Golin questiona a romantização do papel dos padres em “convencer” os indígenas a aderir ao projeto missioneiro. Segundo ele, abrir mão da autonomia e de seu modo de vida milenar foi a forma encontrada para evitar a escravização nas mãos de bandeirantes e encomenderos (colonizadores e latifundiários espanhóis).
Existe uma questão que fica nas entrelinhas desse processo histórico: entre a aculturação e a morte, existe realmente uma escolha?


Guerra Guaranítica
Mesmo a relevância econômica das Missões não impediu a Coroa Espanhola de assinar o Tratado de Madri (1750), o que desencadeou a chamada Guerra Guaranítica (1753–1756). Descontentes com a perspectiva de abandonar os seus territórios, parte dos guaranis das reduções decidiu resistir e milhares foram dizimados pelos exércitos conjuntos de Espanha e Portugal.
Na época, estima-se que cerca de 30 mil pessoas viviam nas reduções da margem oriental do Rio Uruguai. Um dos protagonistas da resistência indígena durante a Guerra Guaranítica foi Sepé Tiaraju, responsável por liderar a defesa do território e do povo mbya guarani das Missões.
A música missioneira, em especial, dá forma emocional a essa história: ela transforma as Missões em paisagem, herança, território, resistência, dor e identidade
O massacre, porém, não pôs fim ao projeto jesuítico no território da América do Sul e no Rio Grande do Sul. Tau Golin explica que os Sete Povos das Missões continuaram sendo alvo de disputas entre as duas potências ibéricas e retornaram ao domínio espanhol com o Tratado de Santo Ildefonso (1777).
“As Missões passam por várias fases e elas deixam de ser domínio jesuíta só em 1828, quando passam a ser vilas brasileiras”, pontua o historiador. Para Tau Golin, existe uma disputa em torno de um capital simbólico do que essa história representa para cada parcela da sociedade.
“Grupos que são hegemônicos em determinadas épocas dão um sentido para as coisas conforme a sua perspectiva”, enfatiza ele. No centro dessa disputa está o programa do governo estadual para “celebrar” os 400 anos, mesmo sendo uma história marcada por tantas violências.


Música
A música é outro elemento que surge com frequência como uma “herança” das reduções. Porém, quando se fala em música missioneira não se trata de uma continuidade ou resgate das melodias e canções do século XVII e XVIII, como explica Clarissa Ferreira.
“É uma construção moderna, consolidada sobretudo nas décadas de 1970 e 1980, que transforma o passado missioneiro em repertório, identidade regional e memória cultural”. Em seu canal no YouTube, a compositora e violinista descreve como esse imaginário foi construído.
Clarissa destaca que a arte e a música exercem o papel de tecnologias de memória e foram usadas nas reduções na catequese e na liturgia, como parte do mecanismo colonial. “A música missioneira, em especial, dá forma emocional a essa história: ela transforma as Missões em paisagem, herança, território, resistência, dor e identidade. Então ela não apenas “representa” as Missões, ela ajuda a dizer como elas devem ser lembradas”, complementa a etnomusicóloga.
A artista chama atenção para o fato de que o marco de 1626 organiza a narrativa histórica a partir da chegada dos colonizadores, contribuindo para o apagamento da presença anterior dos indígenas. Além disso, trata-se de uma disputa no presente, sobre quem pode falar e reivindicar a terra.
Além de Pedro Ortaça, fazem parte dos chamados troncos missioneiros: Jayme Caetano Braun, Noel Guarany e Cenair Maicá. Segundo Clarissa, em certa medida, a denúncia social da marginalização dos guarani nas canções desses artistas ajuda a não apagar o conflito.
“Muitas dessas canções trazem Sepé, a Guerra Guaranítica, a dor, o abandono, a expulsão e a violência colonial para o centro da narrativa. Isso já é muito importante, porque rompe com uma visão totalmente higienizada das Missões e produz uma memória mais crítica dentro da própria cultura regional”, aponta a etnomusicóloga.
Contudo, esse movimento possui um limite, ao colocar os indígenas como figuras do passado e na própria narração da história guarani por não indígenas. Diante desse contexto, cresce a necessidade de valorizar outras narrativas, a exemplo das produções audiovisuais de cineastas como Patrícia Ferreira Yxapy e Ariel Kuaray Ortega, entre outras.
Na perspectiva deste repórter, o trabalho de reconhecimento da história missioneira, para além dos reducionismos e da romantização do período, envolve incluir as reivindicações do povo guarani por autonomia e demarcação de terras. Além disso, cabe ainda a escuta ativa das comunidades remanescentes nas decisões do presente e futuro do Rio Grande do Sul, a exemplo, das discussões em torno do “Projeto Natureza”, da multinacional CMPC.
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Micael Olegário
Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.







































