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Descobridores do Zika no Brasil enfrentam escassez de financiamento

Primeiros a identificar vírus na América Latina, pesquisadores da Ufba superam dificuldades e detectam causa de meningite viral


O virologista Gúbio Soares no labóratío do do Instituto de Ciências da Saúde da Ufba: financiamento só veio depois da descoberta do Zika vírus no Brasil e pesquisas ainda sofrem com escassez de recursos (Foto: Christophe Simon/AFP)
O virologista Gúbio Soares no labóratío do do Instituto de Ciências da Saúde da Ufba: financiamento só veio depois da descoberta do Zika vírus no Brasil e pesquisas ainda sofrem com escassez de recursos (Foto: Christophe Simon/AFP)

O trabalho do virologista Gúbio Soares já era conhecido. As pesquisas sobre a dengue já tinham colocado o Laboratório de Virologia do Instituto de Ciências da Saúde (ISC), da Universidade Federal da Bahia (Ufba), do qual é um dos coordenadores, entre as referências de sua área. Não foi à toa que, em março de 2015, foi procurado por um amigo infectologista para ajudar a responder uma incógnita.

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Era o início de uma das principais descobertas científicas da história recente da Ufba e que levou a instituição às principais manchetes nacionais: a descoberta do Zika vírus na América Latina. Naquele contexto inicial, ninguém sabia do que se tratava. Os sintomas eram parecidos com o de muitas doenças tropicais – febre, dor nos olhos e articulações, coceira, pele cheia de marcas vermelhas.

No entanto, os casos crescentes em Camaçari, cidade da Região Metropolitana de Salvador e uma das maiores do estado, chamavam atenção. Nas emergências lotadas, alguns pacientes chegavam dizendo que era um problema de contaminação na água. Nos consultórios, reclamavam da empresa de abastecimento local.

O médico levou 25 amostras de pacientes para o professor Soares e para a professora Sílvia Pardi, também coordenadora do laboratório, que deram início a uma investigação minuciosa. Ao contrário dos pacientes, os pesquisadores não suspeitavam da água. Desde o início, presumiam que era algo transmitido por um inseto. Testaram para mais de 10 doenças infecciosas. Por fim, cinco amostras deram positivo para Zika.

O nosso legado para a Ufba é mostrar que todo investimento feito na Ufba resulta num bem para a sociedade. O legado também é mostrar a qualidade do nível dos pesquisadores da Ufba, porque a descoberta do Zika coloca nosso laboratório a nível internacional, ao lado de universidade americanas, inglesas ou alemãs

Gúbio Soares
Coordenador do Laboratório de Virologia da Ufba

Eles continuaram as análises. Amostras vinham de outros municípios baianos, inclusive Salvador. Fizeram testes com o método conhecido como RT-PCR, que significa reação de transcriptase reversa. Em termos gerais, é uma técnica de biologia molecular que identifica o material genético do vírus. No dia 28 de abril daquele ano, chegaram à conclusão final: a doença era mais uma ‘arbovirose’ transmitida por mosquitos como o Aedes aegypti, o mesmo da dengue, da Chikungunya e da febre amarela.

“Já existiam casos similares desde outubro de 2014 no Nordeste, mas o Ministério da Saúde não sabia o que era. Quando descobri que era o Zika vírus, comuniquei ao ministério. Pegaram minhas informações e pediram que enviasse minhas amostras. O (então) ministro (Arthur) Chioro confirmou que era isso e que nosso trabalho era algo sério, importante para o país e para a humanidade”, lembra Soares.

A descoberta foi publicada e o trabalho foi conhecido no mundo inteiro. Em poucos meses, a ex-doença misteriosa se tornaria uma epidemia nacional e o vírus ainda se espalharia por mais de 40 países. No ano seguinte, o Zika seria ainda o causador de outro drama nacional: em uma situação inédita no mundo, o vírus mostraria ter relação com a microcefalia em milhares de recém-nascidos.

O que nem todo mundo sabe é que, para encontrar o Zika, o Laboratório de Virologia não recebeu nenhum financiamento específico. Em 2015, não houve nenhum apoio do governo – seja federal ou estadual – para que continuassem pesquisando o vírus.

“A gente foi na raça, com o material que a gente tinha. Como a gente já trabalhava com dengue, tinha os reativos que poderiam ser usados para outros arbovírus. Já tínhamos os kits de biologia molecular. E o nosso laboratório continuou do mesmo jeito”, conta o pesquisador.

Os recursos só chegaram em setembro de 2016, quando o professor Soares ganhou um edital da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), uma fundação do Ministério da Educação (MEC). E isso só porque concorreu – como qualquer pesquisador do país. Com esse dinheiro, conseguiram bolsas para estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado.

Os professores Silvia Sardi Gúbio Soares, coordenadores do projeto sobre o Zika Vírus: identificação no sêmen, na urina e, agora, com causa de meningite (Foto: Divulgação/Ufba)
Os professores Silvia Sardi Gúbio Soares, coordenadores do projeto sobre o Zika Vírus: identificação no sêmen, na urina e, agora, com causa de meningite (Foto: Divulgação/Ufba)

Desde então, mesmo com financiamento escasso, o Laboratório de Virologia, que completou 19 anos, tem liderado pesquisas importantes sobre o Zika e suas consequências. O vírus já foi detectado por eles na saliva humana, na urina e, mais recentemente, foi identificado também como a razão de uma meningite viral.

Esse último foi detectado a partir da pesquisa de uma estudante de mestrado. Um artigo com mais detalhes sobre o achado deve ser publicado nos próximos meses. De 260 amostras coletadas no Hospital Couto Maia, que é referência para o tratamento de doenças infecciosas e parasitárias na Bahia, 16% deram positivo para o Zika vírus.

Em paralelo aos estudos com o Zika, o grupo continua estudando outras doenças. Desde 2015, também foram eles quem encontraram o vírus da Chikungunya no sêmen de um homem adulto e também no leite materno.

Os pesquisadores também foram responsáveis por encontrar o vírus da febre oropouche na Bahia. Transmitido pelo mosquito Culicoides paraenses (o popular ‘maruim’), o vírus é pouco conhecido no Brasil e nunca tinha sido registrado no estado. Os sintomas da oropouche incluem febre, mal-estar e dor de cabeça.

“O nosso legado para a Ufba é mostrar que todo investimento feito na Ufba resulta num bem para a sociedade. O legado também é mostrar a qualidade do nível dos pesquisadores da Ufba, porque a descoberta do Zika coloca nosso laboratório a nível internacional, ao lado de universidade americanas, inglesas ou alemãs”, analisa Gúbio Soares.

Pesquisador desde que o segundo semestre da graduação em Farmácia, o professor Soares vê com preocupação o cenário de contingenciamento de repasses do MEC às instituições federais de ensino. Atualmente, a Ufba passa por problemas financeiros. A própria reitoria já admitiu que tem dificuldades para pagar contas de água, luz, limpeza e vigilância – diretamente ligadas ao orçamento de custeio, que sofreu a maior parte da redução de recursos.

“Nós ficamos preocupados porque sempre trabalhamos com pouco dinheiro, mas sempre tivemos uma infraestrutura garantida. Hoje, a Ufba corre sérios riscos”, reflete. Ele explica que a falta de serviços básicos pode atrapalhar a rotina do laboratório, que é intensa. “Chego normalmente às 8h30 e saio 19h, 20h. Vou sempre aos sábados e a professora Sílvia também vai todos os sábados, porque, às vezes, durante a semana, a gente não dá conta”, explica que, trabalha ao todo, o Laboratório de Virologia conta com 15 pesquisadores associados, entre estudantes de graduação, mestrado e doutorado.

15/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil.


Escrito por Thais Borges

Thais Borges é jornalista e baiana. Trabalha no Correio*, em Salvador, e gosta de escrever sobre o cotidiano.

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