Fábulas verdes: clássicos infantis adaptados para explicar a crise climática para crianças

Foto com livros das Fábulas Verdes sobre mesa marrom. Na imagem, aparecem quatro livros da Chapeuzinho Vermelho, um aparece a capa, vermelha, com uma menina e um lobo e os outros abertos.

Série de livros propõe reescrever histórias e contextualizar desafios socioambientais para crianças

Por Micael Olegário | ODS 13ODS 4
Publicada em 22 de abril de 2026 - 09:46  -  Atualizada em 22 de abril de 2026 - 10:03
Tempo de leitura: 7 min

Foto com livros das Fábulas Verdes sobre mesa marrom. Na imagem, aparecem quatro livros da Chapeuzinho Vermelho, um aparece a capa, vermelha, com uma menina e um lobo e os outros abertos.
Série conta com adaptações para outras quatro línguas, culturas e biomas (Foto: Divulgação)

Quantas vezes você já leu ou ouviu a história de Chapeuzinho Vermelho? E a de Branca de Neve ou a dos Três Porquinhos? E se esses clássicos infantis pudessem ajudar a explicar a crise climática para crianças? É essa a proposta das Fábulas Verdes, série de livros com adaptações de clássicos para o contexto de emergência socioambiental contemporânea.

Na versão reinterpretada de Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, o foco da história é mostrar o impacto das queimadas e do desmatamento. A protagonista do conto infantil é uma menina negra que encontra um lobo-guará ferido em uma área do Cerrado brasileiro. O animal deixa de ser o vilão e os antagonistas são os grileiros responsáveis pelas queimadas ilegais.

A ideia do projeto Fábulas Verdes nasceu da inquietação de dois pais – Vinícius Malinoski e Guilherme Rech – de como trabalhar educação ambiental e climática com seus filhos. A alternativa encontrada foi incluir essa discussão em clássicos da literatura infantil, como os contos de fadas.

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“A ideia surgiu da urgência de falar sobre isso, especialmente com a geração que vai acabar sentindo mais os efeitos da crise climática. E começamos a ver que não existiam muitos jeitos prazerosos de falar sobre esse tema com as crianças”, explica Guilherme.

Inicialmente, foram feitas adaptações de cinco obras: além de Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve e Os Três Porquinhos, completam a lista as histórias A Formiga e a Cigarra e de João e o Pé de Feijão

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Os livros estão disponíveis em uma plataforma on-line. A iniciativa da produtora Feito também conta com adaptações culturais para alguns dos principais países emissores de carbono do mundo, como China (em mandarim), Estados Unidos (em inglês), Índia (em hindi) e Rússia (em russo).

Elaboração e desafios

Ao decidirem reescrever clássicos ao invés de elaborar histórias totalmente novas, os dois escritores perceberam que a natureza já aparecia como personagem nessas histórias. Porém, em muitos casos, o natural era associado com perigo, como no caso do lobo em Chapeuzinho Vermelho. 

Nas adaptações, a natureza deixa de ser algo a ser temido e a intenção é mostrar a interdependência entre humanos e mais-que-humanos (animais, plantas, insetos, rios). “Fazer isso com várias fábulas que as pessoas conhecem e mostrar que várias podem ganhar essa nova perspectiva parecia bem impactante”, aponta Vinícius Malinowski. 

As primeiras Fábulas Verdes foram lançadas em março e, futuramente, o objetivo é produzir também animações. Em relação às versões em outras línguas, Vinícius menciona o trabalho de pesquisa e contextualização, inclusive, para outros biomas.

No caso da versão russa de Chapeuzinho Vermelho, o animal da floresta é o lobo cinza, adaptado ao clima da tundra. Já a Branca de Neve possui traços diferentes conforme as etnias de cada país. “Quase transformamos a história toda, recontamos várias vezes para respeitar as culturas e os lugares”, complementa Guilherme Rech.

“A Rússia era um desafio, porque é o país que mais preservou lobos no mundo. Não podemos dar a entender que lá eles estão em extinção, mas é um país que tem sofrido muito com as queimadas. Por isso, fizemos a história com base na região da Mongólia, que têm realmente sofrido com incêndios gigantescos”, descreve Vinícius.

Em alguns casos, além de mudar o foco das narrativas, foi necessário também reduzir elementos. Parte dessas escolhas foram idealizadas para tornar as histórias simples mesmo que abordassem as mudanças climáticas, uma temática complexa até para adultos.

Três fotos coloridas, com livros abertos das Fábulas Verdes, com histórias da Chapeuzinho Vermelho e de Os Três Porquinhos
Série nasceu de intenção dos autores de falar sobre educação ambiental de forma atrativa para crianças (Foto: Divulgação)

Como ficaram as outras histórias

Na versão clássica, a história de Os Três Porquinhos gira em torno das ameaças do lobo às construções dos protagonistas. A releitura aborda a exploração da natureza pelos porquinhos para erguer construções frágeis e de baixo custo. Neste contexto, a natureza reage à falta de planejamento e os leva a refletir sobre a importância de adotar práticas mais responsáveis.

Em A Branca de Neve, a princesa e sua madrasta deixam de ser rivais e o problema é deslocado para a mineração. Na versão da série Fábulas Verdes, as duas personagens se unem para combater a poluição que vem da mina dos sete anões. 

“Três Porquinhos era fácil, porque a construção já estava pronta. Branca de Neve tem a questão da mineração. Alguns ganchos climáticos eram mais fáceis e a gente acabava construindo a história ao redor deles”, comenta Guilherme Rech. Todas as obras são ilustradas por Marcelo Calenda.

Na fábula da Formiga e da Cigarra, a primeira trabalha em uma indústria que está poluindo a floresta. Diante dessa situação, a cigarra passa a cantar canções de denúncia, reunindo diversos animais e insetos para protestar contra os impactos ambientais.

“Acaba tendo uma inversão dos papéis dos personagens. A formiga é até meio workaholic. Depois, ela se junta à causa da cigarra e relaxar um pouco mais, porque afinal de contas a floresta é perfeita do que jeito que é”, explica Vinícius Malinowski.

Por fim, a adaptação de João e o Pé de Feijão traz reflexões sobre a seca. Na história reimaginada, os gigantes estão roubando a água do vilarejo do protagonista, que então embarca em uma aventura não para virar rei, mas para ajudar a comunidade onde vive.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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