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Colmeias de luxo

Com população de abelhas em declínio, apicultura urbana está em alta e foi adotada por hotéis 5 estrelas


Simulação de como será a instalação The Hive no Kew Gardens em Londres
Simulação de como será a instalação The Hive no Kew Gardens em Londres

Faz zum zum e mel. Tem uma vida regrada em lugares tão diferentes quanto a Casa Branca em Washington e a Opéra em Paris. É responsável por polinizar cerca de um terço dos alimentos consumidos por seres humanos, segundo as Nações Unidas. E, desde o início da década, pode ser encontrada em atrações turísticas ou hospedada em luxuosos hotéis de Londres, Paris e Nova York, entre outras grandes cidades.
A população de abelhas está em declínio em parte do mundo, principalmente na Europa e na América do Norte. Colmeias urbanas em terraços de monumentos, lojas e hotéis de luxo não salvam o planeta, mas dão uma ajudinha. Nelas as abelhas têm chance de sobreviver aos predadores para fazer seu eficiente trabalho de polinização. No caso da hotelaria, os apiários ajudam a reforçar a imagem de estabelecimentos que querem associar sua marca a conceitos de sustentabilidade. E as abelhas ainda produzem o mel servido aos hóspedes do café da manhã ao drinque no bar. Colmeias urbanas tendem a ser mais produtivas do que as de áreas rurais.

É fundamental que as pessoas se conscientizem da relevância das abelhas para a polinização e para a vida

Daryl Bennett
Gerente de marketing do Kew Gardens
A instalação The Hive no pavilhão da Grã Bretanha na expo Milão
A instalação The Hive no pavilhão da Grã-Bretanha na expo Milão

No início do ano, o belíssimo Kew Gardens, o jardim botânico real em Londres, anunciou que sua grande atração no verão do Hemisfério Norte será a instalação “The Hive” (A Colmeia), com inauguração prevista para junho. O objetivo da instituição, classificada como patrimônio mundial pela Unesco e com mais de 1,5 milhão de visitantes por ano, é justamente chamar a atenção para a importância das abelhas na vida humana. “The Hive” foi criada por Wolfgang Buttress para o pavilhão do Reino Unido na Expo Mundial de 2015, realizada em Milão. Com 17 metros de altura, feita em alumínio e com iluminação por LED e sons que simulam a vida em uma colmeia, “The Hive” deu aos britânicos o prêmio de melhor pavilhão da feira.

“A instalação vai ficar em Kew Gardens até o final de 2017. É fundamental que as pessoas se conscientizem da relevância das abelhas para a polinização e para a vida”, disse Daryl Bennett, gerente de marketing do jardim botânico, durante o ExploreGB, evento realizado em março, na cidade inglesa de Liverpool, para promover o turismo na Grã-Bretanha.

Verdade que os ingleses, que amam jardins, se interessam por abelhas já há algum tempo. Recentemente, o filme “Mr. Holmes” (2015), estrelado por Ian McKellen, mostrou um Sherlock Holmes aposentado, com falhas de memória e criando abelhas em Sussex, no litoral. Aliás, teria sido inspirado em Sherlock Holmes que o escritor americano Paul Theroux começou seu apiário no Havaí, perto da capital do estado, Honolulu, na ilha de Oahu.

Bee and Bee hotel, um spa para abelhas no luxuoso St Ermins, em Londres
Bee and Bee hotel, um spa para abelhas no luxuoso St Ermins, em Londres

Um dos primeiros hotéis do Reino Unido a dar atenção ao novo zumbido urbano e instalar suas próprias colmeias foi o histórico St. Ermin’s, agora parte da Autograph Collection (bandeira do grupo americano Marriott). São mais de 300 mil abelhas em seis colmeias em um terraço no Centro de Londres, perto do St. James Park. O hotel acabou de passar por uma reforma de 30 milhões de libras (cerca de R$ 150 milhões) na qual o apiário também foi contemplado e ganhou um “bee & bee hotel”, uma área de descanso para as abelhas. O Caxton Bar, cenário de encontro de espiões durante a Segunda Guerra e a Guerra Fria, hoje serve uma espécie de “honey martini”, batizado de Bowler Hat, drinque com gim, vermute seco e mel da casa.

Várias atrações turísticas de Londres, você nem desconfia, estão repletas de colmeias. De acordo com a BBC, em 2014 já existiam 3.500 apiários na Grande Londres. Na movimentada área de Piccadilly Circus, a loja Fortnum & Mason, fornecedora da Família Real, cria cerca de 50 mil abelhas em quatro colmeias no topo do prédio. Na primavera e no verão os insetos vão ao Hyde Park, ao Green Park e aos jardins do Palácio de Buckingham. O mel fabricado ali é vendido na loja, mas é preciso entrar em uma lista de espera.

No hotel, St Ermins o mel é uma delícia também para os hóspedes
No hotel, St Ermins o mel é uma delícia também para os hóspedes

Londres tem apiários também na Tate Modern, na Tate Britain e no Victoria & Albert Museum. Os três, e mais o da Fortnum & Mason, estão sob os cuidados de Steve Benbow, de 47 anos, neto de apicultores. Ele se tornou um especialista em colmeias urbanas e lançou um livro sobre o assunto, “The urban beekeeper: a year of bees in the city” (Random House, 2014).
O interesse de Benbow surgiu durante uma visita a Paris, uma das capitais europeias mais amigáveis para as abelhas, porque o uso de pesticidas é proibido nos jardins da cidade já faz tempo. Elas estão no topo da Opéra Garnier desde a década de 1980, e também no Grand Palais e entre as gárgulas da Notre-Dame. Até a loja da Louis Vuitton na Avenue des Champs-Elysées cria mais de 200 mil abelhas, que por ano produzem 75 quilos de mel, presenteados aos clientes da grife.

Apiário do Mandarin Oriental, com vista privilegiada: mel para pratos e drinques
Apiário do Mandarin Oriental, com vista privilegiada: mel para pratos e drinques

Um dos novos hotéis mais luxuosos da capital francesa, o Mandarin Oriental, já surgiu com colmeias. Encravado entre as muitas butiques grifadas da Rue Saint-Honoré, o MO Paris cria abelhas desde a sua inauguração, em 2011, e hoje tem em torno de 50 mil no terraço que fica atrás da fachada art déco da década de 1930. Com o Jardin des Tuilleries ali perto, elas produzem entre 20 e 30 quilos de mel por ano. O miel maison é usado em pratos elaborados pelo chef Thierry Marx, com duas estrelas Michelin. No lindo balcão do Bar 8, complementa um drinque com chá de jasmim, gengibre e champanhe, o Maya, e outro com suco de limão, Cointreau e rum, chamado de Honey Kingston. Quem se senta ao ar livre no delicioso restaurante Camélia, no jardim interno do hotel, de vez em quando vê uma abelha ou outra por ali.

Este novo esforço de empresas e organizações para criar abelhas em seus terraços oferece uma solução urbana para o declínio da população dos mais eficazes polinizadores do mundo, causado por vários fatores, entre eles o uso de pesticidas e a degradação do meio ambiente. Já os críticos dizem que, na realidade, as colmeias urbanas apenas fazem com que as abelhas fiquem mais estressadas competindo por fontes escassas de comida nas grandes cidades, porque não há flores o suficiente.

O apiário urbano mais famoso de Nova York fica no emblemático Waldorf Astoria.
Na Park Avenue, no Centro de Manhattan, o elegante hotel foi um precursor na criação de abelhas na cidade. Os insetos chegaram em 2012 em um carro de luxo e foram levados até o terraço no 20º andar, com vistas espetaculares

Visitantes com apifobia não veem graça na novidade. Mas parece que as abelhas vão ficar por um tempo pelas cidades.
Em 2010, Londres e Nova York revogaram leis que proibiam colmeias no centro urbano. A rede hoteleira InterContinental tem dois hotéis de luxo em Nova York (Times Square e Barclay) e colmeias em ambos, assim como no seu hotel de Boston, onde as abelhas chegaram em 2010. Mas o apiário urbano mais famoso de Nova York fica no emblemático Waldorf Astoria.
Na Park Avenue, no Centro de Manhattan, o elegante hotel foi um precursor na criação de abelhas na cidade. Os insetos chegaram em 2012 em um carro de luxo e foram levados até o terraço no 20º andar, com vistas espetaculares. Hoje há seis colmeias, com mais de 300 mil abelhas que produzem cerca de 130 quilos de mel por ano. Nos dias ensolarados elas vão passear no Central Park. Como no Mandarin Oriental em Paris, o mel inspira pratos do cardápio no clássico Peacock Alley e coquetéis. No caso, os drinques são com vodca em vez de champanhe ou rum. Ano passado foi lançada uma cerveja com o mel da casa, que ainda é usado em tratamentos do spa com a grife Guerlain.

As abelhas urbanas também podem descobrir fontes improváveis de alimentos. Andrew Cote, o apicultor do Waldford Astoria, foi chamado para examinar uma colmeia no Brooklyn onde as abelhas começaram a produzir um mel vermelho e brilhante. Depois de alguma pesquisa ele descobriu que os insetos tinham encontrado uma fábrica de cerejas marrasquino nos arredores. Para não correr o risco de servir mel vermelho no Waldorf Astoria, o hotel mantém um jardim no terraço com manjericão e tomilho, além de vegetais que são usados nos pratos do Peacock Alley.

No Waldorf Astoria, apicultores cuidam das hóspedes ilustres
No Waldorf Astoria, apicultores cuidam das hóspedes ilustres

Na Austrália, onde a população de abelhas ainda não registra declínio significativo, o Swissôtel de Sydney se adiantou e foi o pioneiro. Instalado no Central Business District (Sydney CBD), uma das áreas mais movimentadas da cidade australiana, há quatro anos tem um apiário em seu terraço com quatro colmeias e 200 mil abelhas. O mel orgânico produzido no hotel inspira pratos e drinques do cardápio de seu restaurante, Just Pure Bistro. Os queijos da região, por exemplo, são servidos acompanhados de favos de mel colhidos no terraço. Durante a primavera e o verão, as abelhas vão até o Jardim Botânico e o Hyde Park da cidade, ambos nos arredores do hotel. No restante do ano elas se distraem com vasos de lavanda, alecrim e manjericão instalados estrategicamente perto das colmeias. “São iniciativas simples e eficazes como esta que fazem a diferença nos nossos esforços para promover uma vida mais saudável, sustentável e amiga do meio ambiente”, disse Daniel Fueglister, então gerente geral do hotel, quando o projeto foi lançado.

O Swissôtel faz parte do mesmo grupo dos hotéis Fairmont, o FRHI Hotels & Resorts, pioneiro na criação de abelhas e com colmeias em mais de 20 propriedades por todo o mundo. No lindo Fairmont Mayakoba, na Riviera Maya, no México, as cinco mil abelhas produzem o mel que é usado em tratamentos no spa. Já no Fairmont Waterfront, em Vancouver, na Costa Oeste do Canadá, são mais de 500 mil abelhas. No bar, o mel mais uma vez é aproveitado em um drinque, aqui acompanhando o gim.

No Lapostolle, a apicultura é combinada com vinhedos e agricultura orgânica
No Lapostolle, a apicultura é combinada com vinhedos e agricultura orgânica

Na vizinhança, licor, mel e vinho

Grandes redes hoteleiras têm investido muito em sustentabilidade, e criar abelhas é apenas uma pequena parte desses programas. Mas pequenos estabelecimentos independentes também têm se preocupado com o assunto. Em fevereiro, logo depois de o Kew Gardens anunciar que ia trazer “The Hive” para uma longa temporada nos jardins, o Relais & Châteaux, grupo de luxuosos hotéis independentes, divulgou seus associados com colmeias próprias. Há pequenos hotéis produzindo mel na França, no Reino Unido, nos Estados Unidos e até aqui ao lado, no Chile, no Lapostolle Residence, no Vale de Colchagua, a duas horas e meia de Santiago.

“As abelhas fazem todo sentido em um lugar que tem um vinhedo biodinâmico e uma horta orgânica. O apiário já tem cinco anos”, conta Karina Kotzanek, gerente do hotel que esteve no Rio mês passado para divulgar o Lapostolle para os brasileiros. “Foi ideia da proprietária, Alexandra Marnier Lapostolle de Bournet, da família francesa que criou o licor Grand Marnier.”

O Lapostolle tem apenas quatro villas, cada uma com o nome de uma uva dos vinhedos biodinâmicos e orgânicos de Clos Apalta, que ficam ao lado do hotel. As ervas e os vegetais usados no restaurante, aberto ao público em geral, também são orgânicos e plantados na propriedade. Harmonização perfeita com vinho biodinâmico e mel da casa.

 


Escrito por Carla Lencastre

Jornalista carioca, escreve sobre estilo de vida, turismo e viagens para diversas publicações impressas e websites brasileiros. Editou durante 11 anos a revista e o site de viagens do jornal "O Globo". Anda pelo mundo desde sempre, a passeio e a trabalho. Gosta de visitar novos lugares, de revisitar velhos conhecidos, de contar uma boa história para estimular os outros a sair por aí e de pensar em como o turismo é importante do ponto de vista econômico.

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