A Igreja Católica manteve expressivo monopólio sobre a prática religiosa no Brasil por quase cinco séculos. No primeiro censo demográfico do país, em 1872, os católicos representavam 99,7% da população, e o percentual permaneceu acima de 92% até 1970.
Contudo, nos últimos 50 anos, esse cenário mudou radicalmente com o avanço da transição religiosa, marcada pelo declínio do catolicismo e pelo crescimento dos demais grupos. Em 2000, o percentual de católicos havia caído para 73,9%, enquanto os evangélicos alcançavam 15,4%, os sem religião, 6,4%, e outras religiosidades, 4,3% (Alves e Cavenaghi, 2026)
O levantamento mais recente, divulgado em setembro de 2026, revelou um panorama ainda mais plural. A pesquisa “Religião e Vida Pública no Brasil“, realizada pelo ISER em parceria com a Quaest, registrou 50% de católicos, 29% de evangélicos, 14% de pessoas sem religião e 7% de adeptos de outras religiosidades.
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Veja o que já enviamosEssa reorganização do panorama religioso brasileiro reflete as profundas mudanças estruturais consolidadas no país desde a Proclamação da República. Analisei detalhadamente esse processo no artigo “Mudanças sociodemográficas e a transição religiosa no Brasil” (Alves, 29/06/2026), publicado aqui no #Colabora.
Se as mudanças econômicas, sociais e demográficas transformaram o cenário religioso do país, a nova correlação de forças entre esses grupos passa a impactar diretamente a dinâmica cotidiana da sociedade brasileira — além de pautar o debate político nas eleições presidenciais de 2026. Apenas dez dias antes do primeiro turno das eleições gerais de 2026, uma intensa polêmica envolveu os dois maiores grupos religiosos do país.
Nossa Senhora Aparecida e disputa política/religiosa brasileira
Nossa Senhora Aparecida tornou-se oficialmente a Padroeira do Brasil em 16 de julho de 1930, por meio de decreto do Papa Pio XI emitido a pedido dos bispos brasileiros. A proclamação solene ocorreu em 31 de maio de 1931 na então capital federal, o Rio de Janeiro. Na ocasião, a imagem foi transportada da cidade de Aparecida até o Rio de Janeiro em uma cerimônia que reuniu o presidente Getúlio Vargas, diversas autoridades e uma grande multidão de fiéis.
Décadas mais tarde, na última etapa do século XX, o debate em torno da imagem religiosa ganhou contornos de conflito inter-religioso no episódio que ficou conhecido como o “Chute na Santa”. Em 12 de outubro de 1995 — dia dedicado à padroeira —, o então pastor Sérgio von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), atacou verbalmente o culto católico às imagens durante a exibição do programa O Despertar da Fé, na TV Record, chegando a desferir chutes e golpes contra uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. A intenção declarada era demonstrar a ausência de poder divino em estátuas de madeira, além de criticar os recursos financeiros gastos pelos fiéis na compra de artigos religiosos. O ato provocou forte reação popular, especialmente entre os católicos, resultando em manifestações de desagravo, investigações policiais a pedido do Ministério Público de São Paulo e notas formais de repúdio por parte das autoridades locais de Aparecida.
Mais recentemente, no contexto da disputa eleitoral de 2026, a figura de Nossa Senhora Aparecida voltou ao centro do debate público em razão de uma fake news associada ao candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Em agosto daquele ano, o candidato declarou que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A partir de setembro, conteúdos enganosos começaram a circular nas redes sociais sustentando que tal medida implicaria a retirada do título de padroeira do país de Nossa Senhora Aparecida.
A associação provou-se falsa, pois não havia uma proposta efetiva nesse sentido na plataforma do candidato. As publicações utilizavam, de forma descontextualizada, um Projeto de Lei de 2007 de autoria do ex-deputado Victório Galli, o qual propunha alterar a denominação de “padroeira do Brasil” para “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos” — projeto este arquivado ainda em 2008. Diante da repercussão, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) veio a público esclarecer que não produziu nem divulgou desinformação eleitoral, reiterando sua neutralidade partidária.
O caso assumiu contornos jurídicos complexos em torno do equilíbrio entre a liberdade de expressão e o combate à desinformação. Inicialmente, o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ordenou a remoção dos conteúdos falsos por considerá-los notoriamente inverídicos. Em seguida, desdobramentos no Supremo Tribunal Federal (STF) e recursos apresentados pelas partes envolveram pronunciamentos dos ministros Flávio Dino e Luiz Fux, culminando na decisão do Plenário do TSE, em 30 de setembro, que determinou a derrubada das publicações enganosas nas redes sociais, ao mesmo tempo em que ajustou o entendimento referente a publicações humorísticas sobre o tema.
A controvérsia foi incorporada às estratégias de campanha: enquanto a oposição utilizou o episódio para defender a fé católica e criticar o adversário, Flávio Bolsonaro afirmou ser vítima de desinformação orquestrada. Assim, Nossa Senhora Aparecida emergiu não apenas como um símbolo teológico, mas como um elemento central de identidade cultural e política. O episódio reacendeu o debate sobre as intersecções entre religião e política, evidenciando como disputas confessionais podem tensionar o princípio constitucional do Estado Laico.
Intenção de voto e posicionamento político
A polêmica em torno de Nossa Senhora Aparecida constitui apenas a dimensão mais visível de divergências ancoradas em concepções políticas distintas. Ainda que exista expressiva heterogeneidade interna em todos os segmentos, desenha-se uma clara assimetria de prioridades no eleitorado brasileiro:
- Católicos: De modo geral, inclinam-se a apoiar uma maior presença do Estado na proteção social e apresentam posições mais plurais na pauta de costumes (como direitos reprodutivos, diversidade sexual, arranjos familiares e o papel da religião na esfera pública). Influenciada historicamente pela Doutrina Social da Igreja e pela Teologia da Libertação, a tradição católica no Brasil tende a demandar a atuação estatal no combate às desigualdades e no financiamento do bem-estar social.
- Evangélicos: O segmento demonstra maior coesão em posições conservadoras nos costumes e forte alinhamento com discursos de liberalismo econômico e do empreendedorismo. Embora lideranças neopentecostais promovam o livre mercado e a “Teologia da Prosperidade”, há uma contradição prática: o fiel evangélico de baixa renda, morador das periferias, frequentemente depende de programas de transferência de renda e de serviços públicos essenciais de saúde e educação.
- Sem religião: Em expansão acelerada — sobretudo entre jovens e homens —, este grupo posiciona-se no extremo oposto ao conservadorismo evangélico. É o segmento mais liberal em termos morais e comportamentais, defendendo rigorosamente a laicidade do Estado e o fortalecimento de políticas públicas de proteção social.
- Espíritas: Composto majoritariamente por uma população de classe média e média-alta com elevado nível de escolaridade, o grupo tende a posições conservadoras em pautas como aborto, eutanásia e suicídio, interpretados sob a ótica dos “resgates cármicos”. Contudo, em temas relativos aos direitos civis e à diversidade interpessoal, costumam ser mais tolerantes do que o conservadorismo evangélico tradicional. Politicamente, alinham-se historicamente ao centro, à centro-direita e a movimentos liberais-conservadores, embora exista uma corrente minoritária de “espíritas progressistas”.
- Religiões de Matriz Africana (Candomblé, Umbanda, entre outras): Apresentam perfil predominantemente progressista e plural. Apoiam a diversidade, o respeito às identidades de gênero e orientações sexuais, a preservação ambiental e a autonomia individual. Defendem a presença atuante do Estado na garantia de direitos fundamentais, no combate ao racismo religioso e na implementação de políticas de ação afirmativa. Politicamente, mantêm forte convergência com partidos de esquerda e centro-esquerda, com lideranças frequentemente vinculadas aos movimentos negros e de direitos humanos.
As intenções de voto por grupos religiosos
As diferenças teológicas e as distintas visões de mundo resultam em escolhas eleitorais divergentes entre os quatro grandes grupos religiosos. Os gráficos a seguir, da pesquisa BTG/Nexus, ilustram as intenções de voto, nos meses de agosto e setembro, para os dois principais candidatos à Presidência no primeiro turno de 4 de outubro de 2026.
Entre o eleitorado católico (que representa 50% do perfil da amostra), a vantagem é do candidato Luís Inácio Lula da Silva. Na rodada da pesquisa divulgada em 03 de agosto de 2026, Lula tinha 46% das intenções de voto contra 34% de Flávio Bolsonaro (uma diferença de 12 pontos). Nos dois meses anteriores ao primeiro turno, as intenções de voto variaram, mas com tendência de vantagem para Lula. Na rodada da pesquisa divulgada em 28 de setembro Lula aparecia com 47% e Flávio com 33% (uma diferença de 14 pontos).
Entre o eleitorado evangélico (que representa 28% do perfil da amostra), a vantagem é do candidato Flávio Bolsonaro. Na rodada da pesquisa divulgada em 03 de agosto, Flávio tinha 50% das intenções de voto contra 28% de Lula (uma diferença de 22 pontos). Nos dois meses anteriores ao primeiro turno, houve oscilações nas intenções de voto e, na rodada da pesquisa divulgada em 28 de setembro, Flávio aparecia com os mesmos 50% e Lula com 31% (uma diferença de 19 pontos).
Entre o eleitorado que se declara sem religião (formando o terceiro grupo mais numeroso, com 12% do perfil da amostra), a vantagem é de Lula. Na rodada da pesquisa divulgada em 03 de agosto, Lula tinha 52% das intenções de voto contra 23% de Flávio (uma diferença expressiva de 29 pontos). Nos dois meses anteriores ao primeiro turno, houve pequenas oscilações e, na rodada da pesquisa divulgada em 28 de setembro, Lula aparecia com os mesmos 48% entre os sem religião e Flávio com 24% (uma diferença de 24 pontos).
Entre o eleitorado das demais religiões (representando 10% do perfil da amostra) há aproximadamente um empate. Na rodada da pesquisa divulgada em 03 de agosto, Lula tinha 46% das intenções de voto contra 30% de Flávio (uma diferença expressiva de 16 pontos). Nos dois meses anteriores ao primeiro turno, houve empate na rodada de 17 de agosto, oscilações nas rodas seguintes e novamente empate na rodada da pesquisa divulgada em 28 de setembro, com 38% para Flávio e 37% para Lula (situação de empate técnico). Neste grupo de outras religiões, o apoio para Lula é majoritário entre as religiões de matriz africana e o apoio para Flávio é majoritário entre os espíritas.


Para o Brasil como um todo, a pesquisa BTG/Nexus, na rodada de 03 de agosto de 2026, indicava os seguintes percentuais de intenção de voto estimulado no 1º turno, considerando votos validos: Lula 44%, Flávio 40%, e os outros 16%. Na rodada de 28 de setembro os percentuais de intenção de voto estimulado no 1º turno ficaram em: Lula 44%, Flávio 39%, e os Outros 17%.
Voto e religião: o resultado do 1º turno das eleições presidenciais de 2026
Os resultados das urnas não referendaram a vantagem do presidente Lula. Os números do 1º turno do pleito presidencial de 2026, divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na noite de 4 de outubro, registraram Flávio Bolsonaro com 47% dos votos válidos, Luiz Inácio Lula da Silva com 45% e os demais candidatos somando 8%. Dessa forma, contrariando as projeções de levantamentos como os do BTG/Nexus, Quaest e Datafolha, o candidato Flávio Bolsonaro finalizou a primeira etapa da disputa numericamente à frente de Lula.
Para avaliar a relação entre a transição religiosa e o comportamento do eleitorado no 1º turno, o gráfico abaixo correlaciona a Razão de Votos entre Flávio e Lula (RFL) — calculada a partir dos dados do TSE — com a Razão entre Evangélicos e Católicos (REC) nas Unidades da Federação, segundo dados da Pesquisa ISER/Quaest (2026). O objetivo é testar se o avanço do segmento evangélico nos estados associa-se a uma maior proporção de votos em Flávio Bolsonaro e se a maior presença católica correlaciona-se a uma maior votação em Lula.
Evidentemente, a decisão do eleitor é influenciada por múltiplos fatores, dentre os quais destacam-se os religiosos. Conforme indicado pela curva logarítmica vermelha no gráfico abaixo, observa-se uma associação positiva entre o avanço da transição religiosa e a proporção de votos obtidos por Flávio em relação a Lula (com R2 = 27,6%). Embora a religião não seja a única variável explicativa do resultado eleitoral, sua associação com o voto é consistente e significativa.
O gráfico evidencia que os estados mais avançados no processo de transição religiosa (como Roraima, Acre e Rio de Janeiro) garantiram expressiva vantagem a Flávio Bolsonaro. Em contrapartida, os estados do Nordeste — que registram a menor proporção de evangélicos e a maior densidade de católicos — deram uma vitória expressiva ao candidato do PT. O candidato Lula saiu vitorioso em 12 UFs, especialmente aquelas com maior proporção de católicos. O candidato Flávio ganhou em 15 UFs, não só aquelas com maior proporção de evangélicos, mas também nas UFs da região Sul com alta proporção de católicos.


Roraima, por exemplo, apresenta a maior REC do país (175 evangélicos para cada 100 católicos) e foi justamente a Unidade da Federação onde Flávio obteve a maior vantagem proporcional sobre Lula, registrando 3,1 votos para o candidato do PL para cada voto dado ao candidato do PT. Por outro lado, a maior vitória de Lula ocorreu no Piauí, estado com a menor razão entre evangélicos e católicos (REC = 26, isto é, aproximadamente 1 evangélico para cada 4 católicos).
Considerações finais
Em suma, a transição religiosa no Brasil deixou de ser apenas um fenômeno demográfico e comportamental para se consolidar como um vetor determinante na geografia eleitoral do país. Conforme demonstrado pelos dados do 1º turno das eleições de 2026, a distribuição espacial dos grupos religiosos correlaciona-se de forma direta com o desempenho dos candidatos: o avanço evangélico impulsionou a votação de Flávio Bolsonaro, especialmente em estados do Norte e do Centro-Oeste, enquanto a hegemonia católica no Nordeste permaneceu como a principal base de sustentação eleitoral de Lula. A disputa em torno de símbolos confessionais durante a campanha reafirma como as identidades religiosas continuam no centro das narrativas estratégicas e das decisões do eleitorado.
Diante da projeção de contínuo crescimento do segmento evangélico no país, a influência da fé nas urnas tende a se aprofundar nos próximos ciclos eleitorais. Para o 2º turno e para os futuros governos, o desafio central consistirá em articular políticas públicas e discursos capazes de dialogar com uma sociedade crescentemente plural, equilibrando as demandas das diversas visões de mundo confessionais e seculares sob a garantia constitucional do Estado laico.
Referências:
ALVES, JED. Mudanças sociodemográficas e a transição religiosa no Brasil, # Colabora, 29/06/2026
https://projetocolabora.com.br/ods16/mudancas-sociodemograficas-e-a-transicao-religiosa-no-brasil/
ALVES, JED; CAVENAGHI, S. Transição religiosa no Brasil — pluralidade e mudança de hegemonia, Insight Inteligência, Edição 113, junho de 2026
https://insightinteligencia.com.br/transicao-religiosa-no-brasil-pluralidade-e-mudanca-de-hegemonia/
Religião e Vida Pública no Brasil, ISER/Quaest, 2026
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