Senti a História nos meus pés cansados

Manifestação para defender o voto em Washington: no mesmo palco do mais famoso discurso de Martin Luther King, milhares se reúnem pelo direito a votar dos dos negros nos EUA (Foto: Divulgação)
Manifestação para defender o voto em Washington: no mesmo palco do mais famoso discurso de Martin Luther King, milhares se reúnem pelo direito a votar dos dos negros nos EUA (Foto: Divulgação)
Manifestação para defender o voto em Washington: no mesmo palco do mais famoso discurso de Martin Luther King, milhares se reúnem pelo direito a votar dos dos negros nos EUA (Foto: March on Washington 2026 / Divulgação)

No mesmo palco do mais famoso discurso de Martin Luther King, milhares marcham em defesa dos direitos ao voto dos negros nos EUA

Por Julia Michaels | ArtigoODS 10

Publicado em 11/09/2026 - 10h08 (Atualizado há 5 minutos)

Tempo de leitura: 17 min

Defensores do direito de votar para negros norte-americanos se juntaram nos caminhos, árvores e gramados entre o Memorial Lincoln e o Mall Nacional, em Washington, DC, no fim de agosto. A aglomeração fez parte da batalha entre o autoritarismo e a democracia, em curso nos Estados Unidos.

Incrivelmente, eu estava lá – e me senti parte da História, pois o evento aconteceu exatamente 63 anos após uma marcha pelos direitos civis (e outras demandas), no mesmo lugar, com aproximadamente 250 mil pessoas presentes. Foi em agosto de 1963 que a cantora de gospel Mahalia Jackson insistiu que o pastor e líder pelos direitos civis, Dr. Martin Luther King, deixasse de lado suas palavras preparadas.

O resultado: o discurso “Tenho um Sonho”.

Nele, King denunciou a falta de liberdade dos negros norte-americanos, cem anos depois da emancipação, ainda “aleijados pelos algemas da segregação e as correntes da discriminação”.

Leu essa? Uma questão de pele, em todos os sentidos

O sonho de King era que seus quatro filhos “vivessem um dia numa nação onde não seriam julgados pela cor da pele e, em vez disso, pelo conteúdo do caráter”, que os filhos de ex-escravizados e ex-donos de escravizados pudessem “sentar na mesa de fraternidade”, que até o estado de Mississipi, que ele denunciou como “suando com o calor da injustiça”, fosse transformado “num oásis de liberdade e justiça”, que a liberdade fosse soar de todas as montanhas na América, para que todos os filhos de Deus, “homens negros e homens brancos, judeus e gentílios, protestantes e católicos” pudesse juntar as mãos e cantar “Livres, enfim”.

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Dois anos depois, o congresso norte-americano aprovou e o presidente Lyndon Baines Johnson assinou a Lei de Direitos de Voto, que removia barreiras ao voto dos negros, como testes de alfabetização, sobretudo no Sul do país.

Este ano, a Suprema Corte reinterpretou a lei promulgada quando eu tinha dez anos, abrindo o caminho para o enfraquecimento da representação de bairros negros em todo o país. O presidente Trump fez a sua parte, com ordens executivas no ano passado e neste, dificultando o registro de voto e o envio de cédulas pelos correios. Há conflitos judiciais a respeito por toda parte nos EUA, atualmente, enquanto os eleitores se preparam para eleger seus congressistas e oficiais estaduais, em novembro.

O reverendo negro, ativista e comentarista de TV a cabo Al Sharpton, um dos organizadores da Marcha de 2026 pela sua Rede Nacional de Ação, denunciou a “nulificação” da Lei de 1965 pela Suprema Corte, afirmando que a Marcha deste ano era a mais importante de todas que vem organizando, há muitos anos.

O saudoso e perspicaz escritor negro James Baldwin, meu guru em matéria de racismo, talvez nos explica o que estávamos fazendo ali diante do Abraham Lincoln, espiralando no tempo. Escreveu meses antes do discurso de King, no seu livro Da Próxima Vez, o Fogo (Cia das Letras, 2024), sobre brancos: “Na verdade, elas ainda estão presas numa história que não compreendem; e, até que a compreendam, não poderão se libertar dela. Tiveram que acreditar durante muitos anos, e por inúmeras razões, que os homens negros são inferiores aos homens brancos. Muitas delas, de fato, sabem que não é bem assim, mas, como você vai descobrir, as pessoas acham muito difícil agir com base no que sabem.”

De fato, o idealismo de Dr King empalideceu – e soa mais fraco ainda, diante de um governo que parece valorizar aparência, dinheiro e fama acima de tudo.

O Instituto da Paz agora com o nome de Trump: governo dos EUA valoriza aparência, dinheiro e fama acima de tudo (Foto: Julia Michaels)
O Instituto da Paz agora com o nome de Trump: governo dos EUA valoriza aparência, dinheiro e fama acima de tudo (Foto: Julia Michaels)

A caminho do Memorial Lincoln

No caminho da estação de metrô Foggy Bottom para o memorial, avistei o Kennedy Center na distância, condenado ao desuso (e, possivelmente, ao derrubamento) por Trump, que insiste em acrescentar o nome dele ao do jovem presidente assassinado meses depois do discurso Tenho Um Sonho. Vi que no United States Institute of Peace, Trump sim conseguiu colocar o nome dele. Já desde o canto sombreado onde me instalei para ouvir os discursos em prol do voto negro (e contra Trump e seus aliados políticos), espiei um vulto brilhando no sol de verão, na distância: uma das estátuas na Arlington Memorial Bridge, recém-douradas pelo presidente atual.

E claro, do nosso lado estava a Piscina Refletiva do Memorial Lincoln, esvaziada, devido a uma demorada e acidentada reforma iniciada em abril passado por Trump. Tudo isso faz parte de seu plano para fazer Washington “seguro, de novo” (os homicídios já vinham caindo), que por sua vez faz parte do Make America Great Again, cuja popularidade vem caindo diante dos preços da gasolina e da comida, a guerra no Irã, a caça aos imigrantes e a resistência em publicar os arquivos governamentais sobre o pedófilo Jeffrey Epstein e seus amigos, um dos quais era Trump.

Dominando as evidências de valores destoantes com o sonho de King, surge o Memorial Lincoln, uma estrutura branca em estilo grego, abrigando uma enorme estátua sentada do presidente que em 1863 iniciou a abolição da escravatura nos EUA. Estive lá dentro, empequenecida pela dimensão gigantesca de Lincoln, quando visitei minha filha e a família dela em maio passado. Olhei para cima e fiz um prece silencioso para que ele nos ajudasse a sobreviver esses tempos desafiadores.

Pois hoje a divisão de direitos civis do Departamento de Justiça, em vez de fazer cumprir leis dos anos 1960 que protegem os direitos de minorias, caça universidades por suposta discriminação contra brancos e monitora eleições de forma tão agressiva que já irritou até governadores republicanos, de acordo com o New York Times.

Soube da Marcha de agosto 2026 um mês antes. Pensei: Chegou a hora. Eu estava viva em 1963, uma menina branca de 8 anos. Não lembro da ocasião, do Sonho de Dr King — e não fiz nada pelos direitos civis durante minha juventude. Seria também uma chance de estar com os netos. Nunca é demais.

Um amigo negro que mora perto de Washington disse que iria comigo – e caiu fora na última hora.

Iria sozinha para fazer algo inédito na minha vida, algo possivelmente perigoso. No site da Marcha, instruções para levar tudo numa bolsa transparente, não levar cartaz com qualquer suporte, evitar água em garrafas. Haveria uma revista, portanto pedia-se chegar até as 8h, para um evento marcado às 9h.

Julia (à esquerda) com seu cartaz escrito a mão e seus colegas de manifestação: defesa da democracia (Foto: J. R. Pyles)
Julia (à esquerda) com seu cartaz escrito a mão e seus colegas de manifestação: defesa da democracia (Foto: J. R. Pyles)

Black Votes Matter

Na noite anterior, fiz um simples cartaz, de segurar na mão, escrito: Born in ’54, still so much more. Black Votes Matter! (Nascida em 1954, falta muito. Os votos negros importam!) Minha neta Aurora se aproximou à mesa e pediu para ver o cartaz. Expliquei do que se tratava. Quando viu a cara triste que eu havia desenhado, ela comentou, do alto de seus sete anos, que faltava alegria. Desenhou uma cara feliz acima do “Black Votes Matter”, apontando essas palavras com uma seta.

Às 6h30 do dia seguinte, sem o café da manhã, tomei um Uber da casa de minha filha, em Virginia, chegando com algum nervosismo na estação de metrô de onde, calculei, demoraria meia hora para chegar em Washington, com uma breve caminhada até o Memorial.

Qual minha surpresa encontrar um pequeno grupo de pessoas na entrada do metrô, uma delas, uma mulher negra, portando uma camiseta da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People), a organização pioneira na promoção dos direitos civis norte-americanos – que organizou essa marcha, junto com a National Urban League, o National Council of Negro Women, and a National Coalition on Black Civic Participation, junto com a National Action Network and o Drum Major Institute, presidido pelo filho de Dr King.

Robin Fields, 72 anos, da NAACP, tradicional organização pelos direitos dos negros dos EUA: racismo desde a infância vivo na memória (Foto: Julia Michaels)
Robin Fields, 72 anos, da NAACP, tradicional organização pelos direitos dos negros dos EUA: racismo desde a infância vivo na memória (Foto: Julia Michaels)

Estavam esperando um casal preso no trânsito. Mostrei meu cartaz. – Eu também nasci em 1954! – disse Robin Fields, a mulher negra do NAACP. Todos idosos, eram do condado Fauquier, do interior do estado de Virginia.

O casal demorava demais e o líder do grupo, Scott Christian, decidiu que teriam que nos encontrar em Washington. Embarcamos e, aos berros, acima do barulho dos trens do metrô, trocamos informações. Todo sábado de manhã, me contaram com orgulho, o grupo fazia uma vigília pela causa Vidas Negras Importam. A conversa animada encurtou o caminho até o Foggy Bottom e de repente todos eram meus amigos de infância.
Caminhamos juntos pelo Washington de Trump, parando para tirar fotos e trocar saudações com outros participantes a caminho do evento.

Cartaz contra Trump na marcha pela defesa do voto: democracia ameaçada (Foto: Julia Michaels)
Cartaz contra Trump na marcha pela defesa do voto: democracia ameaçada (Foto: Julia Michaels)

Não havia a tal revista de nossas bolsas e mochilas. Fiquei um tanto preocupada quando vi um homem portando uma bandeira, de roupa militar e o rosto coberto. Mas era um de muitos trazendo demandas e queixas vizinhas à dos direitos civis. Havia mulheres vestidas de Aia, as personagens do livro de Margaret Atwood, O Conto da Aia, um cachorro de roupa escrita “Fuck Trump” e uma pessoa portando uma grande foto de Trump, de bigode estilo Hitler e os dizeres “Ela tinha 13 quando eu a violentei”.

Ao contrário dos eventos políticos brasileiros, não havia apresentações de músicos famosos.

Um pastor negro fez a benção, e o reverendo Cassius L. Rudolph animou a multidão com o hino If I Can Help Somebody (Se eu puder ajudar alguém) de Mahalia Jackson, que faleceu em 1972. Houve discursos breves de sindicalistas, presidentes de fraternidades e sororidades de universidades historicamente negras (HBCUs) e outros – tantos discursos que meus pés pareciam queijo derretido até que finalmente ouvimos as palavras do reverendo Al Sharpton, do filho e da neta do dr King, do diretor de cinema Spike Lee, do congressista negro Hakeem Jeffries, democrata de Nova York, do senador democrata Bernie Sanders, do estado de Vermont, e da congressista novaiorquina e democrata, Alexandra Ocasio-Cortez.

Ativista carrega bandeira do movimento Black Lives Matter: revivendo a luta por direitos de Martin Luther King Jr. (Foto: Robin Fields)
Ativista carrega bandeira do movimento Black Lives Matter: revivendo a luta por direitos de Martin Luther King Jr. (Foto: Robin Fields)

A História viva

Enquanto eu transferia meu peso de um pé para o outro, e beliscava nozes e frutas secas, fiz perguntas aos meus companheiros do condado Fauquier.

Bill Breidenbach, branco, gerente de projetos de construção, me contou que passou mal quando assistiu ao vídeo da morte de George Floyd, em 2020. Os oito minutos e 46 segundos revelaram-lhe um racismo surpreendente.

– Com Trump, o racismo escondido apareceu – me disse. Desde então, ele e a mulher Joan participam da vigília semanal diante do tribunal na cidade de Warrenton, população dez mil, sede do condado Fauquier.

Nascida no Norte dos Estados Unidos, li no colegial romances que mencionavam a segregação formal de escolas e lugares públicos no Sul do país. Vi fotos de bancadas de lanchonete onde negros não podiam sentar. Contudo, jamais vi algum indício de segregação no meu dia a dia. Não tinha noção, na juventude, de estar testemunhando a injustiça. Foi um choque ouvir de Robin Fields, a mulher negra de camiseta NAACP, nascida como eu em 1954, que ela foi a primeira pessoa negra a integrar a escola dela, na quinta série, em 1968. Eu naquele ano ouvia Simon & Garfunkel e os Beatles, olhando para um crush.

– Os outros alunos diziam a ‘N word’ diante de mim – ela me contou. – Não estavam mal intencionados, era algo que ouviam em casa. Hoje, muitos deles são meus amigos. (‘a palavra N’ refere-se a nigger, termo pejorativo para os negros usado nos EUA)

Conway Porter, presidente do capítulo local da NAACP do condado de Fauquier, me surpreendeu mais ainda. Homem de olhos azuis e pele claríssima, cabelos brancos quase raspados, ele falava com um forte sotaque sulista, aos meus ouvidos. Disse que fez matemática na Howard University, a universidade top no ranking entre as historicamente negras, e tornou-se professor.

– No primeiro dia de aula da escola primária, aguardava o ônibus escolar com minha irmã – contou-me. – Comecei a correr até o ônibus, quando o vi aparecer na estrada, mas minha irmã me puxou pelo braço. “Esse não é da gente”, ela me avisou. Fiquei parado. Daí chegou o nosso, todo capenga.

Eu custava acreditar que Conway fosse negro. Como averiguar?

Conway me deu uma pista. O pai dele, trabalhador rural, um dia ganhou duas batatas e um copo de água na hora do almoço, enquanto os homens brancos naquela fazenda eram convidados a entrar na casa e sentar para o almoço. – Meu pai foi para casa almoçar – ele resumiu.

– Seu pai, então, tinha a pele mais escura do que a sua – chutei.

Não.

– Uma gota de sangue negra e você é negro, ele me explicou. Todos se conheciam no condado de Fauquier – acrescentou – Sabiam a procedência de todos e a aparência contava por nada.

O reverendo Al Sharpton (de terno xadrez) ao lado diretor Spike Lee e outros organizadores da marcha: "Não querem nossas reflexões. Por isso que tiram a História Negra das escolas" (Foto: March on Washington 2026 / Divulgação)
O reverendo Al Sharpton (de terno xadrez) ao lado diretor Spike Lee e outros organizadores da marcha: “Não querem nossas reflexões. Por isso que tiram a História Negra das escolas” (Foto: March on Washington 2026 / Divulgação)

Fiquei de cabeça atordoada e pés cansados numa multidão de História viva. O senador Bernie Sanders, hoje com 84 anos, era um estudante universitário em 1963 – e participou da Marcha daquele ano.

– Por causa desse movimento, foi desmontada a segregação, foi aprovado o Ato dos Direitos Civis, foi aprovado o Ato dos Direitos de Votar, foi aprovado o Ato de Moradia Justa – lembrou Sanders, no sotaque marcante dele, branco e nascido em Nova York. – Milhões de americanos ganharam direitos e liberdades até então negados apenas pela cor da pele.

O reverendo Sharpton nasceu em 1954, como eu. Falando das escadas entre o memorial Lincoln e a Piscina Refletiva, como fizeram as outras celebridades, lembrou, como outros também fizeram, onde estávamos todos, exatamente.

– Tentam encontrar algo errado com as nossas reflexões. Não querem que refletamos. Por isso que tiram a História Negra das escolas. Não querem nossas reflexões.

Enfim chegou a hora de marchar, às 13h30. Estava com tanta fome que temi desmaiar na multidão, debaixo do sol. Não marcharia. Despedi-me do grupo, agradecida, com abraços e apertos de mão. No caminho até o metrô, fiz mais uma amiga setentona, Sylvia Bowen, com quem almocei. Filha de fazendeiros na Carolina do Norte, fugiu para Washington para estudar, pois na terra dela não havia empregos que não fossem braçais, para negros.

Eu conheço alguém que reflete. Quando cheguei de volta na casa de minha filha, exausta, a Aurora já ia perguntando: o que acharam do cartaz, vovó? E do sorriso que desenhei, com a flecha? Ela equilibrou a cara triste que eu desenhara na noite anterior com uma cara feliz.
Baldwin duvidava que nós, brancos, fôssemos capazes de agir a partir do que sabemos. Aurora, sete anos, já sabe e já age.

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Julia Michaels

Nascida em Boston, EUA, radicada no Brasil desde 1981 e naturalizada brasileira, Julia Michaels é jornalista, escritora e co-fundadora de FullCircle (www.experiencefullcircle.org). Autora do livro "Rio de Janeiro, como chegamos aqui?", publicado em 2020 pela Editora Raíz, está terminando de escrever suas memórias raciais

Julia Michaels

Nascida em Boston, EUA, radicada no Brasil desde 1981 e naturalizada brasileira, Julia Michaels é jornalista, escritora e co-fundadora de FullCircle (www.experiencefullcircle.org). Autora do livro "Rio de Janeiro, como chegamos aqui?", publicado em 2020 pela Editora Raíz, está terminando de escrever suas memórias raciais

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