Crime organizado: facções se apropriam de territórios historicamente violentados pelo Estado e diversificam negócios (Ilustração: Junião / Ponte Jornalismo)

Se o seu candidato propõe outra operação letal, ele não é contra o crime que o próprio Estado organizou

De Maranguape, no entorno de Fortaleza, a Itaituba, no sudoeste do Pará, facções se apropriam de territórios historicamente violentados pelo Estado e diversificam negócios

Por Ponte Jornalismo | ODS 16

Publicado em 10/09/2026 - 15h00

Tempo de leitura: 24 min

(Paulo Bastistella*) – No entorno da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha, a partir da qual foi se espraiando desde 1849 a cidade de Maranguape (CE), a cerca de uma hora de carro da badalada Avenida Beira-Mar de Fortaleza, a paisagem é de aparente sossego. A igreja é em estilo colonial, daquelas de novela de época, cercada de outras construções de arquitetura parecida. Logo em frente, ao atravessar uma rua de paralelepípedos, há uma pequena praça com árvores de copa larga entremeadas por longas palmeiras, com sombra para amenizar o calor cotidiano e espairecer a cabeça em um dos bancos do local.

Leu essas? Todas as reportagens da série especial Segurança Pública: Rede Ponte nas Eleições 2026

Com uma curta caminhada, dá para visitar uma outra praça, a que leva o nome do célebre historiador Capistrano de Abreu, nascido no município. Também a poucos metros, é possível conhecer a Casa Chico Anysio, que homenageia outro já falecido e notável filho de Maranguape.

De qualquer ponto do município, com cerca de 105 mil habitantes, ainda dá para contemplar ao fundo uma imponente serra coberta de vegetação nativa e talhada por cachoeiras. À primeira vista, é praticamente impossível conceber que estamos na cidade mais violenta do Brasil.

Receba um resumo com nossas notícias e colunas. É de graça!

Veja o que já enviamos

Em 2025, Maranguape registrou uma taxa de 100,3 mortes violentas intencionais (MVI) para cada 100 mil habitantes. O índice é mais de cinco vezes maior que a média do Brasil todo (19,1), segundo consta em edição mais recente do Anuário Brasileiro da Segurança Pública.

A taxa está associada, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que consolida o anuário, a uma disputa territorial entre o Comando Vermelho (CV) e oPrimeiro Comando da Capital (PCC), as duas maiores facções criminosas do país — ambas surgidas no sistema prisional do Sudeste e em plena expansão por outras regiões do Brasil nas duas últimas décadas.

Estado fortaleceu facções ao naturalizar violência, diz pesquisador

A pequena e já não mais pacata Maranguape é simbólica do desafio hoje tido pelo país de enfrentar o crime organizado — tema do qual a Ponte trata nesta reportagem, mais uma da série especial Ponte nas Eleições, que discute a segurança pública como a pauta central das eleições gerais de 2026.

Logo ao lado de Maranguape, outras duas cidades da região metropolitana de Fortaleza também aparecem entre as mais violentas do Brasil, segundo o FBSP: tratam-se de Maracanaú e Caucaia, com a terceira e a sétima pior taxa de MVI, respectivamente. A primeira delas teve 80,7 mortes violentas intencionais para cada 100 mil habitantes no ano passado, enquanto a segunda registrou 66,6.

O Estado tem um papel fundamental no controle social da violência. As facções têm uma certa capacidade, mas eu não acredito que ela ultrapasse a do Estado. Então, esses grupos ganham espaço explorando fragilidades. É um erro grave essa omissão

Luiz Fábio Paiva
Sociólogo e coordenador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará

Nas duas, a violência também é impulsionada por facções criminosas. Em Maracanaú, há, além do CV e do PCC, a atuação do Terceiro Comando Puro (TCP), grupo que surgiu no Rio e que incorporou integrantes da extinta facção cearense Guardiões do Estado (GDE).

A disputa dos criminosos envolve, entre outros negócios, o controle de áreas e rotas de tráfico, o que inclui rodovias da região, os portos do Pecém (localizado entre São Gonçalo do Amarante e Caucaia) e do Mucuripe (na capital cearense), e o Aeroporto Internacional de Fortaleza.

Para chegarem ao ranking das mais violentas do país, as três cidades estiveram submetidas a um longo processo de negligência do Estado, em que assassinatos ligados a facções eram vistos como um problema alheio à população em geral e ao poder público.

“Muitas vezes essas mortes são naturalizadas, são tratadas como se fossem mortes entre bandidos. Existe a ideia de que o crime resolveu o problema entre si. E essas mortes só chamam atenção quando há um número como esse, e não pelas circunstâncias em que ocorreram”, diz o sociólogo Luiz Fábio Paiva, que coordena o Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV/UFC).

Pichação de criminosos no Ceará: facção criminosa Guardiões do Estado foi incorporada por grupo oriundo do Rio de Janeiro em meio a disputa do crime organizado (Foto: Alan Lima / Ponte Jornalismo - Arquivo)
Pichação de criminosos no Ceará: facção criminosa Guardiões do Estado foi incorporada por grupo oriundo do Rio de Janeiro em meio a disputa do crime organizado (Foto: Alan Lima / Ponte Jornalismo – Arquivo)

Comunidades no Ceará sob ameaça de grupos rivais

O pesquisador diz que a omissão naturalizou não só a perda de vidas tidas como de menor valor, mas também a morte como um meio de impor a força — ou seja, o poder público fortaleceu as facções criminosas ao deixar que atuassem como bem entendessem, inclusive matando.

“É uma questão de limites. O Estado tem um papel fundamental no controle social da violência. As facções têm uma certa capacidade, mas eu não acredito que ela ultrapasse a do Estado. Então, esses grupos ganham espaço explorando fragilidades. É um erro grave essa omissão”, afirma Luiz.

Virou rotina em cidades do Ceará sob disputa de facções, inclusive na capital, a expulsão de moradores de suas próprias casas ao serem acusados de contrariar os interesses econômicos e até eleitorais de criminosos. Em alguns casos, a própria Polícia Militar é destacada não para garantir a permanência das famílias, mas para escoltar as mudanças.

Isso aconteceu na Chacina do Curió. Se tivessem vindo na primeira morte, não teriam acontecido todas as outras. Era a polícia protegendo policiais que estavam matando

Edna Carla Souza Cavalcante
Cuidadora de idosos e articuladora das Mães do Curió

Em Fortaleza, o Fórum Popular de Segurança Pública do Ceará (FPSP-CE) precisou organizar a Marcha da Periferia, um ato anual em defesa dos direitos humanos, em áreas centrais ou turísticas ao longo dos últimos anos, devido ao risco de moradores periféricos se deslocarem entre bairros sob atuação de facções rivais.

Entre 2020 e 2023, apenas 27% dos homicídios ocorridos no Ceará foram esclarecidos, segundo um estudo recente do Instituto Sou da Paz. A negligência diante da matança entre facções virou ainda perda de confiança de quem vive nas comunidades violentadas, sem a qual não se faz segurança pública e muito menos combate ao crime organizado, segundo avalia Luiz.

“As próprias forças policiais reclamam que em determinado lugar ninguém fala nada, que não tem como reunir provas. Mas as pessoas não cooperam porque não têm confiança. Como eu vou denunciar alguém se não tenho confiança nas instituições, se eu sei que aquele individuo que cometeu um crime não vai ser responsabilizado?”, questiona o pesquisador do LEV/UFC.

Protesto na porta de fórum em Fortaleza pede justiça para vítimas da Chacina do Curió: 34 PMs serão julgados pelo assassinato de 11 jovens (Foto: Rannjon Mikael / TJ-CE)
Protesto na porta de fórum em Fortaleza pede justiça para vítimas da Chacina do Curió: 34 PMs serão julgados pelo assassinato de 11 jovens (Foto: Rannjon Mikael / TJ/CE – 20/06/2023)

Falta de responsabilização enfraquece confiança nas polícias

Moradora da periferia de Fortaleza, Edna Carla Souza Cavalcante diz ver cotidianamente as forças de segurança ignorarem apelos da comunidade quando acionadas para alguma ocorrência grave. Ela própria viveu isso da pior maneira possível em 2015, quando o filho Álef Souza Cavalcante, de apenas 17 anos de idade, foi assassinado no episódio que ficou conhecido como Chacina do Curió.

Na ocasião, policiais militares promoveram, indiscriminadamente, uma série de ataques em bairros da Grande Messejana, incluindo o Curió, em Fortaleza, por vingança à morte de um PM em um assalto. Em um intervalo de seis horas entre a noite do dia 11 e a madrugada de 12 de novembro daquele ano, 11 jovens sem relação alguma com o latrocínio do agente público foram assassinados.

“Isso acontece muito. Por exemplo, está acontecendo uma briga no bairro, e as pessoas ligam para o 190, para chamar ambulância, para a Ciops [Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança], e não vem ninguém. Isso aconteceu na Chacina do Curió. Se tivessem vindo na primeira morte, não teriam acontecido todas as outras. Era a polícia protegendo policiais que estavam matando”, diz Edna, que atua desde então como articuladora do Movimento Mães do Curió.

Ela diz que ouviu de um amigo, o jornalista e sociólogo Ricardo Moura, também pesquisador do LEV/UFC, uma frase que resume a situação: “Quando a polícia não mata, ela deixa matar”.

Cuidadora de idosos, Edna afirma também que a negligência do Estado é calculada, uma vez que a violência armada entre facções favorece o que chama de “empresas da morte” — a indústria de armas e de drogas que faz dinheiro na medida em que o combate ao crime organizado é tratado como sinônimo de guerra em comunidades periféricas.

“O Estado sempre generaliza que todas as famílias da periferia são bandidas e envolvidas com o crime. E isso não é verdade”, diz. “Será que não tem como intervir para as drogas e armas não entrarem na periferia? Acontece que o Estado não quer isso, até porque as empresas da morte tem que seguir a todo vapor, e os pobres é que pagam por tudo isso”, afirma.

Área de garimpo em Surucucu (RR) dentro da Terra Indígena Yanomami: novos negócios para o crime organizado (Foto: Leo Otero / Ministério dos Povos Indígenas)
Área de garimpo em Surucucu (RR) dentro da Terra Indígena Yanomami: novos negócios para o crime organizado (Foto: Leo Otero / Ministério dos Povos Indígenas)

Expansão de facções na Amazônia repete padrão de violência

A situação do Ceará guarda semelhanças com a de outros lugares para os quais grupos criminosos antes concentrados no Sudeste avançaram nos últimos anos. É o caso da Amazônia Legal.

Pesquisador da Universidade do Estado do Pará (Uepa), o geógrafo Aiala Couto diz que as facções criminosas hoje atuantes nos estados amazônicos chegaram a eles a partir de um sistema prisional superlotado e insalubre, favorável à cooptação de novos integrantes, assim como ocorreu em outras partes do país.

Depois disso, se expandiram com negócios e o controle de territórios fora das prisões, se valendo fundamentalmente de uma vulnerabilidade histórica da região: a disputa pela terra, ocupada sob o incentivo do poder público desde a ditadura militar, mas sem a regularização da posse, nem a oferta de alternativas econômicas sustentáveis à população mais empobrecida.

De novo, a atuação negligente do próprio Estado organizou o crime. “Se a gente não tem governabilidade do Estado, quem promove isso? É o crime organizado. Onde o Estado permite vácuo de poder, o crime se faz presente”, diz Aiala. “Terra não regularizada é terra de disputa. E se ela é terra de disputa, ela conecta vários agentes interessados, entre eles o narcotráfico, o crime organizado.”

É todo um amontoado de interesses, de conflitos e de problemas se sobrepõem na região. E com o avanço das facções criminosas e o crescimento da população carcerária, isso vira uma bola de neve

Aiala Couto
Geógrafo e pesquisador da Universidade Estadual do Pará

Essa governabilidade do crime se dá, segundo o pesquisador, de duas maneiras. Em uma escala menor, ela está no controle violento de territórios vulneráveis. “Isso atinge comunidades quilombolas, territórios indígenas, comunidades periféricas das grandes cidades da Amazônia, com facções cobrando taxas de comerciantes, impondo toques de recolher, instituindo o chamado ‘tribunal do crime'”, diz.

O controle violento se reflete nas estatísticas. Conforme identificou a edição mais recente do estudo Cartografias da violência na Amazônia, publicado pelo FBSP, em 2024, a Amazônia Legal registrou uma taxa de 27,3 mortes violentas intencionais para cada 100 mil habitantes, um índice 31% acima da média nacional.

A região Norte, que concentra sete dos nove estados amazônicos, detém uma taxa de MVI acima do padrão nacional desde 2012. No ano passado, também segundo o FBSP, foram 25,3 assassinatos para cada 100 mil habitantes na região, atrás apenas do Nordeste (31,6).

A letalidade policial também piorou, atiçada por um entendimento que confunde combate ao crime com uso da força letal. Nos últimos sete anos, foi um estado amazônico, o Amapá, que teve a pior taxa de mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP) de todo o país. Em 2025, foram 17,1 casos para cada 100 mil habitantes, enquanto a média nacional foi de 3,1.

“É uma realidade. Toda semana tem matéria, vídeo de facção invadindo casa, matando pessoas, cortando cabeças. E isso ganha apelo popular, circula entre grupos de WhatsApp nas comunidades periféricas. E as pessoas vão comprando essa narrativa, de que, para atitudes radicais, as medidas têm que ser radicais também”, afirma o pesquisador da Uepa.

Facções exploram rotas de tráfico e diversificam negócios

A governabilidade das facções na Amazônia também aparece, segundo Aiala, em uma escala maior, que explora, sobretudo, a importância da região para o circuito global do tráfico de drogas.

O bioma integra, entre outros países, a Bolívia, o Peru e a Colômbia, que são três dos principais produtores de drogas do mundo, principalmente a cocaína. A droga cresce exponencialmente de valor ao percorrer os extensos rios da Amazônia e, depois de despachada em portos e aeroportos, chegar a consumidores finais não só do mercado brasileiro, mas também dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia.

Conforme estima o FBSP, 40% de todo o volume de dinheiro movimentado no Brasil com o tráfico de cocaína passa hoje por rotas internacionais da Amazônia, caso da Rota do Solimões, um corredor fluvial utilizado pelo PCC e o CV.

A expansão do crime organizado na região é ainda representativa da profusão de negócios hoje explorados pelas facções criminosas, historicamente associadas apenas ao narcotráfico.

Investir em inteligência é investir na captura das principais lideranças desses movimentos, que são as pessoas que não estão na zona de conflito. Elas estão fora, estão em um condomínio, em uma empresa. Essa estrutura financeira envolve agentes que não aparecem na capa dos jornais quando são presos, que muitas vezes sequer ficam presos, porque são capitalizados

Aiala Couto
Geógrafo e pesquisador da Universidade Estadual do Pará

Isso porque o alto volume de dinheiro gerado pelo mercado de drogas e o controle territorial de áreas vulnerabilizadas garantiram também influência sobre outros negócios já estabelecidos na região, sejam ilegais ou não, como o garimpo, a exploração madeireira, a grilagem de terra, a pistolagem em favor de fazendeiros, a produção agrícola, a criação de gado e agora a pesquisa por terras raras.

“É todo um amontoado de interesses, de conflitos e de problemas se sobrepõem na região. E com o avanço das facções criminosas e o crescimento da população carcerária, isso vira uma bola de neve”, diz Aiala. “Em assentamentos rurais e em territórios quilombolas, por exemplo, as facções entendem que é seguro se refugiar da polícia quando estão foragidas. Nas aldeias, que são mais distantes, existe uma outra relação, geralmente, ligada a algum interesse, como o garimpo.”

“Na terra indígena [Sararé] em Mato Grosso, por exemplo, o Comando Vermelho se apropriou do garimpo, como aconteceu na terra Yanomami, em Roraima. No Pará, em Itaituba, o Comando Vermelho vende drogas no garimpo, usa a pista de pouso dele para transportar cocaína. Então, são múltiplas relações e interesses que se conectam a partir da presença desses grupos em cada território.”

Um outro estudo publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública deu a dimensão dessa diversificação de negócios pelo crime organizado em todo o país. Em 2022, o comércio de cocaína gerou uma receita de R$ 15,2 bilhões, enquanto os mercados de ouro, bebidas, cigarros contrabandeados e combustíveis rendeu R$ 146,8 bilhões ao crime organizado.

Veículo da PF na Avenida Faria Lima durante a Operação Carbono Oculto: mandados de busca e apreensão contra operadores financeiros do crime organizado em escritórios em São Paulo (Foto: Polícia Federal / Divulgação)
Veículo da PF na Avenida Faria Lima durante a Operação Carbono Oculto: mandados de busca e apreensão contra operadores financeiros do crime organizado em escritórios em São Paulo (Foto: Polícia Federal / Divulgação)

Complexidade do crime exige enfrentamento com inteligência

A mesma pesquisa, intitulada Follow the products: rastreamento de produtos e enfrentamento ao crime organizado no Brasil, descreve também que os crimes virtuais e os furtos de celulares geraram uma receita ainda maior para o crime, de R$ 186 bilhões, entre os meses de julho de 2023 e 2024.

Esse saldo financeiro vai ao encontro de um outro dado: os estelionatos configuram hoje o crime patrimonial mais comum no Brasil, impulsionados pelos golpes eletrônicos, considerados de baixo risco e alta rentabilidade pelo crime organizado. Em relação a 2018, o número de casos desse tipo de crime disparou 429,8%, chegando a 2.261.055 ocorrências registradas no ano passado, segundo o FBSP.

Para os especialistas ouvidos pela Ponte, independentemente do território, essa complexidade das dinâmicas criminais hoje exploradas pelas facções escancara a falência de um modelo de enfrentamento baseado em um sistema prisional cada vez pior e em um maior número de ações ostensivas letais, que apenas contribuem com a cooptação de mais faccionados e colocam periferias e policiais sob fogo cruzado.

Eu gostaria de ouvir os candidatos dizendo que vão abrir mais cursos, mais escolas, que tivesse mais médicos, mais atendimento nos postos de saúde. Porque o Estado é uma máquina de moer gente, e a morte não é só pela bala. É pela falta de um tratamento, de alimentação, de moradia, de dignidade humana

Edna Carla Souza Cavalcante
Cuidadora de idosos e articuladora das Mães do Curió

Ou seja, candidatos que queiram de fato combater o crime organizado, a ponto de prender chefes de facções e operadores financeiros desses esquemas, deveriam propor um modelo de segurança pública baseado em inteligência e investigação — a exemplo da Operação Carbono Oculto, que, no ano passado, cumpriu mandados de busca e apreensão contra escritórios a serviço do PCC na Faria Lima, em São Paulo, o principal centro do mercado financeiro no país.

“Investir em inteligência é investir na captura das principais lideranças desses movimentos, que são as pessoas que não estão na zona de conflito. Elas estão fora, estão em um condomínio, em uma empresa. Essa estrutura financeira envolve agentes que não aparecem na capa dos jornais quando são presos, que muitas vezes sequer ficam presos, porque são capitalizados”, diz Aiala.

Luiz Fábio Paiva, pesquisador do LEV/UFC, concorda: “Isso que a gente chama de crime organizado não acontece só porque existem pessoas pobres nas periferias ligadas a facções. Isso acontece porque vivemos em uma sociedade capitalista, em que pessoas com muito dinheiro e posições políticas privilegiadas movimentam engrenagens que desenvolvem esses grupos e favorecem esquemas que elas próprias coordenam”.

“É muito comum a gente ver operações sistemáticas em determinados bairros: prendem todo mundo, apreendem drogas e armas, a polícia sai, e pouco tempo depois já tem armas e drogas de novo. Isso ocorre porque o esquema gerador dessa dinâmica não foi interrompido”, complementa.

Territórios vulneráveis exigem cuidado, e não mais conflito

Para Edna Carla, das Mães do Curió, um modelo de segurança que queira combater as facções deve ainda olhar para os territórios mais vulneráveis não como zonas de conflito, mas de cuidado, em que sejam protegidas as vidas principalmente dos mais novos.

“Eu gostaria de ouvir os candidatos dizendo que vão abrir mais cursos, mais escolas, que tivesse mais médicos, mais atendimento nos postos de saúde. Porque o Estado é uma máquina de moer gente, e a morte não é só pela bala. É pela falta de um tratamento, de alimentação, de moradia, de dignidade humana”, diz. “Se a gente não der caminhos para os jovens, como eles podem caminhar?”

Aiala Couto, da Uepa, vai na mesma linha. Para ele, não há como o Estado falar em combate às facções sem garantir alternativas econômicas às estruturas que ele próprio incentivou e que agora foram apropriadas pelo crime organizado, como é o caso dos garimpos ilegais. Se o poder público não oferece dignidade e autonomia, o crime convence pela ameaça ou pelo dinheiro.

“A ocupação da fronteira amazônica se deu com incentivo à mineração pelo Estado. São décadas de dependência, com trabalhadores garimpeiros historicamente sob condições precárias. E com a chegada do crime organizado, o Estado coloca tudo isso no mesmo circuito. É uma criminalização perigosa, porque vulnerabiliza pessoas que já estavam vulneráveis”, avalia o pesquisador.

“Qual é o investimento que vai ser feito para gerar emprego, renda, qualidade de vida, infraestrutura e que o garimpo não vai ser mais a principal alternativa? É preciso quebrar esses ciclos econômicos.”

Já para Luiz, o cuidado com as comunidades pode recuperar a confiança — fundamental para que o sossego, do centro às periferias de cada cidade, não fique só nas aparências.

“Eu não produzo segurança pública só com atuação ostensiva. É preciso ações que gerem um ambiente social de tranquilidade, de paz. Quem faz isso muitas vezes são as comunidades, por meio de seus eventos, da convivência, da ocupação do território. E tudo isso envolve confiança de que vou poder fazer, circular. Se não tenho essa confiança, não tenho segurança”.

*Paulo Batistella, repórter da Ponte, é jornalista, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com intercâmbio acadêmico na Universidade de Coimbra (Portugal)

**Esta reportagem, produzida originalmente pela Ponte Jornalismo, integra série especial sobre segurança pública do projeto Rede Ponte nas Eleições 2026, republicada por veículos parceiros de diferentes regiões do país: #Colabora (RJ), Conquista Repórter (BA), Sargento Perifa (PE), Plural (PR), Eh Fonte (MT), Mídia Étnica/Correio Nagô (BA), Marco Zero (PE), Amazônia Real (AM), Revista Afirmativa (BA), Agência Mural (SP), Portal Catarinas (SC) e O Catarinão (RJ).

Apoie o #Colabora!

Faça parte da campanha “10 anos, 101 apoiadores” e ajude a fortalecer nosso jornalismo independente e de qualidade. Com apenas R$ 20 por mês (menos de R$ 0,70 por dia), você já contribui para manter histórias e reportagens que fazem a diferença, como esta.

Ponte Jornalismo

A Ponte tem como missão defender os direitos humanos por meio de um jornalismo independente, profissional e com credibilidade, promovendo a aproximação entre diferentes atores das áreas de segurança pública e justiça, com o objetivo de colaborar na sobrevivência da democracia brasileira.

Ponte Jornalismo

A Ponte tem como missão defender os direitos humanos por meio de um jornalismo independente, profissional e com credibilidade, promovendo a aproximação entre diferentes atores das áreas de segurança pública e justiça, com o objetivo de colaborar na sobrevivência da democracia brasileira.

Comentários

Compartilhe: