ODS 1
Jornalismo é com quem tem diploma. O resto é palpite
O ofício de informar, de tão delicado e estratégico, precisa de profissionais preparados, com apuro acadêmico, intelectual e humano, o que só o ensino superior garante


Das melhores comédias românticas de todos os tempos, “Um lugar chamado Notting Hill” (1999) narra a história de amor entre Anna Scott (Julia Roberts), atriz top de Hollywood, e William Thacker (Hugh Grant), livreiro atrapalhado e melancólico que vive no bairro londrino do título. Lá pelas tantas, a imprensa sensacionalista da capital britânica descobre que ela está escondida na casa dele. Arma-se o costumeiro fuzuê de fotógrafos na porta e o relacionamento mergulha na crise.
Diante da musa estressada no último grau, o despenteado William tenta um pouco de perspectiva para amenizar o barraco e pondera que os jornais com as fotos estarão “embrulhando peixe” (lembre-se: é o tempo dos impressos) ainda naquele mesmo dia. “Claro que não”, rebate Anna. “Ficará tudo arquivado e sempre que forem pesquisar sobre mim, a história renascerá. As reportagens e os jornais são eternos”.
Leu essa? A frágil liberdade de imprensa no Brasil
A vida real muito além de Hollywood está lotada de exemplos do poder das informações, de como elas podem destruir vidas, devastar comunidades, prejudicar países, tumultuar mercados, satanizar crenças, turvar certezas, solidificar ficções, turbinar conflitos – matar, em casos extremos. De outro lado, carregam o condão de incensar trajetórias, forjar ídolos, plantar tendências, influenciar comportamentos, proteger a democracia, promover o entendimento – melhorar as sociedades.
Tanta potência não deve ficar em poder de aventureiros, nem ser processada com ingenuidade, imperícia, dolo, ignorância, ausência de ética. Precisa do apuro de gente preparada, experiente, culta, segura em sua capacidade e senhora do seu papel social. O complexo ato de informar com qualidade, precisão e caráter é missão para profissionais: os jornalistas.
Semana passada, renasceu, em pleno Brasil da polarização, o debate sobre a obrigatoriedade do diploma de ensino superior para o exercício do jornalismo. O ministro do STF Flávio Dino defendeu o retorno da exigência, no debate em torno da decisão de outro integrante da corte, Alexandre de Moraes, que determinou busca e apreensão contra o jornalista maranhense Luiz Pablo, autor de reportagens críticas a Dino. O próprio Supremo derrubou a condição em 2009, por meio de ação relatada pelo hoje decano Gilmar Mendes, que misturou laranjas – o preceito constitucional da liberdade de expressão – com bananas – o ofício de jornalista. Liberou geral o acesso à profissão, que, em consequência, decaiu ferida de morte, pelo despreparo técnico e a desnecessidade de parâmetros éticos de seus novos praticantes – literalmente qualquer um.
Jamais por acaso, a sentença de 17 anos atrás teve aplauso empolgado dos empresários da mídia hereditária, protetorado que há décadas controla a comunicação no país. Ofício tão essencial e poderoso descolou-se de outros com semelhante importância. Professores, médicos, engenheiros, advogados, arquitetos, veterinários, dentistas, contadores, psicólogos, enfermeiros, bibliotecários, economistas, fonoaudiólogos, nutricionistas, farmacêuticos, químicos, biomédicos, fisioterapeutas, administradores de empresas, relações públicas – todos exigem o registro (conseguido somente com o diploma de ensino superior) para serem praticados. Aos jornalistas, vedou-se a proteção. Viramos de segunda classe. Inferiores. Série B das carreiras.
Noves fora a certeza suprema de que quanto mais educação melhor (como é possível ser contra?), produz-se a mistificação típica de quem se aferra a sofismas para turvar o debate. A narrativa, legítima como uma nota de R$ 4, tenta igualar jornalistas a blogueiros, comentaristas, influenciadores e toda sorte (ou azar) de palpiteiros, que apontam para si mesmos a câmera de um celular e reproduzem as vozes de suas (deles) cabeças. Encontra-se até conteúdo de qualidade – pouco –, em meio ao oceano de imprecisão, manipulação, desonestidade intelectual, desequilíbrio, histeria, desinformação, erros, erros e erros.
Ainda assim, agarremo-nos à liberdade de expressão. O valor deve prevalecer, inegociavelmente, pelos parâmetros civilizatórios, muito além da Constituição. Quem quiser falar, à vontade. Ressalvados os limites previstos na lei (e, suplica o colunista, a boa educação), a bronca, o choro, o discurso, o clamor, a exaltação, o lamento são todos livres.
Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Sem o devido cuidado com a informação, os cidadãos ficam expostos a riscos terríveis e o estado de direito acaba fragilizado. Saber como, o que e quando divulgar; ser preciso, objetivo e claro; proteger as fontes na dosagem apropriada; encadear os fatos em ordem lógica; situar os acontecimentos no curso da história; denunciar os descalabros, sem omitir as obrigatórias alegações dos acusados, o famoso “outro lado”; e exercitar permanentemente a responsabilidade social com as notícias são alguns deveres indissociáveis do jornalismo. Nada a ver com a palpitagem desenfreada desses apocalípticos dias digitais.


Notícias, ensinou Anna Scott, são eternas, revivem e revivem sempre que se pesquisa o mote delas. Veiculadas equivocadamente, permanecerão assim pela eternidade, porque nenhuma correção consegue se equiparar em força à divulgação inicial. A história – a real, não a do cinema – está lotada de vítimas das barbeiragens de quem não conhece as incontáveis nuances e camadas do ato de bem informar.
No domingo (23), foi ao ar, no Fantástico, o último episódio da série “Repórteres no front”, na qual Caco Barcellos, acompanhado das colegas Danielle Zampollo e Sara Pavani, documentou guerras e outros conflitos armados mundo afora. Esteve na Ucrânia, no Sudão e no México, expondo barbáries que sangram as populações desses cantos da Terra. A série celebrou os 20 anos do “Profissão Repórter”, programa criado por Barcellos para formar profissionais nos preceitos mais virtuosos. No bojo, a atração realizou algumas das melhores reportagens da Globo nos últimos anos.
Caco Barcellos é jornalista formado pela PUC-RS.
No mesmo domingo da exibição do último episódio da série global, Matheus Rocha, repórter da “Folha de S.Paulo” transformou protocolar entrevista de divulgação de peça teatral em aula de bom jornalismo. Ele foi conversar com Regina e Gabriela Duarte, mãe e filha que estrearam nessa quinta-feira (27) “A filha da…”, na capital paulista, e, claro, perguntou à veterana atriz sobre sua ligação com Jair Bolsonaro (ela foi secretária de cultura no governo do capitão), causando contrariedade nas duas artistas.
O jornalista cumpriu seu papel. Questionou as entrevistadas objetivamente, sobre temas de interesse público, e garantiu espaço e condições para que elas respondessem, sem pressões nem ataques. Diante das falas, replicou até esgotar os assuntos. O incômodo das duas e a atitude dele, que ressalvou o direito dele de perguntar e o delas de não responder, produziram vídeo imperdível, lição da melhor forma de proceder no ofício das notícias.
Matheus Rocha é jornalista formado pela Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Nos dois exemplos, notícia velha: só o ensino de qualidade salva.
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Breve relato pessoal:
Sou jornalista há pouco mais de 40 anos, formado nos bancos inesquecíveis do Instituto de Arte e Comunicação Social da amada Universidade Federal Fluminense, e portador do registro profissional 18405, expedido pelo Ministério do Trabalho. Devo todos meus predicados profissionais a mestres brilhantes, como Muniz Sodré, Rosental Calmon Alves, Sônia Aguiar, João Batista de Abreu, Marialva Barbosa, Theodoro de Barros, Ana Baum, Dante Gastaldoni e Antônio Serra, entre outros. Os quatro anos no Iacs foram o alicerce precioso de uma carreira ética e produtiva. Sem a universidade, seria impossível – o que torna ainda mais triste assistir ao desmanche de atividade tão essencial para a sociedade.
Na aventura da profissão, tive outros professores, entre eles dois que não possuíam o diploma de ensino superior: Oldemario Touguinhó (1934-2003) e Ricardo Boechat (1952-2019). Como se iniciaram antes da obrigatoriedade do diploma, um e outro – gigante da reportagem esportiva e totem do colunismo e da ancoragem em rádio e TV, respectivamente – aprenderam na prática, até se tornarem emblemas do jornalismo de excelência. Se tivessem cursado a universidade, seriam ainda melhores – basta imaginar todo o imenso talento dos dois, lapidado pela formação acadêmica, intelectual e humana.
Diploma, sempre.


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