ODS 1
Hortas comunitárias atuam como oásis contra os “desertos alimentares”




José Luiz Natal Chaves em colheita de hortaliças; empresa criou horta comunitária para trabalhadores (Foto: João Gabriel Rothier)
Organosolo e Horta Maria Angú fortalecem comunidades através da transformação e cultivo de alimentos. Iniciativas ajudam a combater, desigualdades no Rio de Janeiro
Com a intensificação da emergência climática, as comunidades e as favelas acabam sendo as primeiras impactadas, ocasionando em diversos problemas sociais e de desenvolvimento. Em contrapartida, empresas como a Organosolo ou projetos sociais como a Horta Maria Angú, atuam como um mecanismo social que luta contra o racismo ambiental e a insegurança alimentar no estado do Rio.
Segundo o relatório SOFI da ONU, o Brasil alcançou pela segunda vez sua saída do Mapa da Fome, considerando o triênio 2023 a 2025. Embora positivo, o resultado quando analisado por regiões, contextos e grupos, ainda demonstra dificuldades significativas.
Licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Laís Lara de Oliveira Pereira pesquisa sobre racismo ambiental e ecologia decolonial. A cientista destaca as hortas comunitárias como soluções que discutem a lógica da alimentação saudável nos territórios periféricos.
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“As hortas demonstram que as favelas não são apenas um lugar onde faltam políticas públicas, mas também um território que produz alternativas. Mais do que plantar alimentos, elas aproximam as pessoas do cultivo, fortalecem relações comunitárias e mostram que a produção de comida também pode ser uma forma de produzir autonomia”, comenta Laís.
No estado do Rio de Janeiro em 2024, segundo o “Inquérito sobre a Insegurança Alimentar no Município”, estudo conduzido pela UFRJ e com apoio da Câmara Municipal, cerca de 2 milhões de cariocas (32,9% da população) convivem com algum nível de insegurança alimentar.
A mesma pesquisa mostra que 488,7 mil pessoas viviam apenas com uma refeição ao dia ou passavam o dia inteiro sem comer. As maiores prevalências de insegurança alimentar moderada ou grave estão nas áreas de planejamento da Zona Norte, da Zona Oeste e do Centro do Rio.


O que são “Desertos Alimentares”?
Laís Lara explica que o conceito de deserto alimentar ajuda na percepção de que a alimentação não depende apenas das escolhas individuais. “Muitas vezes a gente escuta que as pessoas deveriam comer melhor ou consumir mais alimentos frescos, mas nem sempre isso é uma possibilidade real. O lugar onde a pessoa mora, o preço dos alimentos, o tempo disponível para cozinhar, o transporte e até a forma como a cidade é organizada influenciam diretamente o que chega à mesa”, afirma a cientista social.
Laís acrescenta à discussão o papel da compostagem como mecanismo de devolver à terra tudo aquilo que foi gerado por ela. “A ecologia decolonial propõe justamente que a gente repense a forma como se relaciona com a natureza. Em vez de enxergar o solo apenas como um recurso a ser explorado, essas experiências mostram outra possibilidade: uma relação baseada no cuidado, na reciprocidade e na continuidade dos ciclos”, finaliza Laís Lara Pereira.
A partir da relação entre o descarte dos resíduos orgânicos gerados pela ação humana, podemos compreender a conexão entre o solo, a agricultura e o alimento. Segundo o engenheiro agrônomo e técnico responsável pela Organosolo, José Luiz Natal Chaves, a destinação e tratamento adequado desses resíduos fortalecem a cadeia natural e colaboram na produção de alimentos saudáveis.
José Chaves, sócio da Organosolo, destaca que a empresa atua há mais de 7 anos oferecendo uma alternativa sustentável para o descarte desses resíduos orgânicos, sendo o destino final como alternativa no lugar dos aterros sanitários. De 2022 a 2025, a empresa contabiliza mais de 67 mil toneladas em volumes de resíduos compostados. Neste ano, a Organosolo recebeu, em média, cerca de 13 mil toneladas, com a projeção de que, até o final de 2026, alcancem a marca de 28 mil toneladas de resíduos compostados.
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Veja o que já enviamos“Acredito que a agricultura orgânica tenha esse objetivo de disponibilizar alimentos saudáveis e acessíveis para as populações em situação de vulnerabilidade. Porém, a grande cadeia do alimento orgânico vendido pelas grandes empresas hoje supervaloriza os preços de seus produtos, o que dificulta o acesso de quem mais precisa”, comenta José Chaves.
Novas formas de pensar a agricultura
Por meio do tratamento, a Organosolo transforma os resíduos em um fertilizante composto por nutrientes que auxiliam no processo de agricultura, jardinagem e reflorestamento. Atualmente, a Organosolo atende mais de 50 clientes, como shoppings, indústrias, fábricas de alimentos, entre outros.
Ao longo desse período, de 2022 até o primeiro semestre deste ano, a empresa estima que produziu mais de 30 mil toneladas de adubo orgânico dos resíduos que seriam destinados aos aterros sanitários e que prejudicariam o meio ambiente e a sociedade.
A empresa destina cerca de 20% a 30% de sua produção de adubo em doações para fortalecimento de diversos projetos, como escolas, hortas comunitárias, projetos de reflorestamento, universidades, creches, entre outros.


Fortalecimento da cultura organizacional
Como instrumento de mudança no pensamento dos seus colaboradores em relação ao seu trabalho no tratamento de resíduos, surgiu a ideia de elaborar uma horta em plena área externa da fábrica. Diferenciando assim, o conceito de “lixo” com a transformação da matéria orgânica e o processo de adubagem.
A horta buscava, inicialmente, realizar uma testagem do produto e sua eficácia, oferecendo uma nova possibilidade de plantação, criada em cima do concreto e sem adição e mistura de terra, areia ou calcário, somente com o fertilizante fabricado pela empresa.
“Nossa horta é um ponto de equilíbrio entre o que fazemos e quem produz, uma aproximação com toda a equipe, um momento de qualidade e de saúde mental. Nossos colaboradores são todos moradores das comunidades do entorno; eles já sofrem cotidianamente com os atravessamentos e desigualdades no bairro”, afirma José.
O engenheiro agrônomo acrescenta que “a horta oferece outra perspectiva, contribui no acesso a alimentos frescos e saudáveis (sem agrotóxicos) e fortalece a comunidade, pois os mesmos acabam compartilhando com suas famílias, vizinhos, colegas e todos que moram nas redondezas”.
Poder cultivar alimentos sem necessidade de terra e outros materiais, utilizando exclusivamente o fertilizante orgânico, é um movimento revolucionário que proporciona mesmo aos leigos em agricultura, plantar comida saudável e segura. “Nossa missão é que mais pessoas e empresas possam mudar a maneira como enxergam os resíduos orgânicos e proporcionar a pequenos e grandes agricultores sem experiência uma alternativa sustentável de plantio”, finaliza o sócio da Organosolo.
Horta Maria Angú
Projeto desenvolvido por meio de um grupo estudantil da PUC-Rio com desejo de realizar uma atividade socioambiental durante a pandemia de COVID-19. Os estudantes começaram um processo de escuta com a Favela da Kelson’s (local onde a horta foi instalada), assim, nasceu a ideia da horta comunitária, com o objetivo de levar uma alimentação saudável e segura aos moradores da região.
Walmyr Júnior, mestre em sustentabilidade e um dos coordenadores da horta, contribuiu para que o grupo pudesse avançar com a ideia. Na época, ele estava à frente da associação de moradores da Kelson´s e organizou os diálogos em sintonia com as principais demandas da comunidade.
Através de um edital da PUC-Rio, a Horta Maria Angú conseguiu financiamento que serviu para a construção dos primeiros canteiros. Walmyr identificou no local um espaço que servia como depósito de entulho e, em conversa com a associação dos moradores, buscou o processo legal para a utilização do espaço. Dessa forma, conseguiram o direito de transformar aquele local em uma iniciativa de produção de alimentos.
Por volta do ano de 2022, buscando autonomia e sustentabilidade, a horta aderiu ao Programa Hortas Cariocas da prefeitura do Rio, que oferece assistência técnica e fomento à agricultura urbana, fornecendo mudas, insumos, terra e alguns equipamentos, além da bolsa-auxílio que os hortelões recebem.
Ainda assim, a horta se sustenta através dos editais nos quais o projeto foi inscrito e que estruturam a iniciativa, além das doações recebidas por meio de parcerias.


Colheita, destinação e mobilização comunitária
Walmyr conta que a horta funciona com uma rotatividade de espécies cultivadas, proporcionando uma colheita permanente e mais diversidade. Esse processo respeita o tipo de espécie, a temporada e o tempo, o que garante, de 15 em 15 dias, algum tipo de colheita que atende uma creche local.
Entre as espécies já colhidas, estão frutas: abacate, acerola, amora, banana, limão, mamão e maracujá; Verduras: agrião, alecrim, alface, coentro selvagem, couve, chicória, erva-cidreira, espinafre, hortelã, hortelã-pimenta, manjericão; e legumes: beterraba, jiló, milho, pimentão, pimenta, quiabo e tomate-cereja.
Além disso, a horta cultiva plantas e ervas medicinais que contribuam para o bem-estar, como a arruda, o boldo, a penicilina, o ora-pro-nobis e a taioba. Dependendo da quantidade ou volume da colheita, a horta realiza uma doação ampla para outros projetos sociais que ocorrem na favela.
“Entendemos que a colheita destinada para a creche, ela realiza um processo de garantia com rotatividade cultural. Cerca de 30 crianças são contempladas, assim como seus respectivos cuidadores da creche, impactando na segurança alimentar das crianças, oferecendo a elas uma variedade de alimentos orgânicos”, comenta o coordenador.
De tempos em tempos, a horta realiza mutirões, uma ferramenta social de articulação que promove uma aproximação do projeto com as pessoas, iniciando um processo de educação socioambiental. Para muitos, a horta é uma prática terapêutica; outros conseguem ter uma dimensão da pauta de sustentabilidade. Portanto, há um fortalecimento na comunicação comunitária e no envolvimento social.
O projeto ainda realiza ações externas voltadas às datas sazonais, como o dia das crianças e o Natal, propondo oficinas e colheitas que são destinadas aos eventos, junto com a mobilização da comunidade. Nos mutirões, as pessoas podem ajudar com todo o processo, da plantação até a colheita, como podas seletivas, capina, irrigação, preparação dos canteiros e entre outros.
Projeção futura e ampliação do projeto
Pensando no futuro e na expansão da horta, Walmyr conta quais são as expectativas que pretende alcançar: “Nós possuímos um contêiner em reforma. O desejo, na utilização desse espaço, é criar uma escola de educação ambiental para os moradores da Kelson’s, oferecendo cursos”, disse o mestre em sustentabilidade.
Inicialmente, a horta não foi pensada exclusivamente na produção de alimentos em larga escala, mas o plano era poder ajudar a comunidade através do projeto. “Cultivar, reeducar e pensar em formas de produzir seu próprio alimento em domicílio. Com a expansão, queremos começar a cultivar proteínas; um dos nossos objetivos é trabalhar com a criação de tilápia em caixa d’água, aumentando nossa variedade de alimentos”, afirma Walmyr Júnior.
“A base da alimentação nas favelas está pautada em embutidos, industrializados e sintéticos, uma alimentação que não é segura nem saudável, prejudicando no desenvolvimento físico da população, além de questões relacionadas ao tempo, à praticidade e à economia, que reforçam esses aspectos e influenciam essa massa aos maus hábitos que levam ao sedentarismo, à diabetes, à hipertensão, entre outros”, conclui.
*Esta reportagem é resultado do trabalho final de Marcos Macário e João Gabriel Rothier, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.
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