ODS 1
Pequenos abandonos e o direito de partir
Mulheres são ensinadas a suportar relações, empregos e vidas que as diminuem; romper com essa pedagogia da permanência também é uma forma de luta
Tem um pequeno ato de cuidado, quase invisível a olho nu, que sempre me lembra de nunca mais aceitar menos do que eu mereço – em qualquer relacionamento, no trabalho, e na verdade, em qualquer aspecto da vida. Uns bons anos atrás, eu vivi um relacionamento extremamente abusivo e, infelizmente, bastante longo. Essas ciladas que a gente cai na vida.
Com o tempo, a gente vai aprendendo a olhar as coisas por uma ótica um pouco mais legal com a gente mesma e para de se culpar, de se sentir burra, de se perguntar como pôde se submeter a algo tão horrível mesmo tendo conhecimento, recursos e seja lá o que for. Também com o tempo, a gente aprende que ter isso tudo não é escudo contra abusadores, que são meticulosos em minar a nossa autoestima, nos isolar de quem a gente ama e fazer com que a gente questione nossa própria percepção da realidade: “Ele disse que eu envergonho meus amigos e eles não têm coragem de me falar; será, gente?”
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Quando eu já percebia muito dos abusos psicológicos que sofria, um microabandono saltava aos meus olhos toda vez que ele me deixava em casa e ia para algum outro lugar. Mal eu fechava a porta e o carro já sumia na esquina, antes que eu sequer chegasse perto da portaria eletrônica. Não falhou UMA vez: ele NUNCA esperava que eu entrasse no prédio em segurança para acelerar, nunca. Fui reparando que todas as minhas amigas, colegas de trabalho, motoristas de aplicativo, conhecidos me dando carona, absolutamente todo mundo me dispensava esse cuidado. Mas ele, que vivia da porta para dentro comigo, era incapaz de me esperar entrar.


Óbvio que o gesto tem significado dentro de um contexto de muitos outros pequenos e grandiosos de descuido, desimportância – pelo menos no meu caso. Não é como se eu estivesse, de fato, em segurança, caso ele resolvesse aguardar que eu entrasse. Mas pra mim, a pisada no acelerador assim que eu descia do veículo se tornou um emblema de como a gente, mulher, vai aprendendo a aceitar menos do que deve, “porque a vida é assim mesmo”, “porque relacionamento é difícil”, “porque ficar sozinha é uma derrota”, e por mil outros falsos motivos que sustentam casamentos, amizades, namoros, empregos e tantas demais empreitadas falidas. A gente é ensinada a permanecer, custe o que custar, e invariavelmente, custa a gente mesma.
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Veja o que já enviamosE quando digo que “a gente é ensinada”, não estou falando necessariamente (mas também) do que vem da nossa criação, do que “aprendemos em casa”, mas do que, estruturalmente, é esperado e permitido a mulheres. Dos narizes alheios torcidos, achando que somos “abusadas” a qualquer conquista, qualquer desejo, qualquer “não”, porque “aí já é demais”. Porque querem que a gente passe a vida a pão e água. E pior: na maioria das vezes nem isso conseguimos em paz. Sofremos de abusos, violências, pobreza, fome, solidão e tantas outras mazelas que se tornam piores e maiores quanto mais distante do padrão branco, hétero, cisgênero, magro, jovem e feminino do que deve ser uma mulher.
Quando a gente aprende que pular fora é uma conquista maior do que ficar, a vida nunca mais é a mesma. É aquela coisa de ganhar o cabo de guerra soltando a corda, de parar de querer caber em espaços pequenos demais pra nós – e onde, depois de algum tempo, percebemos: lugares em que nunca quisemos, na realidade, estar. Ainda assim, poder partir ou recalcular a rota é um privilégio que nem toda mulher tem, por motivos diversos como dependência financeira, emocional, por medo, pelos filhos e filhas, por tanta coisa.
Por isso, não dá pra romantizar a saída, ou cair no engodo de que ela é possível para nós. Mas há uma política miúda e, ao mesmo tempo, gigante, em reaprender o que é cuidado, tão delegado às mulheres: não como favor, prêmio ou gentileza extraordinária, ou porque não damos conta de nós mesmas. Mas como o mínimo que sustenta qualquer relação que não queira nos reduzir. Tudo aquilo que pretende ficar também se mede nesses segundos em que alguém espera a gente entrar.
Até hoje, sempre que desço sozinha de um carro na porta de casa, faço o teste. Caminho até o portão, procuro a chave, entro, viro o corpo e aceno um “tudo bem” já com meio corpo pra dentro. Nunca falha: o carro ainda está ali. Por um segundo, penso naquela esquina onde o farol traseiro desaparecia antes que eu estivesse segura. Fecho o portão, sorrio de soslaio, e sei que não estou mais caminhando sozinha, e nem longe de mim mesma.
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